Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 30-11-2006

SECÇÃO: Opinião

PASSOS D’ARCO

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Rosas, Senhores

1. Tinha pensado escrever sobre o Natal. Não sei bem se o farei, porque anda uma nuvem carregada de morte a rondar-me os dias e a escrita. Adiante.
2. Tenho um familiar próximo (e meu verdadeiro amigo) muito doente. Vou chamar-lhe J.M. Ele está naquela fase, mais delicada de todas, em que desacreditamos do poder da ciência e ansiamos por um milagre.
3. O J.M. é um campeão, não desiste. Há tempos, quando ainda era possível falar com ele (ou quando ele ainda tinha paciência para responder às minhas mensagens), chamei-lhe prémio nobel da paciência. Talvez ele tenha sorrido.
4. Ainda há pouco o vi a fazer projectos: o carro quase pago, o computador para a filha, um leitor de cd, jantes novas, uma visita a minha casa “lá para o Natal”. O sofrimento adiou tudo, quiçá para nunca mais.
5. A violência da doença, sobretudo aquela inexorável contagem decrescente que antecipa o fim, fez-me lembrar de um grande filme: “Dois Estranhos, Um Destino”, de Richard Attenborough. Passa-se, se bem recordo, nas primeiras décadas do século XX.
6. Não é a primeira vez que revisito o filme. Mas é a primeira vez que o revejo, em meu coração, à luz da estúpida doença do meu amigo J.M.
7. No filme, sabemos que uma mulher (americana) e um homem (inglês) se amam desde o primeiro momento em que se encontram. Por razões de comodidade, de conveniência e de orgulho, ambos evitam revelar, um ao outro, essa fragilidade, maior de todas, da paixão.
8. A mulher tem um filho de casamento anterior. E o homem ama tanto a mulher que, por inerência, amará igualmente esse menino, como seu. Persiste, contudo, durante quase toda a história, essa recusa de assumir o amor e de, juntos, tentarem a aventura da felicidade possível.
9. Um dia, a mulher é ameaçada de expulsão de Inglaterra, porque o seu visto caducou. Ela quer permanecer em solo britânico. Pede ao seu amado que case consigo, explicando-lhe a iminência da deportação. Sublinha que essa administrativa razão, e só essa, a leva a fazer tal proposta.
10. O homem casa com ela. Sublinha que a administrativa razão que levara a mulher ao pedido, e só essa, o convencera a aceitar o matrimónio. De modo que, minutos depois da cerimónia, despede-se e regressa à sua cidade. Só. A mulher sofre em silêncio, mas sorrindo antes perante o homem, como se tudo fosse normal e justo. Apenas chorará quando não houver testemunhas perto.
11. Um dia, a mulher cai, subitamente, em casa. Percebe-se depois que sofre de um cancro terrível, incurável, rápido, terminal.
12. O homem sabe disso e voa para ela. Vela durante noites, à cabeceira da mulher, como um cão fiel e assustado, sacrificando seu sono, seu alimento, seu conforto.
13. A mulher recupera um pouco. Volta até a andar pelo próprio pé. O Hospital dá-lhe alta. O homem vai buscá-la e está muito feliz. “Vamos para casa”, diz. Ela pergunta, incrédula: “Que casa?” Ele quase lhe grita: “Para a nossa, meu amor!”
14. Antes de sair, contudo, uma nuvem atravessa-lhe a felicidade e pergunta ao médico: “Quanto tempo?” (Tradução: Quanto mais viverá, ainda, ela?) O médico sorri, titubeia: “Não sei bem. Um mês, dois meses, três meses...” O homem entusiasma-se com a gradação, arrisca: “Um ano?” O médico arrefece-lhe a fé: “Tanto, não... “ Mas ele não desiste da alegria: “Gozaremos o tempo que tivermos.”
15. O resto do filme é uma história de amor, enfim à velocidade de cruzeiro, cheia de risos, beijos, passeios a lugares idílicos, nunca antes experimentados por ambos. E, julgava eu, cheios de rosas.
16. Quando revi o filme, percebi que não havia rosas. Havia, sim, um belo lugar no campo: largo, aprazível, cheio de relva. Tive pena, ainda assim. Apetecia-me que houvesse, ali, rosas.
17. A mulher morrerá, no final. Depois de muito choro, ele terá a aguda noção de quanto tempo houvera perdido. E de como na breve vida dos homens todo o tempo é precioso. De como todo o tempo faz falta para o que verdadeiramente vale a pena. De como há tantos motivos para não perdermos tempo. (E de como o amor não é o menor dos motivos.)
18. Natal, portanto, na minha crónica. Não conheço melhor maneira de lhe associar o ofício da minha escrita que este: celebrar a vida; celebrar o amor. Acreditar nas rosas, ainda que imaginadas, enquanto o Inverno não vem.

Por: Joaquim Jorge Carvalho

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