Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-03-2007

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (75)

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É PIOR A EMENDA …

Trata-se de um provérbio de todos conhecido. Penso que haverá muito poucas pessoas que, alguma vez na vida, não o tenham referido. Significa que, alguma coisa que se corrigiu, por não estar bem, acabou por ficar pior depois de corrigida. Este provérbio: “é pior a emenda que o soneto”, sempre me foi familiar, e sempre soube, perfeitamente, o seu verdadeiro significado. O que eu não sabia, e isso intrigava-me sobremaneira, ao ponto de consultar dicionários, enciclopédias e até pessoas que eu julgava poderem ter uma explicação, sempre sem qualquer êxito, era qual a origem do texto do provérbio, de onde vinha a razão da sua letra.
Tudo ficou resolvido quando, há alguns meses atrás, ao assistir a um programa de televisão que se intitulava “cuidado com a língua”, programa que em minha opinião é de facto de grande interesse instrutivo e educativo, surgiu a resposta que acabou por dissipar a dúvida que há muito tempo me perseguia. O autor da frase é, nem mais nem menos, o nosso distinto escritor e poeta, José Maria Barbosa du Bocage. Eu conhecia várias das obras deste escritor, conhecia também muitas das anedotas que se contam como sendo da sua autoria, mas não sabia que ele era o autor do provérbio, agora já não tenho a certeza se poderei continuar a designá-lo por provérbio, uma vez que assumo que é da autoria de um escritor e poeta e não deriva da voz do povo. Mas, adiante, continuarei a chamar-lhe provérbio.
A história da origem do provérbio tem a ver com um jovem, um rapaz, que pretendia iniciar-se no ofício da escrita e começou por escrever um soneto. Como todos sabemos, um soneto é um pequeno texto de poesia formado por catorze versos, arrumado em duas quadras e dois tercetos, em que a rima é feita do seguinte modo: nas quadras o primeiro verso rima com o quarto e o segundo rima com o terceiro; e nos tercetos, cada um dos versos do primeiro rima com o verso homologo do segundo. Deixo-vos aqui um exemplo, tirado ao acaso, da lírica de Camões. É o soneto número 126:

“Julga-me a gente toda por perdido,
Vendo-me tão entregue a meu cuidado,
Andar sempre dos homens apartado
E dos tratos humanos esquecido.

Mas eu, que tenho o mundo conhecido,
E quase que sobre ele ando dobrado,
Tenho por baixo, rústico, enganado
Quem não é com meu mal engrandecido.

Vá revolvendo a terra, o mar e o vento,
Busque riquezas, honras e outra gente,
Vencendo ferro, fogo, frio e calma;

Que eu só em humilde estado me contento
De trazer esculpido eternamente
Vosso fermoso gesto dentro da alma”.

O nosso rapaz, pretendente ao ofício da escrita, sabendo da fama e do talento de Bocage, encheu-se de coragem, e pediu ao poeta que lhe fizesse uma apreciação literária do seu soneto. Pediu que, cada palavra que o poeta verificasse que era inadequada ou que estava fora de contexto, fosse assinalada com uma cruz.
Bocage assim fez. Começou a ler o soneto e a colocar uma cruz em cada palavra que, segundo a sua opinião, não se encontrava minimamente adequada. Quando chegou ao fim, verificou que eram quase tantas as cruzes quantas as palavras que o soneto continha. Então Bocage devolveu o soneto ao rapaz com a seguinte nota: “meu especial amigo, devolvo-lhe o seu soneto na sua versão inicial porque, se mantivesse as cruzes que ao princípio lhe estava a colocar ficaria «pior a emenda que o soneto»”.
Eis a origem literária do provérbio que durante tanto tempo martirizou a minha curiosidade. Fiquei, na verdade, muito contente com o desvendar deste enigma. O mesmo não poderei dizer relativamente ao mesmo programa, transmitido em data mais recente, e onde foi afirmado que devia escrever-se: “ vendem-se andares” em vez de “vende-se andares”. Foi feita referência ao parecer de um especialista de língua portuguesa que ditou tal interpretação. Pela minha parte, continuarei a discordar, e garanto que pronunciarei e escreverei sempre, até que a voz e o dedo me doam: “vende-se andares”, ou, em alternativa: “andares vendem-se”.
Para finalizar, poderia deixar aqui uma das muitas anedotas que se contam como sendo de Bocage, mas fica para a próxima. Enquanto esperam, leiam aquela em que ele estava, numa das ruas da cidade de Setúbal, sua terra natal, agarrado a uma argola, daquelas que existem em alguns prédios antigos e que se destinavam a prender os cavalos e berrava: “há-de sair… há-de sair… e finalmente saiu…”. Mas o que é que foi que saiu? Não foi a argola, com certeza!

Por: José Costa Oliveira

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