Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 28-02-2007

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (74)

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A PEGADA ECOLÓGICA

Não me considero um saudosista, muito menos nos precisos termos em que o vocábulo tem sido, por norma, utilizado. De qualquer modo, penso que, e falando da paisagem que envolvia, por exemplo, o nosso burgo, há pouco mais de quatro décadas atrás, se sente uma forte nostalgia quando, mentalmente, se tenta estabelecer qualquer nexo de comparação. É evidente que, só pode sentir nostalgia, quem se lembra do que era, e observa agora o que é, a nossa paisagem. Tenhamos presente que há aqueles que não se lembram, pela razão bem simples, de terem nascido depois. E há os outros que não se lembram, apenas pela perversa razão, de não quererem lembrar-se seja do que for.
O fenómeno não é de natureza local, muito longe disso, e não está, de modo algum, nas minhas intenções, tecer qualquer pedacinho de crítica, seja ao que for, ou seja a quem quer que seja. O fenómeno nem sequer é meramente nacional, o fenómeno é, sem qualquer espécie de dúvida, de amplitude universal. É, em minha opinião, a crise do crescimento. Cresce-se de toda e qualquer maneira. Cresce-se anarquicamente. O que interessa é construir o maior número possível de prédios, rotundas e avenidas. Depois é a anarquia da construção. Prédios desalinhados, cores berrantes e agressivas. Os arruamentos têm uma geometria tanto mais sinuosa e desalinhada, quanto mais recente é a sua concepção e construção.
O Jornal de Notícias publicava, na sua página número quarenta e oito, do dia 24 de Outubro de 2006, um trabalho sobre o tema do ambiente, com o seguinte título: “humanidade vai precisar de dois planetas para satisfazer consumo” e, em subtítulos: “relatório Planeta Vivo 2006 avisa que são já necessários os recursos de um planeta e um quarto para sobreviver” e “índice de vida na Terra indica diminuição de 30% nas populações de vertebrados terrestres, marinhos e de água doce”.
Não é muito difícil, para qualquer um de nós, imaginar o que era o mundo, e em particular o que era a paisagem, há cem anos atrás, dispomos de todo o conjunto de informação histórica e geográfica. Todos nós podemos constatar, com a maior das evidências, o que é o mundo, e em particular o que é a paisagem, nos dias de hoje. O salto de crescimento foi enorme. Não me atrevo sequer a adiantar um qualquer factor de multiplicação. Há cidades com muitos milhões de habitantes onde há cem anos havia apenas paisagem. As áreas de cultivo e de floresta são enormemente inferiores, nos dias de hoje, ao que eram há cem, ou mesmo cinquenta, anos atrás.
Seguindo o exemplo da notícia que acima referi, extraída do Jornal de Notícias, dei-me ao cuidado de calcular a minha própria pegada ecológica. O valor da minha pegada, isto é, o espaço necessário para a minha sobrevivência, é de 5,7 hectares, sendo que a média da pegada ecológica do nosso país é de 4,5 hectares globais por pessoa. Mundialmente, existem 1,8 hectares globais de área biologicamente produtiva por pessoa. Significa isto que, se todos tivessem uma pegada ecológica igual à minha própria pegada, seriam precisos 3,2 planetas terra para que pudéssemos continuar a sobreviver.
Eu interrogo-me, muito sinceramente, sobre o que será o planeta daqui a cem anos. A avaliar pelo que aconteceu nos últimos cem, parece não haver grandes dúvidas de que caminha, vertiginosamente, para a exaustão de recursos e de espaço. Não confundamos crise de crescimento com crise de desenvolvimento. No que respeita a desenvolvimento, no sentido sincero e verdadeiro do termo, há ainda muito a fazer. Desenvolvimento significa dar mais e melhores oportunidades aos mais pobres e desfavorecidos. Refiro-me aos países e povos do chamado terceiro mundo, de onde é retirada a maior parte de todas as matérias-primas, que vêm das suas florestas e dos seus recursos mineiros, tudo delapidado sem que reste algum benefício para eles próprios, onde os exploradores deixam apenas a poluição e o desbaste do meio natural.
Depois é a crise do aquecimento global, o protocolo de Quioto que ninguém cumpre, o nível do mar que, nos próximos cinquenta anos, subirá cerca de um metro, provocando o recuo inevitável de milhões de pessoas que habitam zonas ribeirinhas, espécies animais e vegetais que desaparecerão, pelo menos dos habitats que actualmente povoam. A geração actual, na qual eu próprio me incluo, não será muito afectada pelo fenómeno, daqui a cem anos poucos restarão dos que actualmente são nascidos, e os que restarem estarão suficientemente velhos para terem alguma preocupação com o assunto. Mas, que ninguém tenha qualquer dúvida sobre o que será o julgamento da história. A história é implacável, e, tal como actualmente julga como heróis aqueles que há séculos atrás deram novos mundos ao mundo, julgar-nos-á a nós, a mim e a vós todos, pelo que de ruim lhes deixámos em termos de planeta impossível de habitar. Porém, parece-me inevitável que haverá, entretanto, um cataclismo qualquer, e acontecerá, ao resultado de todo este nosso progresso, o mesmo que aconteceu aos dinossauros.

Por: José Costa Oliveira

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