Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-05-2006

SECÇÃO: Opinião

O DR. CAMILO

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O Dr. António Camilo Pacheco Pereira Leite veio ao mundo no dia 6 de Janeiro 1906, já lá vai um século.
Após concluir os estudos necessários para entrar na Universidade, escolheu a medicina.
Pela vida fora viria a ser um bom médico. Foi ele que tratou a minha avó paterna, ou a minha avó da Malga, entre Março e Agosto de 1941, pois ela despediu-se de nós no dia 7 desse último mês.
Era o médico dos pobres, sempre pronto a servi-los, mesmo sabendo que muitos deles não tinham pataco. Era um homem para quem o amor ao semelhante lhe vinha de dentro, era mesmo uma boa pessoa e…para as mulheres também!
Ainda bastante jovem, ter-se-á perdido de amores pela criada Isaura, mulher mais velha do que ele e a servir lá em casa, já mãe de pelo menos três filhos, pois o Zé da Isaura nasceu em 1914, já falecido. O certo é que o Bernardino da Venda, filho mais novo da Isaura, terá nascido aí por 1925. Chamávamos-lhe na Escola o “Bombarda” e toda a gente dizia que ele era filho do Dr. Camilo. Feito homem, foi para a Guarda Florestal, mas já faleceu há muitos anos.
O médico, mais tarde, namorou a Maria da Elisinha, que estava a servir em sua casa. Naturalmente, custou o primeiro abraço, depois tudo terá sido fácil, fazer da sua criada mulher de todo o serviço, obrigando-a a abrir os braços à vida e a criar uma filha sua.
Um dia é chamado para ver a Maria, ou Mariazinha, da Casa dos de Baixo, de Vilela, que se encontrava doente. Chegado ao terreiro, prendeu a égua e de seguida encaminhou-se para o quarto da doente, ficando só com ela para a examinar.
Começa por lhe ver a febre. Não tinha febre. Mede-lhe a tensão. Estava normal. Escuta-a nas costas e no peito, apalpa-lhe a barriga. Estava tudo bem. Ficou admirado de ela não se queixar de nada.
Ela dizia que não sabia o que tinha.
Perante este desabafo, o Dr. acaricia-lhe o rosto e repara que ela tinha os olhos pisados. Como experiente que era, pensou para consigo que o que ela precisava era de macho e, linda como ela era, o clínico não se conteve e aperta-a contra si. Ela, com a leveza de uma borboleta, que não se detém demasiado tempo em flor alguma, abraça-o. Larga-o de seguida, para melhor o admirar, caindo nos braços um do outro.
Assim nasceu aquele amor que, passados uns tempos, a Maria dos de Baixo deu à luz um rapaz, nascido em 1936.
Já homem, o Dr. Camilo sempre fez caso dele. Era o Henrique de Vilela, que depois casou com a Fernanda da Casa dos de Baixo da Reboriça. Morto há dois anos, dorme o sono dos justos no Cemitério de Cavez, onde também jaz seu pai.
Entretanto, no destino do médico gravitava já um certo labirinto, pois pensou em casar e a escolhida, como que caída do céu, foi a Celestinha que, vinda lá de cima das Lavradas, se tornou companheira legítima do Dr. da Venda, também ela uma mulher bonita, muito bem feitinha de corpo e com ideias semelhantes às do marido, pelo menos em termos económicos. Eram uns “mãos apertadas” e, como lá diz o ditado, “para se casar, tem de se parecer”.
Aí pelos anos de 1955, o Dr. Camilo muda-se para Ribeira de Pena, onde foi Delegado de Saúde, mas como vinha muitas vezes a Cavez e a Arosa, o povo da freguesia não estranhou a sua saída.
Quando havia pessoas adoentadas, procuravam-no, que ele, num lado ou noutro, aparecia. Senão, davam um salto a Ribeira de Pena que, se ele visse que eram pessoas carenciadas, não lhes levava dinheiro. Repetimos: era um homem bom!
Gostava muito de passear nas quintas e admirar as videiras cobertas de cachos, certo de que o ano era abundante na produção daquele capitoso vinho. Isto enquanto teve caseiros, porque hoje tudo se alterou devido às vicissitudes do tempo.
Em 1962 foi um grande ano de vinho e eu fiz-lhe na Venda um tonel de madeira de eucalipto verde para ter o vinho só até Março, porque a partir dessa altura a madeira começava a secar e a vasilha a verter.
Entre filhos e filhas, o Dr. Camilo foi pai de sete, três ilegítimos e quatro do matrimónio.
Claro que estes últimos eram a alegria dos pais e pena foi que o Dr. Camilo não durasse mais uns tempos, pois apagou-se aos 74 anos, razão que nos leva a dizer que ele não foi muito feliz na última parte da sua vida. Dos dois acidentes que sofreu, o último, de carro, em Vila Real, terá pesado na sua saúde.
Em 1980 desceu à sua última morada.

Por: Francisco Pereira (Benfica)

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