Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-02-2007

SECÇÃO: Crónica

EXCURSÃO A FÁTIMA - (continuação)

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Queridos leitores, certamente ainda tendes na memória a primeira parte da crónica que escrevi há quinze dias, no jornal anterior e, que cujo tema era uma excursão a Fátima, com as habituais e inevitáveis peripécias.
Como vos já tinha contado, depois de concluídas as cerimónias e termos almoçado perto do Santuário, fizemos o retorno, com algumas paragens turísticas pelo caminho até chegarmos à Covilhã, fazendo tudo o que constava do roteiro combinado com o Armando “monárquico”, alugador de camionetas.
Foi na Covilhã, depois de alugar um quarto para dormir, que eu e a tal moça demos início a algumas confidências.
Não sei exactamente qual foi a origem da conversa, possivelmente começamos a falar da família, dos filhos e neste caso dos maridos ausentes. Apesar do cansaço, devido aos assentos da camioneta que depois de muitas horas se tornam incómodos, o facto é que não conseguíamos dormir e, “conversa vai, conversa fica”, tivemos “paleio” para uma boa parte da noite. Falamos de tudo um pouco. Naturalmente também contei que tinha três filhos, incluindo o que tinha ido connosco na camioneta, que, sabe-se lá por onde andava com a rapaziada da excursão… Ela falou no marido com o qual era muito feliz mais os seus filhotes. O que eu não contava era com o que ela me disse depois!
- Eu sou feliz com o meu homem, ele é meu amigo mas o nosso princípio... Ele não era o meu escolhido e sobretudo não era o que eu namorava às escondidas!
- Alto! O que será que aí vem? Pensei eu para os meus botões… Ela continuou com as confidências fazendo uma retrospectiva ao seu passado.
Deu para perceber na sua voz uma certa nostalgia e para ser sincera uma revolta contra os seus progenitores, especialmente contra o pai, mesmo que já tivessem passado alguns anos! Ela continuou embalada pela emoção:
- No dia em que eu me casei com Bernardo estava com as malas feitas na casa de uma amiga para fugir”! Diz a Arminda no silêncio do quarto, onde apenas se ouvia a respiração sossegada dos seus filhos caídos num sono profundo. Eu agradeci a Deus a escuridão do quarto para não mostrar o meu rosto incrédulo com o que ouvia.
- É verdade! – tornou ela – foram os meus pais que me empurraram para este casamento sem eu gostar dele! De quem eu gostava era do rapaz com quem eu namorava já há bastante tempo, escondida principalmente do meu pai! Os meus pais eram muito egoístas e interesseiros, só queriam que eu arranjasse um homem que fosse lavrador ou que tivesse um emprego certo. Aí veio-me à memória duas tias minhas que também tiveram uns casamentos arranjados com dois lavradores de uma aldeia, bastante isolada na época, que pertence a Cabeceiras de Basto e, que um dos matrimónios não deu lá muito certo! Eu, neste momento de confidência, não pude resistir e exclamei:
- Credo! Isso é verdade? Isso que me está a contar parece um romance!
- E como é que isso aconteceu? Perguntei baixinho para não perturbar aquele momento! Eu, não teria mais que trinta e quatro ou trinta e cinco anos e era primeira vez que ouvia uma história de tal enredo, na primeira pessoa!
A minha amiga ocasional lá ia continuando: - Eu já namorava há muito tempo com um rapaz vizinho mas, às escondidas…
O meu pai cismou com ele, dizia que não tinha emprego certo, que o rapaz certo para mim era o Bernardo, que era de gente séria, poupada e já tinha um emprego garantido numa cidade do norte.
- Mas o rapaz de quem a Arminda gostava não era sério? Não trabalhava? Não era de boa família? Perguntei já a pensar que estava inserida em pleno romance de Camilo Castelo Branco ou Eça de Queirós que na época eu lia muito!
E, ela continuava… - o rapaz de quem eu gostava era de boa gente, não era rico mas, era muito trabalhador. Ele não trabalhava cá, era emigrante. Tinha bons pais, irmãos, todos amigos uns dos outros. Sei que também já casou com uma moça da vila que está bem na vida.
- O seu pai, por acaso era rico ou lavrador importante para se estar a meter tanto no casamento da filha? O que fazia ele? Que “teres” é que tem? Continuei eu, também já a fazer juízos de valor contra os pais dela.
- Olhe, o meu pai tinha umas leiras e seis vacas e matava dois porcos por ano e trabalhava ao dia na construção de casas! Não éramos uns pobretanas! O problema é que estas desavenças já são coisas antigas entre as nossas famílias… tudo por causa de um campo e de uns regos de água!
- Como é que nos tempos de hoje resolveu casar com um a gostar de outro? E o que é hoje seu marido não se apercebia que você andava a suspirar por outro? Como é que chegou ao altar com ele?
Devo confessar que já estava em pulgas com a confissão… e a minha imaginação a funcionar.
- Olhe! É assim: eu tinha uma vizinha, muito minha amiga com quem eu desabafava e chorava as minhas mágoas e, ela um dia em que eu chorei muito na casa dela, a lamentar a minha vida e a dizer-lhe que preferia morrer a casar com outro, ela, talvez farta dos meus choros, aconselhou-me que dissesse a tudo “amén” ao meu pai e, lhe dissesse que ia pensar no assunto, de casar com o Bernardo e, entretanto fosse namorando com o outro.
A Arminda se melhor pensou, melhor o fez! Foi magicando na sua cabeça que a melhor maneira de se tornar livre e independente dos pais e sair de casa era casar com o pretendente favorito deles e no dia do casório “ala que se faz tarde”!
Sinceramente não sei o que passou pela cabeça desta rapariga… Isto só em romances, do tipo “Simplesmente Maria” que passou na rádio há muitos e muitos anos e que fez derramar muitas lágrimas! Eu também chorei algumas!
Ela levou até ao fim o seu estratagema e chegou o dia do casamento. Tinha tudo combinado com a tal amiga, que não concordava com o que estava a preparar para fazer. Tinha posto em casa dela duas malinhas de roupa e o namorado também estava lá escondido para fugir com ela! Eu, neste ponto da história já estava assombradíssima mas, da minha boca só saíam uns “ahs” inaudíveis… não fosse um barulho mais forte quebrar aquele momento narrativo!
Mas quis o destino que a vida da Arminda levasse outro rumo. Como que adivinhando o que se passava na cabeça (eu penso até que os pais e o noivo, já sabiam de alguma coisa) estiveram sempre em redor dela como é lógico num casamento!
- Ó Arminda o que é que lhe estava a passar pela cabeça, enquanto trocavam alianças?
- Olhe, Fernanda! A minha cabeça estava a cem à hora… por um lado estava revoltada, por outro também tinha pena do meu marido, de quem gosto muito!
- Está a ver! Deus escreve direito por linhas tortas! Retorqui eu dando uma de filósofa usando uma frase muito batida mas, achei que se aplicava muito bem àquela situação!
- Não consegui fugir! Também não tive a coragem necessária! Já não tinha de ser!
- Quer dizer…então da igreja foi tudo em procissão para o almoço, com você à frente mais o Bernardo… e lá ficou para trás o outro mais as malas…
- E à noite? Como é que foi? Já lhe tinha passado pela cabeça que tinha de deitar-se com ele? “
- Já sim senhor! E o meu coração parecia que saltava do peito e os dentes batiam com tanta força”…
- À noitinha ganhei coragem e lá fomos para a casa onde o Bernardo já vivia. Não era muito grande mas era arranjadinha! Tinha dois quartos, uma sala comum, cozinha e a casa de banho e uns fundos.
- E à noite como é que você reagiu ao saber que tinha que dormir com ele? Você sabe… uma vez que chegou a esse ponto… tinha que lhe dar saída!” Neste momento eu estava a ponto de explodir de curiosidade! - O que lhe disse? Ele já estaria desconfiado com o seu comportamento …
- Disse-lhe que não ia dormir no mesmo quarto, que o casamento com ele tinha sido arranjado pelos meus pais e, que ele bem sabia que o homem que eu queria para me casar não era ele!
- Assim sem mais nem menos? Exclamei eu!
- Sim! Foi mesmo assim!
- Ele reagiu mal?
- Não! Disse que já desconfiava e que não era tão tolo ao ponto de não perceber o que se passava comigo…até mesmo quando me tentava abraçar e beijar e eu me afastava, dando a desculpa que não gostava dessas intimidades e, só depois do casamento… mas como gostava muito de mim há já muito tempo aguentou tudo até ao fim! E assim fez! Ele aceitou dormirmos em quartos separados… a ver no que ia dar! O Bernardo ia para o trabalho todos os dias e vinha para casa com um ar feliz com se o casamento fosse o chamado “normal”.
Ela confidenciou-me que o ouviu todas as noites encostado à porta do seu quarto, a suspirar na esperança dela o chamar! Por essa altura ela já estava a começar a conformar-se e de certa maneira a aceitá-lo, o que também contribuiu o carinho com que ele a tratava!
Costuma-se dizer que “água mole em pedra dura tanto dá que até que fura”. Não sei se será este ditado o mais adequado para estes dois mas, a verdade é que persistência do Bernardo, o seu bom íntimo e a educação que os seus pais lhe tinham dado tinha dado os seus frutos!
- E, então Arminda? Como é que foi, ao fim de tantos dias a dormirem separados?
- Houve um dia que ele chegou a casa com um bolo de uma pastelaria próxima de minha casa e, vi nele que trazia um ar, diferente, determinado! Vi, pelo rosto dele que aquela noite não ia ser como as anteriores, eu senti também que a minha vida se iria decidir a partir daquele dia (ou noite para ser mais correcta). Por esta altura também já estava decidida a levar por diante o meu casamento e a deitar para trás das costas o meu passado. Jantamos e comemos o bolo que ele trouxe. Eu estava muito nervosa e até na expectativa do que iria acontecer. Fui para o meu quarto como de costume aguardei por alguma coisa que sabia que ia acontecer… e eu já ansiava! E aconteceu! O Bernardo abriu a porta e empurrou devagarinho… talvez a recear que eu não o quisesse. Por essa altura eu já gostava muito dele! Compreendi que o amor que eu dizia sentir pela outra pessoa não foi mais que um amor passageiro, diria até que era um pretexto para me revoltar contra os meus pais, que eram tão agressivos!
Agora sou feliz com ele, damo-nos muito bem, tenho este casal de filhos e agradeço a Deus que tudo tenha terminado da melhor maneira!
Senti na voz dela a emoção com que falava no seu Bernardo! Via-se que a sua história teve um final feliz! E ainda bem! E acabamos por adormecer!
No outro dia juntamo-nos todos em volta da camioneta e ouvimos as indicações do senhor Armando “monárquico” e preparamo-nos para subir à Serra da Estrela, para minha agonia, porque eu sofro de vertigens, mas fazia parte do itinerário.
Lá entrei para o meu lugar a pensar na Arminda! Em como a história dela teve um final feliz! Teve sorte que lhe tenha saído na “rifa” um marido assim!
Já foi há tantos anos! Nunca mais a vi! Oxalá ela continue feliz com o seu Bernardo!

Por: Fernanda Carneiro

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