Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-10-2006

SECÇÃO: Opinião

PASSOS D’ARCO

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O Défice

1. O Engenheiro José Sócrates é objecto de uma quase unânime aprovação.
Ataca na justiça, na educação, na saúde, na segurança social, na habitação - e tudo quanto é jornal, blogue ou conversa de café ergue loas ao sentido reformista de Sua Excelência.
2. A Direita (seja lá o que isso queira dizer) arrepia-se com a consciência da inutilidade de exigir, aos “socialistas” no poder, medidas “necessárias, urgentes, inadiáveis”. O Engenheiro Sócrates está a fazer o que eles queriam. Em alguns casos, com maior energia e despudor do que eles próprios aconselhariam.
3. Olha-se à volta e a palavra de ordem é cortar nas despesas. Não me refiro aos emolumentos de ministros, secretários, assessores, directores-gerais, altos responsáveis da administração pública. A poupança vai por outros,
menos delicados, caminhos: funcionários públicos, professores, polícias, reformados do regime geral. Aqueles, enfim, que Fernão Lopes designou, à míngua de designação diferente, como “arraia miúda”.
4. É tocante o modo como economistas, empresários, opinion makers em geral explicam a bondade e urgência das medidas do frenético governo. E salienta-se, nesta claque respeitável, a simpatia do Governador do Banco de Portugal, que tão regular e generosamente explica ao povo a inevitabilidade da hodierna austeridade. Ele próprio, admite, tem um vencimento próximo dos cinco mil euros, mas acha de mais...
5. Poupar, portanto, ainda que tal signifique o fim ou a degradação dos serviços públicos. Por exemplo, as “taxas moderadoras” (designação engraçada que Correia de Campos utiliza sem se rir) significam, na saúde, o pagamento de um serviço público tendencialmente gratuito. Mas tem de ser, não é?
6. A morte do Estatuto da Carreira Docente (subscrito, à altura de seu nascimento, pelo então primeiro-ministro, Professor Cavaco Silva) é um fenómeno de popularidade entre quem acha, dos professores, que são uma conhecida corja que não faz nada e ganha tanto. Bem podem os sindicalistas lembrar o singelo facto de que o máximo vencimento de um docente, em final de carreira (à volta dos 60 anos) é cerca de 2000 Euros - isso mesmo, o que um ministro, um assessor, um secretário ou sub-secretário gastará em lazeres e confortos não essenciais à comum gentalha.
7. Sobre a senhora Ministra da Educação, confesso, não tenho paciência para falar. Ando demasiado ocupado com os meus alunos, que têm problemas de aprendizagem, de saúde, de pobreza (física e cultural). Apesar do que a senhora acha, diz e faz, eu vou continuar a (tentar) ser bom profissional, como é minha obrigação legal e moral. A quem aprecia, num(a) governante, os tiques arrogantes, a radicalidade das afirmações e o autismo político, digo: bom proveito. Mas, neste caso, convido a população a pensar no facto de a generalidade dos professores, incluindo os bons (que até a senhora ministra diz que também há...), estarem indignados com a governante. Como diria Mário Jardel, por que será?
8. Um Coro de políticos, jornalistas, economistas, empresários incensa devotamente o governo do Engenheiro José Sócrates. Sabe-se. Está dito.
Sobra, contudo, um pormenor: quem elegeu o Engenheiro José Sócrates julgava que ele era “socialista”. E questiona-se, hoje: se ele tinha as mesmas receitas dos “outros”, por que não votar ... nos outros? Terá o senhor primeiro-ministro reparado já que a maioria dos elogios à sua acção vem de quem, reconhecidamente, não votou PS?
9. A verdade é que, lido à luz do presente, na óbvia comparação com Sócrates, o Professor Cavaco Silva tende a parecer, hoje, um perigoso esquerdista.
10. Do outro lado (ou talvez do mesmo, depende da perspectiva), não é sem um sorriso que ouvimos Rui Rio lamentar o fim de algumas SCUT. Ou Marques Mendes lamentar o desrespeito que o Governo demonstra pelos funcionários públicos. A incoerência é, na política e nos costumes, uma consabida doença crónica. Normalmente, benigna.

Por: Joaquim Jorge Carvalho

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