Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-01-2007

SECÇÃO: Recordar é viver

Excursão a Fátima

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Ai que nunca mais chegamos!...

Queridos leitores hoje queria contar-vos uma história verdadeira, repleta de emoções e de nostalgia que me foi contada há muitos e muitos anos por uma mulher, muito jovem, numa das três vezes em que eu fui a Fátima de excursão, durante três dias, e se não me falha a memória foi num mês de Maio.
Como vos disse, foi mesmo há muitos anos e, como deveis compreender, vou contar a história, que me pareceu interessante e ao mesmo tempo emocionante, usando nomes diferentes para que não haja qualquer associação a pessoas conhecidas. Até porque essa pessoa reside muito longe de Cabeceiras de Basto e nunca mais a vi. O facto dela nos acompanhar na excursão deveu-se a um pedido de uma graça a Nossa Senhora de Fátima, em Leiria, quando era muito jovem e ainda ela residia no concelho de Cabeceiras de Basto.
Vou tentar contar esta história como se de um conto se tratasse, com personagens, locais, lugares, onde não falte um pouco de enredo, de espanto, de admiração, surpresa, de raiva mas também de um amor conquistado no final. Então vou começar pelo princípio e tentar dar uma sequência à narração.
Como sabia que o Armando “Monárquico” ainda continuava a organizar excursões, aproveitou dois lugares vagos da camioneta para assim cumprir o devido. De maneira que foi um para ela e outro para dois filhotes pequenos que ela tinha - penso até que só teve esses dois filhos - um rapaz e uma rapariga, que hoje, possivelmente, já formaram família. O marido não pôde ir porque não podia faltar ao trabalho durante três dias.
Embarque no dia 12 de Maio, pela manhãzinha, com os passageiros da Raposeira;
-“Vamos lá senhoras e senhores! Toca a entrar cada um para os vossos lugares marcados”, repete já pela terceira vez o senhor Armando Vilela, alugador de camionetas, mais conhecido pelo “Armando Monárquico”.
- “Vamos lá D. Fernandinha (é assim que ele me costuma chamar), já arrumou a sua merenda? Então toca a subir”. E continua ele na sua já habitual ladainha, fruto já de muitos anos de organizador de viagens. “O seu filho Nelinho, mais o seu cavaquinho (já naquele tempo ele levou um cavaquinho para tocar à noite), vai lá para trás para junto dos outros rapazes, que bem pode! O que eles querem é paródia! A Fernandinha como enjoa vai no lugar do guia à frente”. Claro que eu enjoava um pouco e, a viagem era longa (durava três dias a excursão), mas eu, devo aqui confessar, com toda a franqueza, também exagerava um pouco no enjoo, pois o que eu queria era ver tudo bem visto de um lugar melhor! Afinal estava enganada! Dei conta desse pormenor à primeira vontade de urinar de todos os ocupantes da camioneta que tinham que sair pelo lugar da frente! Além de ter de me levantar ou ter que sumir a barriga para eles passarem também ficava descalça, porque com a velocidade com que desciam as escadas, arrancavam-me os sapatos dos pés. Eu, perante este facto comecei a torcer o nariz, um tanto ou quanto aborrecida. Em qualquer paragem que a camioneta fizesse tinha que me levantar primeiro do assento para dar passagem! O meu filho com o humor que ainda hoje o caracteriza, dizia trocista: - “Ó mãe você queria ir à frente, agora aguente!”. E depois lá íamos todos a falar ao mesmo tempo e a decidir o que se cantava ou então se rezávamos o terço, para que Nossa Senhora nos protegesse na viagem. Os rapazes lá atrás torceram o nariz e, pediram ao motorista que pusesse uma música mais estilo rock. Não adiantou nada porque quem “dirigia” as vontades eram sempre os mais velhos e os veteranos “habitués” destas viagens. Confesso aqui para vós que também não era o meu forte rezar na camioneta. Isto sem ofensa aos mais beatos ou a Deus. Longe de mim tal ideia mas era muito nova e achava (e ainda acho) que as rezas são nos locais próprios, quer dizer, em qualquer sitio mas em silêncio, em casa com a família ou nos locais sagrados, como as igrejas e capelas.
Mas quando começavam a cantar então aí era uma regalo para os ouvidos ouvi-los, principalmente a Aldinha, esposa do Pereirinha e a Candidinha Barroso, ambas do lugar de Chacim. Eram umas senhoras muito divertidas e muito francas. Até custava menos a passar as horas da camioneta.
Das três vezes que fiz esta excursão o Teodoro de Chacim, a D. Aldinha do Pereirinha, a empregada e uma afilhada dela, a D. Candidinha Barroso, o Geninho e a sua esposa D. Emília, as filhas, que na época eram umas bebés, gentes de Riodouro, pessoas da Raposeira, como o meu falecido padrinho, António Campos e a madrinha, a Laura da Touça e as filhas, penso que também ia o Paulino Marques do Bairro Alto, da Raposeira, também já falecido e outras pessoas que eu não conhecia, eram habituais nas camionetas do Armando “Monárquico” da Raposeira.
Certo era que durante aqueles três dias nos tornávamos uma família. Repartíamos os merendeiros, provávamos as pingas e diziam-se algumas brincadeiras. Haviam pessoas que cozinhavam durante as paragens maiores. Levavam um fogão pequeno a gás e lá faziam um arroz fresco e mais alguma coisa que levavam de casa, como frango temperado, que por vezes já não tinha um cheiro muito apetitoso, e já estava! Um dos que mais cozinhava era o Teodoro de Chacim. Digo isto porque havia sempre alguém a dizer-lhe nas paragens:
-“Teodoro põe o fogão cá fora! Ó Teodoro vai buscar água para fazer o arroz”! O Teodoro era sempre chamado para fazer qualquer coisa! Era de boas vontades! O problema estava que à noite queria dormir e se atravessava no meio do corredor da camioneta e os outros não podiam passar, de maneira que levava sempre algumas calcadelas! Eu tinha pena porque ele era muito educado!
Os rapazes mais novos depois de merendarem bem e, enquanto aguardavam a hora da partida iam até a algum café que estivesse próximo. O meu rapaz lá ia também para meu desassossego. Não escapava ao meu sermão e à missa cantada. Mas graças a Deus nunca aconteceu nada!
Entre rezas, cantigas de igreja ou outras mais brejeiras lá chegávamos perto do recinto de Fátima e parávamos próximos dos locais reservados às excursões. O senhor Armando tinha sempre tudo bem combinado, mesmo até onde devíamos comer uma sopa quente. Parece que ainda o estou a ouvir:
- “Pessoal ouçam-me com atenção! Vamos parar aqui nesta pensão para vocês se refrescarem, lavarem as “partes baixas” e depois comerem uma sopinha quente. Está tudo combinado com os donos da pensão. Depois de descansarmos um bocadinho já com o estômago confortado vamos para as cerimónias da noite e para a procissão das velas. Tenham cuidado com as carteiras e vejam se não se perdem uns dos outros. Vejam se fixam o lugar das camionetas. Se alguém se sentir doente, se tiverem frio ou se quiserem vir embora para dormir, o condutor está sempre por aqui para abrir a porta”.
Desde o primeiro dia da partida para Leiria que nós sentimos sempre empatia por uma ou outra pessoa. Talvez pelo sorriso, também pela franqueza da oferta de um rissol ou croquete, ou um bocadinho de pão caseiro do merendeiro, não sei. Sei que havia lá a tal rapariga que eu já falei no início da minha crónica e, teria mais dois ou três anos que eu e, que nunca tinha visto por Cabeceiras. Lá fomos trocando algumas palavras e confraternizando e cantando com as outras pessoas. No dia treze de Maio, finda as cerimónias religiosas e depois do adeus a Nossa Senhora de Fátima, comemos o que restava das merendas e fizemos o retorno até à cidade da Covilhã, para aí pernoitar. Estava previsto que de manhã bem cedinho, do dia 14, iríamos subir à Serra da Estrela. Eu aí já fiquei angustiada. As alturas não são o meu forte. Posso até dizer que são o meu terror. Já aconteceu de entrar em pânico na Serra d’Arga e, deixar o carro no meio da estrada e o meu marido ter de o tirar! Mas como eu ía dizendo, chegamos à Covilhã. Aí apareceram logo mulheres de todos os lados às portas das camionetas a oferecerem dormidas.
-“Quartos, rooms, zimmers” diziam elas. “Venham cá meus queridos, tenho quartos de casal e de solteiros, e tenho divãs para as crianças. É tudo limpinho e de confiança”. Claro que nós íamos olhando com a máxima atenção para a cara delas a ver se víamos alguma coisa suspeita. O que eu queria e algumas da nossa camioneta era o descanso de uma caminha, porque isto de dormir uma noite no autocarro já era demais para mim! Mesmo até pelos cheiros inevitáveis…
Depois de alguma procura alguns casais com filhos lá se acomodaram nalguma pensão. O meu filho andou no pagode com os outros rapazes, eu fiquei no mesmo quarto dessa tal moça que tinha os dois filhos pequenos. Ela na cama grande com os meninos eu num divã pequeno. Tomamos um banho quentinho e deitamo-nos para um descanso merecido. Apagou-se a luz e então no silêncio da noite e na escuridão, a minha recente amiga faz uma revelação que me deixou estupefacta:
-“No dia do meu casamento eu tinha as malas feitas na casa de uma amiga para fugir com o homem que eu gostava, que foi meu namorado e a minha família não gostava dele…
(continua)

Por: Fernanda Carneiro

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