Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-03-2007

SECÇÃO: Recordar é viver

FOI HÁ 33 ANOS

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Tinha eu 21 anos, já casada e com dois filhos muito pequeninos. Recordo como se fosse hoje. De manhãzinha ouvi na rádio, que o meu marido tanto gostava de ouvir antes de ir para a escola, um burburinho, umas notícias ditas em tom muito grave e solene. Notícias essas que estavam a abalar Portugal e até o mundo. Os 48 anos de regime ditatorial estavam a chegar ao fim. E a canção chamada “E depois do adeus” de Paulo de Carvalho, tinha servido de senha apropriada.
Para ser sincera não dei grande importância, até porque eu nem gostava e ainda hoje não gosto de ouvir rádio na cama. Mas vi, pela expressão do meu marido, um misto de alegria e de esperança, que algo fora do “ram-ram” quotidiano estava a acontecer. Algo tão importante que até o fez ir ligar a televisão Grundig, a preto e branco que existia naquele tempo.
De vez em quando aparecia no ecrã um locutor com um ar circunspecto a informar e a pedir aos portugueses que mantivessem a calma e se deixassem estar em casa ou se mantivessem nos seus postos de trabalho, mas que, sobretudo, mantivessem a serenidade. Só ao alvorecer da madrugada de 26 de Abril é que apareceu na televisão a Junta de Salvação Nacional em representação do Movimento das Forças Armadas, de que ainda recordo nomes como António de Spínola, Galvão de Melo, Pinheiro de Azevedo, Silvino Silvério Marques e Costa Gomes.
Verdade seja dita! Eu não percebia patavina do que estava a suceder. Hoje devo confessar que me sinto um pouco ridícula pela minha ignorância de então. Mas não era de admirar! Os tempos eram outros! O lema do Governo de então era: Deus, Pátria e Família! Saber ler e escrever até à quarta classe… daí para a frente só quem tivesse posses e capacidades! Graças a Deus a nossa querida terra, Cabeceiras de Basto, apesar de ser naquele tempo um meio rural e muito interiorizado, onde a agricultura era e ainda é de subsistência ainda saíram dela, professores, médicos, advogados, engenheiros, juízes do Supremo e um grande presidente de Câmara!
Na foto, um dos principais capitães de Abril, o Coronel Otelo Saraiva de Carvalho, o Presidente da Câmara, Engº Joaquim Barreto, o ex-Presidente da Junta de Freguesia de Cavez, Alfredo Silva Magalhães e Fernanda Carneiro
Na foto, um dos principais capitães de Abril, o Coronel Otelo Saraiva de Carvalho, o Presidente da Câmara, Engº Joaquim Barreto, o ex-Presidente da Junta de Freguesia de Cavez, Alfredo Silva Magalhães e Fernanda Carneiro
Continuando com a lembrança daquela madrugada de Abril, sei que fiquei em pânico e peguei nos meus filhos para junto de mim. No entanto, a partir das imagens da TV, fui assimilando pouco a pouco o que realmente se passava. Não deixei, no entanto, no primeiro impacto, de pensar numa guerra mundial e que íamos morrer todos, pelo que me benzia constantemente! Bendita ingenuidade dos meus 21 anos!
O meu marido acalmou logo a minha ansiedade. Ele compreendia muito bem o que estava a acontecer. Estava muito calmo (mais do que o habitual) e com um sorriso no rosto. Comentou que “aquilo” já era esperado há muito. Ele também me confidenciou que já tinha votado contra a ditadura noutra altura em que só votavam os funcionários públicos. Mais alarmada fiquei ao pensar que poderia ter perdido o seu emprego se tal coisa se soubesse. Verdade ou mentira ouvia-se dizer, pela calada, que havia certas pessoas que serviam de informadores, a polícia secreta da então chamada PIDE, sempre atenta a possíveis subversores.
Não é preciso dizer que ficamos colados à televisão a ver os acontecimentos. Era em Lisboa que se estava a desenrolar aquilo que eu hoje chamarei de “parto”, pois ali estava a nascer a “menina Democracia”. Podemos dizer que foi um “parto” difícil já que demorou 48 anos! Era lá que os governantes fascistas se encontravam sequestrados no Quartel do Carmo, acompanhados de Marcelo Caetano.
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Devo confessar que Democracia, Política e Ditadura eram palavras que eu nunca tinha ouvido pronunciar, nem mesmo proferidas em casa.
Agora até compreendo porquê! Ele não concordava com o regime, mas também não nos queria envolver.
E foi a partir daquele dia que eu comecei a compreender a razão de algumas coisas:
- Percebi por que o meu avô tirava o chapéu constantemente a certas pessoas cá da terra!
-Percebi por que é que as Praças da Guarda afastavam os ajuntamentos!
- Percebi por que é que de vez em quando invadiam as casas das pessoas para vasculharem tudo!
- Percebi que quando o meu pai foi para Monção trabalhar de feitor numa quinta grande o meu avô teve de ser fiador!
- Percebi que a vida era duríssima para os meus pais, tanto que o meu pai se viu “obrigado” a ir para a França a “monte” ou com passaporte de “turista” a partir de Melgaço e que só valia por três meses! O meu pai até me contou outro dia que esteve lá mais tempo do que o permitido a um “turista” e, quando ele voltou mais o seu falecido irmão , meu padrinho ficaram presos na fronteira! O que lhes valeu foi um grande amigo, muito importante que era de Valinha do Minho, onde vivíamos! O meu pai tinha deixado em Monção seis filhos que cabiam todos "debaixo dum cesto"!
- Percebi por que se falava baixinho quando determinadas pessoas influentes da terra passavam junto dos grupos!
- Percebi por que uma ou outra criança foi metida na “tutoria”, juntamente com delinquentes da pior espécie, por brincadeiras próprias de crianças! Sei-o porque um caso desses passou-se com uma criança minha vizinha que teve a má ideia de tirar um pássaro do pombal pertencente a um coronel na reserva!
- Percebi que quando era, para se comer uma galinha ou um porquinho criados em casa com muito custo, para dar de comer aos filhos e ajudar nas lavouras, era um luxo que não era bem visto pelos patrões. Por alguns, é claro!...
Mas finalmente tinha chegado o dia da Libertação! Agora toda a gente tinha direito a votar! A partir daí o Povo é que iria sempre eleger quem entendesse que os deveria governar.
Nos primeiros tempos sentiu-se que todos estavam unidos pelo mesmo sentimento de liberdade e podemos dizer até com bastante euforia. Porém, como foram quarenta e oito anos de ditadura, não foi fácil aos portugueses assimilar toda a informação que lhes chegava e isso provocou confusão nas pessoas.
Aqueles que ousavam contestar a revolução eram logo apelidados de “fascistas” ou “pides”. Os princípios da jovem Democracia foram algo turbulentos e correu-se o risco de a perder. No seio das nossas famílias nem sempre estávamos todos de acordo e muitas vezes as conversas subiam de tom.
Deve dizer-se também que foram cometidos alguns abusos em nome da Democracia.
Hoje, passados trinta e três anos, as pessoas sabem muito bem o que querem, em quem vão votar, mesmo quando votam a pensar nos seus interesses pessoais. Mas de uma maneira geral estão conscientes dos seus actos políticos.
Nestes anos muitas coisas aconteceram. Uma boas outras más! Só tenho receio que a Democracia possa estar em perigo por causa do nosso comodismo, quando se opta pela abstenção. Quando há eleições, sejam elas quais forem, ninguém deve ficar em casa, devemos cumprir o nosso dever cívico. Com isso contribuiremos para impedir o perigo de os neo-ditadores regressarem ao nosso País! Tenho receio, não tanto por mim, mas pelos meus filhos e netos. Portugal está a atravessar um momento dificílimo, no aspecto económico, o que contribui para o desemprego na função pública e, em especial nas empresas fabris, o que obriga os portugueses a apertar o cinto cada vez mais. Mas acho que Portugal está no bom caminho mesmo que soframos com os sacrifícios impostos!
Espero bem que o 25 de Abril não seja esquecido pelos mais jovens, que não conheceram as dificuldades por que passaram aqueles que viveram sem liberdade. Para que isso não aconteça não será demais lembrar aos encarregados de educação e aos professores, nas escolas, a importância de falar dessa noite maravilhosa de 24 para 25 de Abril de 1974, em que Portugal acordou para a Liberdade!
Eu devo dizer que me sinto orgulhosa de ter acompanhado o 25 de Abril desde o início e durante o seu crescimento. E mais! De ter conhecido pessoalmente um dos Capitães de Abril o Coronel Otelo Saraiva de Carvalho!
Abril dos cravos, sempre!
Viva Abril! Viva a Liberdade!

Por: Fernanda Carneiro

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