Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-01-2007

SECÇÃO: Opinião

PASSOS D’ARCO

foto
Aranha no Tempo

1. O relógio da minha cozinha parou. É um objecto muito útil, sobretudo de manhã, porque é nele que controlo os minutos, naquela urgência recorrente de chegar a horas ao trabalho.
2. Tratava-se de um problema de pilhas. A que lá estava, como depois verifiquei, jazia silenciosamente nas traseiras do aparelho. Cadáver do tempo.
3. Substituí-a, para que o tempo tornasse a andar.
4. Pouco antes de devolver o relógio à parede, reparei num pormenor curioso: uma pequena aranha corria, assustada, entre as horas e os minutos do mostrador. Não sei como entrara, mas ali estava, naquele provável terror de sentir o barulho e o movimento dos ponteiros em movimento.
5. Tenho o hábito de ler o mundo à minha volta como se lesse um poema. À procura de símbolos, de sentidos, de ritmos mágicos, de chaves para o enigma de existir. E de beleza, claro.
6. Perguntei-me, sobre o episódio, o que significaria: uma aranha dentro do Tempo, construindo a sua teia. Impossível fugir, impossível ter mais mundo que aquele círculo plano, impossível outro caminho senão aquele entre segundos, minutos, horas, talvez dias. Não muitos dias, adivinha-se, porque é ali óbvia a míngua de alimentos.
7. Apesar de tudo, a aranha não desiste. Vejo-a correr, muito ocupada, muito activa. Talvez tenha ainda tempo para tecer uma teia que lhe prolongue a presença, no Tempo, para lá da morte.
8. Passo a interpretar, se me dão licença. Acho que somos, também, pequeninas aranhas, fechadas no casulo breve do Tempo. E somos, nós próprios, Tempo.
9. Como um relógio, de vez em quando precisamos de novas pilhas. Isto é: de Amor.
10. Estamos, como a aranha do meu relógio, sujeitos aos limites do Tempo. E, como uma frágil aranha perdida e presa, não desistimos porque viver significa isso: não desistir.
11. A escrita com que digo isto é também uma espécie de teia, que cresce ao ritmo da respiração e do gesto fabricante das palavras. Procura acrescentar sentido e beleza à realidade, tantas vezes pobre, dos dias.
12. Tempo, Amor, Beleza. É ou não isto a nossa vida?

Por: Joaquim Jorge Carvalho

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.