Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-04-2006

SECÇÃO: Recordar é viver

Recordar é viver

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O Grupo Folclórico de Cabeceiras de Basto

É costume ao longo do ano muita gente visitar a ADIB, mais propriamente a redacção do Jornal Ecos de Basto. Essas visitas são especialmente em períodos de férias como no Natal, na Páscoa, no mês de Agosto, e também durante a Feira de S. Miguel em Setembro. É também durante essas férias que os assinantes do Ecos de Basto aproveitam para regularizar a sua assinatura e para dar dois dedos de prosa e sobretudo para saberem ao pormenor os acontecimentos que decorreram durante a sua ausência e comentar uma outra mudança no aspecto urbanístico da nossa vila. Um ou outro mais saudoso vai-se «queixando que um periódico ou outro chega mais atrasado…» Dizem eles que estando longe de Cabeceiras sentem a falta de notícias da sua terra querida e em especial da página das freguesias, que gostam de ler a tempo e horas, das crónicas do Professor Alexandre Vaz, dos artigos de opinião do Dr. José da Costa Oliveira, da página desportiva…
Como funcionária do Ecos de Basto mais antiga e conhecendo os assinantes quase todos fico sempre muito sensibilizada com as palavras de carinho que recebo deles como se de uma pessoa de família se tratasse.
António de Campos e a sua irmã Cândida de Campos (colatré)
António de Campos e a sua irmã Cândida de Campos (colatré)
Uma dessas pessoas que me visita amiúde é a minha amiga Albina, a residir em Famalicão, filha da falecida senhora Alexandrina Teixeira, irmã dos também falecidos senhor José de Conselheiros, do Tio Luís, do senhor Augusto, do senhor Celestino, da senhora Arminda (Tecedeira), avó da nossa paginadora do Ecos de Basto, do senhor Alfredo da Ribeira e perdoem-me se me esquecer de algum mas eu convivi mais com estes.
Ora, a Albina andava no Colégio já com anos de estudo à minha frente, mas fomos mantendo o contacto encontrando-nos de vez em quando pelo menos durante as visitas que fazemos ao Cemitério local no dia de Todos os Santos.
O dia de Todos os Santos apesar de ser um dia triste ainda serve de ponto de encontro entre familiares distantes e amigos que vêm prestar a homenagem aos seus entes queridos.
A minha amiga Albina e o seu marido José, já aposentados, fazem visitas mais frequentes à nossa querida terra. Isto quer dizer que Cabeceiras está cada vez mais atractiva para se poder visitar.
A Albina sabe que eu gosto muito de escrever sobre as minhas recordações ou então sobre temas antigos que de alguma forma estejam relacionados com a nossa juventude. Não quer isso dizer que tenhamos muita idade. Gosto sobretudo de escrever histórias que o meu avô, o meu pai, as pessoas amigas e até a minha mãe que Deus tem me contavam. Sobretudo temas ligados aos costumes e tradições da nossa terra.
O 1º Rancho Folclórico de Cabeceiras de Basto em plena Praça da República, junto à casa do Barão
O 1º Rancho Folclórico de Cabeceiras de Basto em plena Praça da República, junto à casa do Barão
Mas como ia dizendo numa dessas visitas em que a Albina e o marido me visitaram falamos de tudo um pouco e mostrou-me uma foto a preto e branco, já com bastantes anos, do Grupo Folclórico de Cabeceiras de Basto.
Aí contou-me que pertenceu ao Rancho Folclórico de Cabeceiras de Basto, liderado pela muito conhecida Mestra, a professora D. Maria que tinha por alcunha “Cambada” (normalmente é a forma mais fácil de nestas terras identificar pessoas). Ao mesmo tempo que falava mostrava a fotografia antiga tirada na Praça da República ao referido Grupo Folclórico, em frente à Casa da Cultura, ao tempo mais conhecida por “Casa do Barão”. Com um olhar atento e muito curioso reconheci logo algumas pessoas; a minha amiga Albina com o estandarte; a Zezinha Moura, o Zequita de Conselheiros, o Zeca Moura, o António de Conselheiros, a Isaura de Conselheiros, a Cândida da Ribeira, o Felício da “Pertença”, o Manuel de Conselheiros, a Alice do “Hospital”, a Isaura Teixeira (Tecedeira),a Maria “ministra”, as filhas do senhor Alfredo da Ribeira, as Valerias e o Álvaro Mendes, alfaiate, mais conhecido pela alcunha de “larocha” que além de ter pertencido ao grupo folclórico, ainda hoje toca na banda cabeceirense.
E outra coisa que eu descobri na fotografia e que a minha amiga confirmou foi ver que o meu falecido padrinho António Campos da Raposeira e a sua irmã Emília Sousa minha madrinha também lá estavam. Fiquei muito emocionada. Sabia que eles tinham frequentado o rancho e que, segundo comentários de pessoas da idade deles, cantavam muito bem.
Eu curiosa por estes temas ouvi a Albina contar que as roupas dos homens do Grupo foram executadas pelo saudoso Mestre da música e prestigiado alfaiate, o senhor António Mendes (carcereiro) e o das mulheres foram feitos pela Zezinha Moura e pela Isaura de Conselheiros. As roupas foram bordadas pelas raparigas que tinham habilidade. Tudo feito aos serões. Os chapéus, chinelos e os sapatos vinham de fora.
A Isaura Tecedeira com a sua tia Srª Alexandrina Teixeira no campo do Sr. Alfredo da Ribeira
A Isaura Tecedeira com a sua tia Srª Alexandrina Teixeira no campo do Sr. Alfredo da Ribeira
Os primeiros ensaios foram feitos em Pielas e, segundo a Albina, a primeira aparição do Grupo Folclórico foi na feira do S. Miguel em 1957. Tiveram uma importante visita do Historiador e poeta popular Pedro Homem de Melo, que veio visitar e orientar o grupo. Eu conheci-o através da televisão com os seus programas sobre folclore.
Dizia a Albina que o Grupo teve a duração de sete a oito anos mais ou menos e que o Senhor António Mendes participou activamente acompanhando o rancho nas suas saídas. Um dos seus filhos chegou a participar nas danças, penso que foi o Zeca.
Mais tarde, contou, chegaram a ensaiar na casa do senhor Miranda na Cachada.
O Grupo Folclórico teve altos e baixos e depois de parar retomou a sua actividade com a entrada de novos elementos.
Nessa altura entraram para o Rancho sobrinhos do senhor Santos da Cachada que faziam a publicidade do Rancho, com a aparelhagem do tio, e o próprio grupo utilizava para as actuações o micro dessa aparelhagem sonora. E aqui recordou a Mariana dos Santos e o irmão Juca que era acordeonista. O tio Luís que morava em Conselheiros e o Bino “Rabano” tocavam cavaquinho e o Isidro dos Santos tocava ferrinhos.
Actuavam sempre nas Festas do S. Miguel e nas festas que havia nas freguesias do concelho.
Chegaram a ir ao S. João de Braga e participaram em vários cortejos etnográficos.
E a Albina, com uma certa nostalgia no olhar, contou que o Grupo Folclórico de Cabeceiras atingiu um relevante prestígio. Chegou a gravar um programa no Clube de Cabeceiras por cima do café Cabeceirense hoje conhecido pelo café do Armindo, para a Antiga Emissora Nacional. Para depois ouvir passar as gravações as pessoas juntavam-se em casa de alguém que tivesse rádio e lembra que chegaram a ouvir na casa do senhor Macedo do lugar do Pinheiro. Os rádios eram coisa rara naquele tempo. Eu também me lembro que o primeiro rádio e gravador de fitas que tivemos foi o que o meu pai trouxe de França.
As cantadeiras do rancho eram a Isaura de Conselheiros e a Albina.
Mas na memória das pessoas mais antigas certamente que ainda mora a imagem franzina da D. Maria, a Mestra, que foi a grande impulsionadora deste Grupo Folclórico de Cabeceiras de Basto, que hoje é apenas uma doce recordação.
Não poderia terminar esta singela crónica sem agradecer à minha amiga Albina e ao seu marido pelas suas visitas e por permitir que através das suas memórias eu conheça mais um pouco da história de um povo rico em tradições que não podemos deixar esquecer.
Também peço a melhor compreensão se de alguma maneira falhamos com algum dado, nas datas ou nos personagens. Mas é tudo feito com a melhor das intenções.

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