Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-01-2007

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (73)

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O ÚLTIMO DIA DA MINHA VIDA

Muito sinceramente, não tenho nada que me anime contra os contabilistas, antes pelo contrário, aprecio e defendo a profissão. Por estranhas razões do destino, também eu, nas horas vagas, assino uma ou outra contabilidade. Embora não sendo contabilista por formação, estou perfeitamente credenciado para o exercício de tal função, sou o sócio número mil quinhentos e trinta e um da Câmara dos TOCs, tenho as quotas em dia, e, quem está habilitado para fazer o mais, está, sem qualquer dúvida, habilitado para fazer o menos. Porém, a partir do momento em que me contaram uma anedota, sobre a função e a filosofia dos contabilistas, passei, muito sinceramente, a ver o desempenho da profissão com alguma reserva.
Uma vez que fiz referência a uma anedota, penso que será minha obrigação divulgá-la, antes de tudo, para que não pensem, que a minha pequena reserva não tem qualquer fundamento. Então, e para ser o mais sucinto possível, vou omitir a maior parte dos entremeios que a anedota relata, indo de imediato à sua parte final: “Tratou-se de um empresário da era moderna, que pretendia recrutar, para os seus serviços de contabilidade, um contabilista. Pôs um anúncio no jornal, obteve cento e cinquenta e cinco respostas, destas, seleccionou cinco para entrevistar os candidatos. Chamou os seleccionados um por um, e colocou a todos a mesma questão, que como ele próprio referia era muito simples. A questão era: “quanto seria, na opinião do candidato, a soma de dois mais dois”. Com mais ou menos relutância, todos foram respondendo que dois mais dois era quatro, excepto um, o último a ser entrevistado, que, olhando bem nos olhos do entrevistador, disparou sem qualquer hesitação: “Senhor F. dois mais dois é aquilo que o Senhor F. quiser”. Penso, muito sinceramente, que já toda a gente se apercebeu de qual foi o candidato escolhido pelo Senhor F. Também devem ter percebido, a principal razão, porque é que eu não nutro grande simpatia pela profissão dos contabilistas.
“Como não tenho muito que fazer”. Esta afirmação tem sentido marcadamente perverso. Pretende chamar à liça o pressuposto de que há quem diga que eu não faço nada. Sobre este pormenor, não posso deixar de exprimir aqui a minha mais profunda revolta e indignação, relativamente a esses marmanjos, que ousam emitir opinião sobre o meu desempenho profissional. São efectivamente desprovidas de qualquer fundamento tais afirmações, porque, em boa verdade, eu trabalho que nem um escravo, e disso disponho de provas concretas e irrefutáveis.
Deixando de lado esses ditos malévolos, decidi dedicar algum do meu tempo à realização de um estudo sobre o dia em que irei desta para melhor. Lembro, aos mais pintados, que isto não é trabalho para contabilistas, e sobretudo, para aqueles que se julgam capazes de responder a questões, como a que fora colocada pelo Senhor F., alvitrando qualquer solução para a simples operação aritmética de determinar a soma, em contabilidade, de dois mais dois.
No meu estudo tive que recorrer a sólidos conhecimentos de econometria, ciência que se serve de saberes conjuntos de economia, estatística e matemática. Para o desenvolvimento desse trabalho, a determinação do dia exacto em que deixarei este mundo, tomei como base as idades com que morreram os meus ascendentes na linha recta. Ascendentes na linha recta são os pais, os avós, os bisavós e por aí acima. Nesta coisa de estudos sobre tendências, expectativas e outras coisas do género, há sempre que estabelecer determinadas restrições ao âmbito do trabalho e à dimensão da amostra. Como o meu pai já faleceu, e que seria a fonte mais segura para me fornecer informação sobre as idades com que faleceram os seus próprios ascendentes, decidi restringir a dimensão da amostra aos ascendentes maternos, aliás, parece-me até que o resultado irá ser mais fiel, uma vez que penso ser geneticamente mais parecido com a minha mãe, do que com o meu pai, já falecido.
Por informação da minha mãe, consegui certificar-me, com total exactidão, de que os meus quatro bisavós maternos morreram com as idades médias de noventa e três anos e vinte e nove dias. Que, por seu lado, os meus dois avós maternos morreram com as idades médias de noventa e cinco anos e cento e sessenta e seis dias. A minha mãe conta já mais de oitenta e quatro e não entra para a média.
Recorrendo à teoria econométrica do Professor J. Johnston, e utilizando um modelo de regressão linear, através de estimadores de mínimos quadrados, não viesados, com uma variância e desvio padrão correctamente calculados, consegui estimar, com margem de erro quase nula, que o meu dia chegará quando eu perfizer a provecta idade de noventa e três anos e trezentos e dezanove dias.
Em finais de 2099, quando se iniciarem as festividades de passagem do século XXI para o século XXII, ser-me-á erigida uma estátua, no centro da Praça da República, voltada para nascente, e na sua base ficará escrito: “Este foi o cientista que previu o dia exacto do seu passamento”.


Por: José Costa Oliveira

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