Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-06-2006

SECÇÃO: Opinião

HÁ 500 ANOS, EM LISBOA

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Na visita que Bento XVI fez à Polónia, teve como pano de fundo enaltecer as qualidades do seu antecessor e, das boas qualidades de João Paulo II, sobressai o pedido de perdão aos católicos pelos erros cometidos pela sua Igreja, infelizmente muitos.
Aproveitando a coluna de Manuel António Pina, na última página do “Jornal de Notícias”, passamos a transcrever o seu conteúdo.

HÁ 500 ANOS, EM LISBOA

Em 1506 já não havia oficialmente judeus em Portugal. Tinham sido convertidos à força em cristãos-novos.
Mas o ódio mais antigo do Mundo, alimentado pela intolerância e pela ignorância, persistia surdamente em muitos corações.
Era o dia 19 de Abril, Domingo de Pascoela, fez 500 anos. Bandos conduzidos por frades do Convento de S. Domingos, em Lisboa, transportando crucifixos e prometendo cem dias de absolvição a quem matasse um judeu, começaram a matar todos os cristãos-novos que achavam pelas ruas e os corpos mortos, e os meio vivos, lançavam e queimavam em fogueiras que tinham sido feitas na Ribeira e no Rossio. A matança prosseguiu nos dias seguintes, durante os quais foram chacinadas mais de 4000 pessoas, velhos e novos, homens e mulheres, arrancadas das suas casas e lançadas na fogueira.
Era tamanha a crueza – conta Damião de Góis – que até meninos e crianças que estavam no berço executavam, tomando-os pelas pernas, fendendo-os em pedaços e esborrachando-os de arremesso nas paredes.
O holocausto, cuidadosamente apagado dos livros da História, durou três dias. Os herdeiros dos assassinos continuam ainda hoje à solta por aí e, por isso, é que lembrar é preciso.
Outros erros podem ser lembrados, como a matança dos protestantes em França, ou os 1500 protestantes portugueses mortos na fogueira, ordenados pelo tribunal da Inquisição ou a morte de Joana D’Arc, queimada viva em Ruão, tendo deitado as suas cinzas ao rio Sena.
E nos grandes conflitos a Igreja tomou sempre partido pelos seus interesses. Mas João Paulo II compreendeu muito bem todo o mal até hoje feito, pelo menos desde Constantino. E eis a razão do perdão. Quem não quer ser lobo, não lhe veste a pele!
Bem haja Bento XVI!

Por: Francisco Pereira (Benfica)

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