Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-03-2006

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (63)

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O TRAJE DAS VIÚVAS

Eu escrevo neste periódico, apenas pela simples razão de que gosto de escrever. Por vezes sou tentado a exprimir opiniões cáusticas, corrosivas, mesmo contundentes, mas tenho um enorme receio de ferir qualquer susceptibilidade. Nunca poderia vir a ser um bom jornalista, se essa tivesse sido, algum dia, a minha saída profissional.
Há, no entanto, situações que, uma vez ou outra, me transmitem impulsos mais arrojados, e sou como que levado, talvez pela brisa, e saem-me, de vez em quando, ideias que não resisto a colocar no papel. Muito obrigado, a este periódico, por me fazer o favor de as publicar.
Sempre que aparece na televisão, a notícia de um qualquer cataclismo, ou porque os lobos atacaram um rebanho na serra de Montesinho, ali para os lados de Bragança, ou porque uma escola primária fechou, devido ao facto de ter apenas cinco alunos, ou porque se prevê o encerramento de um centro de saúde, pela simples razão de não ter utentes, e se repara no pessoal que é entrevistado na reportagem, só se vê pessoas vestidas de negro, e na sua maioria mulheres. Muito naturalmente andam de luto, e muito provavelmente, a maior parte delas, serão viúvas.
A minha ideia é que passamos a imagem de um país de luto, um país triste, um país vestido de preto. Bem sei que o nosso artista Victorino traja sempre de preto, e usa uma boina preta, mas isso é luxo. Também sei que, em grandes galas, as senhoras se apresentam com vestidos pretos, compridos ou curtos, mas isso continua a ser luxo. Porém, as mulheres de uma qualquer aldeia da serra de Montesinho, no distrito de Bragança, não se vestem de preto por luxo, elas vestem-se de preto porque andam de luto.
Eu não estou contra o luto das viúvas, muito pelo contrário, até penso que elas devem guardar um profundo luto e castidade, sobretudo quando ainda são jovens e vistosas. Mas, tenham paciência, inventem outro tipo de indumentária, com outras tonalidades.
Porque não as cores nacionais? Como há a canção nacional, a árvore nacional, … poderia muito bem haver a indumentária nacional do luto das viúvas. Ocorre-me sugerir cores como o verde e vermelho, ou o azul e branco, ou simplesmente branco com pintinhas pretas. Esta última parece-me ser a mais aconselhável. Será questão de se recorrer à criatividade da nossa estilista Fátima Lopes.
Permito-me repetir aqui uma anedota que me foi contada, quando eu era ainda bastante jovem, e estive internado durante um largo período de tempo no Hospital Prof. Júlio Henriques, para ser tratado e submetido a uma operação ao estômago. Quem ma contou foi o Senhor António Enfermeiro. Era uma jóia de pessoa o Senhor António Enfermeiro. Ele tratava dos doentes homens, enfermarias seis, sete e oito, e zelava também pela manutenção dos jardins do hospital, que estavam uma beleza, naqueles tempos.
A anedota diz que era um casal com muitos filhos, e que morava num dos lugares ribeirinhos de freguesia de Riodouro. Naquele tempo, e em casais pobres com muitos filhos, a alimentação fundamental era pão e caldo, e, com elevadíssima frequência, faltava o pão, a broa de milho. Sempre que o pão faltava, havia fome, muita fome…
O chefe da família tinha uma viola e sabia tocar. Quase todas as noites, para que os filhos, a mulher e ele próprio se esquecessem da fome, ele tocava viola. Era tão grande o amor que ele tinha pela viola, que recomendou à família que, quando morresse, queria que lhe colocassem a viola no caixão.
O inevitável aconteceu. O homem, quando chegou o seu dia, morreu. A família tratou de dar cumprimento ao desejo que ele, tão veementemente, havia expressado. O agente da funerária, não sei se terá sido o Senhor Paulino ou o Senhor Carvalho, esforçaram-se por colocar a viola junto do cadáver dentro do caixão. A muito custo, conseguiram acomodá-la na zona dos membros inferiores, que é, de facto, a zona mais estreita, e menos volumosa, do corpo de um homem.
Fechado o caixão, e iniciado o cortejo, a viúva fez o seu papel, soltando razoáveis gritos de dor: “Ai meu rico homem que não jogavas, não fumavas, nem andavas palas tabernas, e ainda nos consolavas com o que levas entre as pernas”.
Era a viola. Porém, a maioria dos presentes não sabia, incluindo um grupo de prestáveis e filantrópicas viúvas.

Por: José Costa Oliveira

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