Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-01-2007

SECÇÃO: Região

Uma festa popular muito antiga

Após o cortejo dos alimentos é celebrada a missa campal em honra de S.Sebastião
Após o cortejo dos alimentos é celebrada a missa campal em honra de S.Sebastião
PAPAS DO SAMÃO COM “MEZINHA” PARA TODOS

A tão original quanto antiga Festa das Papas do Samão que, tradicionalmente, se efectua no dia 20 de Janeiro, está já a agitar aquela típica aldeia serrana de Cabeceiras de Basto.
A chamada Casa do Santo onde se localiza um grande forno a lenha e a lareira, recebe os últimos preparativos pelas mãos dos diligentes mordomos escolhidos pela comunidade local para dar corpo a esta manifestação de raiz religiosa a que não falta uma componente pagã muito especial.
Centenas de pessoas degestam com agrado o repasto
Centenas de pessoas degestam com agrado o repasto
Os porcos, de onde sairá a carne mais gorda para o ofertório aos fiéis de S. Sebastião, estão prontos para a desmancha e a broa de milho tem a farinha e o fermento em preparação para que nada falte no dia consagrado à festa. Os potes gigantes em ferro, estão também prontos a cozer as “papas”, uma espécie de caldo de farinha, no qual são introduzidos pedaços do “carolo” da referida carne de suíno.
O alongado campo que vai servir de mesa ao “manjar” está nesta altura a ser limpo das ervas daninhas, para ali serem estendidas as toalhas de linho com 20 metros de cumprimentos e 60 centímetros de largura, sobre as quais serão colocados os alimentos, espaçados pela distância de uma vara, missão que cabe a um homem, devidamente preparado para a tarefa, e que tem por objectivo conseguir que esses alimentos cheguem para todos os forasteiros.
As toalhas de linho são estendidas e os alimentos distribuídos
As toalhas de linho são estendidas e os alimentos distribuídos
No espaço de cada vara, são colocados, uma broa de milho, a carne, as papas e o vinho verde da região. A partir desta regra, as pessoas que se reúnem em longas filas duplas dividem entre si o “menu” que, mais do que saciar o apetite do dia, procuram compensações do sobrenatural, ou seja, da “mezinha” contida nos alimentos depois de benzidos.
Desta benzedura encarrega-se o pároco da freguesia, acto realizado na Casa do Santo, seguindo-se uma procissão com o andor de S. Sebastião à frente e dois carros de bois que carregam as broas e as tigelas com as “papas” em direcção ao “campo de jantar”.
A broa, as papas e a carne integram o "menu"
A broa, as papas e a carne integram o "menu"


O Santo, S. Sebastião, é dado a Beijar aos presentes pelo mordomo
O Santo, S. Sebastião, é dado a Beijar aos presentes pelo mordomo
Festa popular com origens na Idade Média

Trata-se de uma festa popular muito antiga que se perde na memória dos tempos e que, segundo a lenda, é a evocação de uma grande tragédia que se abateu por estas terras em meados do Séc. XIV.
Nessa época uma grave crise económica e social, associada à Peste Negra que atingiu toda a Europa, deixou muita gente desta região em condições miseráveis. Parte das populações das aldeias morreu, os animais foram também dizimados, situação tal que só as graças divinas poderiam ser remédio salvador para tantos males.
Ora, foi nessa altura que os habitantes sobrevivos desta povoação sertaneja cabeceirense iniciaram os festejos a S. Sebastião enquanto santo advogado da fome, da peste e da guerra, como forma de lhe agradecer a protecção divina de não sofrerem novo “castigo” como o atrás referido.
Sublinhe-se, que ainda hoje são inúmeras as pessoas que acorrem à Festa das Papas para comerem, mesmo que seja uma porção daqueles alimentos, de forma a ficarem protegidos contra os males do corpo.
A “mezinha” ali contida serve, não só para a dita protecção das pessoas, mas também dá para os animais domésticos o que faz com que os fiéis tragam pedaços de “carolo” para casa a fim de os darem aos animais de sua estimação.
Coincidindo com o fim-de-semana, Sábado, 20 de Janeiro, a Comissão de Festas das Papas do Samão, ou seja, o Grupo Associativo Local espera receber na aldeia alguns milhares de crentes e visitantes curiosos desta tradição, facto de regozijo para uma pequena comunidade que vive da agricultura e da pecuária.

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