Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-04-2006

SECÇÃO: Opinião

DEVE TER GANHO O CÉU

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Não sei a Senhora Amélia do Sousa tinha jeito para a poesia, mas mesmo que tivesse e a voz a ajudasse, seria só para cantar versos de igreja, tão religiosa era esta mulher.
Se não é fácil dizer o que a poesia é, se essência, se qualidade, eu inclino-me mais para a essência e o modo, até porque há quem justamente encontre na impossibilidade da definição a sua única definição.
E a Amélia do Sousa, como analfabeta que era, apenas se agarrava à reza, a única árvore da sua vida, cujas raízes são a catequese e o amor, que a Senhora Amélia tão bem ensinara às crianças de Moimenta.
Excelente catequista, esta mulher ouvia missa todos os dias, pois considerava-a a coisa mais luminosa da alma.
Entretanto, o Sousa era pouco amigo de missa e os amigos perguntavam-lhe:
- Então, Sousa, não vais à missa? (de Domingo, claro!) Ao que ele respondia:
- A minha mulher reza por ela e por mim!
Era um casal sem filhos, por essa razão repartiam por ambos as lides da vida. De dia o trabalho, à noite a reza. Repartiam também o trabalho das refeições, pois cada um cozinhava para si no mesmo lume.
Era curioso ouvi-los, quando a senhora Amélia chegava o lume para o seu pote, com o fim de o fazer ferver mais depressa. O Sousa mandava um palavrão
- Ó filha da puta, só chegas o lume para o teu lado?
A mulher, que era muito educada, fazia ouvidos de mercador. Mesmo assim, chamava-o à atenção:
- António, tem cuidado com a língua!
Após a refeição da noite, a Senhora Amélia ia buscar o rosário e dizia-lhe:
- Sousa, vamos à reza.
- Vamos lá – respondia o marido.
Primeiro rezavam o terço, depois as graças. Mas as graças nunca mais tinham fim e, às tantas, a esposa começava a torrar com sono, parando momentaneamente a reza.
O Sousa, que não tinha a que responder, falava-lhe nestes termos:
- Reza, filha da puta!
A mulher, que era a que ditava, esfrega os olhos e continua a rezar, a todos os santos e santas, mais um Pai Nosso, mais uma Ave Maria.
Agora é o Sousa que começa a cair de sono e deixa de responder.
- Anda, homem, reza.
O Sousa, depois de arranhar a cabeça, diz:
- Já estou cansado de rezar tanto! Por isso, nem a santos, nem a santas, não rezo mais nem um caralho.
O Magalhães, que os escutou algumas vezes fora da porta, dizia que era uma barrigada de riso, porque a música era sempre a mesma, com mais incidência no Inverno, noites grandes, escuras e frias, serões compridos.
E o Sousa, quando não lhe agradava a coisa, lá vinha com um palavrão.
- Ó Nossa Senhora te valha, vamos mas é dormir – murmurava a esposa, que, com tanta paciência, deve ter ganho o céu.
Já faleceram há cerca de 60 anos…

Por: Francisco Pereira (Benfica)

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