Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-08-2006

SECÇÃO: A nossa gente

Celestino Oliveira Leite
Os bombos são a paixão da sua vida

Reside em Água Redonda, Refojos, Cabeceiras de Basto, tem 48 anos, é pai de sete filhos, trabalha na agricultura, sendo sobejamente conhecido no meio pela sua paixão pelos bombos.
Celestino Oliveira Leite é, sem dúvida, a alma do Grupo de Zés Pereiras de Basto, ao qual já se juntaram três dos seus filhos, contagiados pelos “vício” do pai, qual ópio que os leva a permanecer horas e horas agarrados aos instrumentos de percussão animando festas, romarias e outros eventos populares.

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Este tocador de bombo é ainda o fundador e o actual presidente da Associação dos Zés Pereiras de Basto que patrocina as actuações do grupo e através da qual concentra os apoios e as ajudas que vêm das entidades oficiais.
O seu amor pelos bombos é de tal intensidade, que confessa que só a morte lhe porá fim. O seu desejo final é o de que todos os membros da família participem e se envolvam nesta sua preferida aventura. É uma alegria poder manejar a “moca” e produzir o som sincopado do bombo, acompanhando o ritmo do rufar da caixa pelas ruas da aldeia, anunciando os festejos do santo padroeiro. Os bombos fazem parte da sua felicidade ... como se comprova pela entrevista que se segue.

Ecos de Basto: Como nasceu o gosto pelos bombos?
Celestino Leite: Sempre gostei muito dos bombos, é uma paixão. Tudo começou numa altura em que fiz parte da Comissão de Festas da Sr.ª da Orada e fui convidado para andar com os foguetes, a acompanhar os bombos, sendo o meu tio um dos tocadores. Então eu sugeri-lhe que me deixassse pegar no bombo. Eu tocava bombo e ele lançava os foguetes, e foi assim que nasceu esta paixão. Gostei tanto que comprei logo um bombo e juntei-me ao grupo.
Entretanto, nasceram os meus filhos e transmiti-lhes este gosto. Tenho dois gémeos que tocam caixa e um outro filho meu toca bombo, e assim decidi formar um grupo, os Zés Pereiras de Basto.
E.B. Este grupo de bombos começou então pela família?
C.L. Sim, exactamente, começou pela família. Começámos os quatro, eu e os meus três filhos, entretanto juntaram-se alguns amigos e assim continuámos com os Zés Pereiras de Basto.

Tocar por gosto não cansa

E.B. Como funciona o grupo? Como trabalha em termos de equipa?
C.L. Olhe, temos uma ideologia que nos distingue de muitos outros grupos de bombos, uma vez que não actuamos por interesse, mas sim por gosto. Gostamos do convívio, das festas, de beber uns copos com os amigos, tocamos para confraternizar e para alegrar os outros e não só para ganhar dinheiro. Dentro do grupo valorizamos também os trajes. Vestimos roupas tradicionais pois é essa imagem que queremos transmitir, a tradição.
E.B.. Porque toca bombo e não caixa? Qual é a diferença?
C.L. Toco bombo porque é mais fácil tocar este instrumento do que outro qualquer. Por exemplo, um bom tocador de caixa ensina a tocar bombo, mas o contrário é mais complicado. Os meus dois gémeos tocam muito bem caixa, é preciso saber tocar com as duas mãos, é mais complicado.
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E.B. Disse que dois dos seus filhos tocam caixa. Como aprenderam a tocar? Houve alguém a ensiná-los?
C.L. Não, nunca tivemos ninguém que nos ensinasse, embora considere que seria muito importante que se ensinasse a tocar estes instrumentos na escola de música. Eles aprenderam a tocar vendo os outros tocadores, através dos encontros dos grupos de bombos. Aprendemos uns com os outros.
E.B. Têm então o cuidado de aperfeiçoar este trabalho aprendendo com os outros?
C.L. Sim,sim, claro, isso é essencial. Os grupos tansmontanos, os do Alto Minho, os do Douro, entre outros, tocam de forma diferente e através do contacto com os mesmo vamos apreciando as várias formas de tocar e assim aprendemos.

Festas de S. Miguel acolhe encontro de grupos

E.B. Podemos assim deduzir que os encontros de grupos de bombos são muito importantes?
C.L. Sim, são muito importantes, trazem muitas vantagens. Além de aprendermos sempre algo de novo, também conhecemos pessoas, construímos novas amizades e conhecemos outras terras.
E.B. Sabemos que está a organizar um encontro de grupos de bombos que vai decorrer durante as Festas de S. Miguel. Em que consiste esta iniciativa?
C.L. Esta iniciativa consiste num encontro de grupos de bombos de toda a região norte. Neste momento já está confirmada a presença de doze grupos, num total de cerca de 250 bombos, mas ainda estou a estabelecer contactos com outros grupos. Este encontro é organizado pelo grupo de bombos Os Zés Pereiras de Basto, em conjunto com a Comissão de Festas de S. Miguel e com a Emunibasto, que se responsabiliza pelas despesas de deslocação e alimentação e ainda com as lembranças. Esta iniciativa surge da necessidade, que já referi, de aprendermos uns com os outros. O encontro será uma forma de confraternizarmos, conhecer gente nova, aprender um pouco mais e proporcionar um agradável espectáculo aos cabeceirenses.
E.B. O Grupo Zés Pereiras de Basto é um grupo dinâmico, com gosto pelo que faz. Em termos de trabalho são muito solicitados?
C.L. Sim, recebemos muitos convites. Temos andado desde o Alto Minho, a Trás-os-Montes até ao Alentejo. Recebemos convites para festas e encontros e participamos sempre que podemos. Também já fomos convidados para actuar no estrangeiro, nomeadamente no País Basco e em França.

Sem escola, aprendemos com os outros

E.B. E em termos de “cachet”, quanto cobram por cada actuação?
C.L. Normalmente recebemos, por festa, cerca de 500 euros. Quando o local da festa é mais distante cobramos um pouco mais para despesas de deslocação. Cada elemento do grupo recebe, em média, 40 euros por um dia de trabalho. Dá para as nossas despesas, e fazemos o trabalho com gosto, portanto o balanço é positivo.
E.B. Actuam apenas ao fim-de semana?
C.L. Sim, normalmente só actuamos ao fim de semana, evitamos assumir compromissos para actuar durante a semana porque os elementos do grupo trabalham e só têm o fim-de-semana livre. Não podem abandonar o local de trabalho, por isso apenas actuamos aos fins-de-semana.
E.B. Com tantas actuações é necessário ensaiar para que tudo corra bem. Como organizam esse trabalho?
C.L. Olhe, nunca organizámos um ensaio. Sei que deveriamos ensaiar, mas, como lhe disse, durante a semana é muito complicado porque trabalhamos todos, e ao fim-de-semana, quando não actuamos, a rapaziada quer aproveitar para sair com os amigos, como tal é difícil marcar ensaios.
Tocamos sempre sem ensaiar, mas estamos com atenção ao ritmo e, se desafinamos um pouco tentamos corrigir de imediato, as pessoas acabam por perceber e desculpam a falha. Apesar de tudo sei que deviamos ensaiar. Neste momento estamos a tocar apenas o ritmo do bombo e caixa, mas gostariamos de desenvolver outros ritmos, nomeadamente com concertina e gaita-de-foles.

Uma família de tocadores

E.B. No que a apoios diz respeito, qual é a situação em que o grupo se encontra?
C.L. Em termos de apoios contamos com o apoio da Câmara Municipal de Cabeceiras Basto, que nos vai ajudando. Mas, não é só o apoio financeiro que é importante, também o apoio humano é essencial e, nesse aspecto sentimos um pouco falta de apoio. Claro que há de tudo,há muita gente que nos apoia e incentiva, mas também há muita que nos critica. Quando há dois a fazer alguma coisa aparecem logo quatro a querer alagar.
Era muito bom que houvesse mais gente a juntar-se ao grupo, gostava de ter um grupo grande, com 30 ou 40 pessoas. O grupo está aberto a toda a gente, é uma associação de todos e para todos, e nós precisamos de gente.
E.B. Ter mais gente no grupo implica necessáriamente que se adquira mais material. Quanto custa o material?
C.L. Hoje em dia custa tanto um bombo como uma caixa, custam cerca de 125 euros cada um. É certo que estes intrumentos duram anos, mas exigem cuidados e isso também fica caro, mas tudo se vai superando.
E.B. Podemos dizer que o Sr. Celestino é a alma do grupo de bombos dos Zés Pereiras de Basto?
C. L. Sim, podemos dizer que sim. Sei que se eu falhar, falha tudo. Tenho mesmo uma paixão enorme por tudo isto,e não páro, e para tal conto com o apoio e compreensão de toda a minha família.
E.B. Então os bombos são, definitivamente, uma paixão para si?
C. Eu acho que já nem lhes posso chamar paixão, já são uma doença, A minha própria família diz que quem me quiser ver bem disposto é pôr-me a tocar bombo. E é verdade. Nasci para isto!

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