Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-10-2006

SECÇÃO: Região

O escritor Viale Moutinho aconselha

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As boas histórias para crianças devem projectar o futuro e potenciar a criatividade

… gostaria de deixar aqui algumas, forçosamente curtas e ligeiras, reflexões sobre a escrita para as crianças, junto da minha própria experiência como autor de umas três dezenas de livros no género. Para tanto, peço sobretudo alguma atenção daqueles que têm responsabilidade de Pai Natal nestas festas que se avizinham a largas passadas. Sugiro, antes do mais, que em vez de uma bonita pistola negra, de fabrico chinês, que dispara projécteis de plástico (ainda por cima cor de laranja!), ofereçam às crianças um livro. E que saibam escolher esse livro. É, pois, essa ajuda que aqui pretendo dar.
Antes do mais, convém esclarecer-se que escrever para crianças não é escrever para adultos com atraso mental, nem para atrasados mentais sob a forma de crianças, nem para fazer as obras que uns brutos adultos querem que, à força, as crianças leiam ou, pelos menos, tenham!
Escrever para crianças é escrever bem, com clareza e, de preferência, esta clareza não deve andar arredada da poesia.
(Ah, por favor, não tenham medo da poesia!) Falo da poesia que deve estar em cada instante da nossa existência, desde que gritamos á nascença do primeiro dente até que, entrados na idade, reclamamos ao dentista que a dentadura em uso não tritura o bife de boi como no antigamente!
Num livro para crianças tem de haver fantasia, tem de haver realidade e possibilidades para o pequeno leitor ou ouvinte de andar com o seu espírito de um lado para o outro ao sabor da sua vontade ou inclinação.
É que, em quem lê, como em quem escreve, a imaginação não pode ser passiva, e tem de ser, isso sim, activa e criadora.
A historia da literatura para as crianças está recheada de obras espectaculares em matéria de imaginação e poesia, desde a Branca de Neve e os Sete Anões como no Capuchinho Vermelho até ao universo do Pequeno Príncipe, de Saint-Exupery, passando pelo nossa querida Alice no País das Maravilhas, que é tanto nossa como do Sr. Lewis Carroll que a escreveu! E a Ana Maria Magalhães e a Isabel Alçada e Alice Vieira, o Francisco Duarte Mangas, a Ana Saldanha, o Virgílio Alberto Vieira e tantos mais.
As boas historias para crianças ganham esses galões adjectivos quando têm o poder, ou a magia, se quiserem, de estimular a imaginação, que actua como suporte do pensamento, permitindo recriar as experiências, sejam estas vividas ou imaginadas, projectar o futuro e potenciar a criatividade.
Os personagens de ficção ajudam as crianças a perceber a história como um exemplo e não como uma reprimenda. Por outro lado ou segundo este mesmo pensamento, o texto deve ser tão atractivo como um brinquedo. Quer dizer, a história deve permitir à criança produzir as suas próprias fantasias a partir da linguagem, incluindo os jogos de linguagem, e as ilustrações.
E recordo-me que a minha infância, infância povoada de livros, era um mundo fantástico, em que eu me movia e envolvia os meus amiguinhos nessa mesma fantasia. Direi melhor hoje: envolvi os meus amiguinhos no processo de ficção-realidade. È que eles acabavam por entrar, atraídos, fascinados, através da partilha de leituras, que é como quem diz: de cumplicidades.
Recordo-me que quando cheguei às aventuras do Robisson Crusoe, o náufrago mais criativo que me fora dado a conhecer, ganhei o gosto de me desenvencilhar nas situações mais complicadas, mas também é verdade que me tinha preparado para a leitura desse livro pela leitura de muitos outros, que me impediram de ser uma criança chata e um desses alunos que ainda dão cinco erros ortográficos num ditado, e às vezes, numa cópia, quero dizer cinco erros em cada quatro palavras…
Porém, cuidado, comprar um livro para uma criança obriga, quando desconhecemos a obra, a uma leitura prévia e critica, mesmo que o livreiro se irrite com a nossa postura. Mas este gesto, não pode ser o de um esbirro da idade adulta, tem de ser o de um amovível companheiro da criança.
O cuidado da escrita, do que é dito, do como é dito e de como é ilustrado, tudo isto terá de ser tomado em conta.
Não se requer que seja uma história moralista, nem uma liçãozinha de coisa nenhuma, mas, muito mais do que isso, um acto vital, um desafio à própria existência.
Incentivar a liberdade de uma criança implica escrever em liberdade, com vocabulário rico, com informações interessantes. E o ritmo criativo deverá impedir que a história se torne numa chatice descontrolada!
Porém, se qualquer dos presentes quiser escrever uma história que julga poder entender qualquer criancinha do vosso círculo, faça-o com a maior desfaçatez do mundo. Contem a história cockteil da menina boazinha que tinha uma madrasta muito má e uma fada-madrinha muito boa, que alguém se transformou numa bruxa que voava numa vassoura, e até poderia meter um gato das botas mentiroso ou um lobo mau que come uma avozinha de vez em quando.
Era até capaz de recomendar que introduzissem cenários uma floresta negra ou uma cabana com anões ou ratos que se transformam criados de libré logo que a abóbora acontece carruagem dourada!
Façam lá um entrecho de amores e ciúmes, gastem quatro páginas de papel, usem o computador ou o novo excelente cursivo.
Porém, depois, façam o favor, a vós próprios: rasguem os papéis escritos, a porcaria da história. E atirem tudo para um ecoponto.
Sobretudo não publiquem nada sem deixarem que uma criança se aproxime de uma história tão rescendente a lugares comuns como essa.
É que as nossas criancinhas ainda poderão um dia acreditarem que o ideal de felicidade entre os homens é a princesa casar com um sapo, sapo este que depois acaba por ser o monarca de um reino onde um qualquer pouco imaginativo calcula haver um povo que terá de suportar o governo de um sapo que nem sequer foi a votos.
Tenho dito.
Mas agora vão lá comprar livros para crianças!



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