Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-03-2006

SECÇÃO: Região

Drª Helena Alvim entrevistada por Ecos de Basto
“Caminhos para a Igualdade” em balanço

“Caminhos para a Igualdade” é o projecto lançado em Junho de 2005, em Cabeceiras de Basto, pela Associação Portuguesa de Investigação Histórica sobre as Mulheres (APIHM) que visa promover a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, privilegiando o acesso à cultura.
Este projecto pioneiro, que abrange três frentes de trabalho, a escola, a família e a comunidade foi elaborado pela actual presidente da Direcção da APIHM, Drª Maria Helena da Cunha Vilas Boas e Alvim, pessoa de méritos reconhecidos na luta pela emancipação da mulher e pela igualdade dos géneros.

A Drª Helena Alvim na sessão de apresentação do Projecto
A Drª Helena Alvim na sessão de apresentação do Projecto
Para fazer o balanço de 10 meses de duração do projecto em curso, que durará até ao fim de Novembro próximo, Ecos de Basto foi ouvir o rosto principal desta iniciativa inédita realizada no nosso concelho.
Ecos de Basto – Decorridos 10 meses de duração do projecto “Caminhos para a Igualdade”, qual é o ponto da situação e que balanço faz da sua aplicação no terreno?

Projecto com “site” na Internet

Drª Maria Helena Alvim – Há várias acções que já foram concluídas. A caracterização da realidade social em matéria de igualdade foi finalizada, através de inúmeras intervenções, entre elas um estudo analítico dirigido aos sectores da Segurança Social, Educação, Formação e Emprego, actividades económicas e sócio-culturais. Também foi elaborado um inquérito sócio-cultural à população escolar. Na acção dois desenvolveu-se a sensibilização da população para o projecto com várias actividades de acordo com os objectivos programados. Entre essas actividades, muito resumidamente, fizemos a apresentação das acções, constituímos os grupos de trabalho com as entidades parceiras do projecto. Dessas entidades parceiras contamos com a Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto, Empresa Municipal EMUNIBASTO, Escolas EB 2,3 de Refojos e do Arco de Baúlhe e a Fundação A.J. Gomes da Cunha.
Quanto à acção três, lançamos um “site” na Internet onde aparece um grande número de informações.
Na acção quatro, que persegue a constituição e gestão de um arquivo sobre a igualdade, continuam os trabalhos de recolha, pesquisa e tratamento dos dados.

A cultura é a base da vivência social

E.B. – Qual foi a principal razão e quais foram os critérios que presidiram à escolha de Cabeceiras de Basto para levar a cabo um projecto desta natureza?
M.H.A. – Muito objectivamente, direi que os critérios da escolha foram o conhecimento que tínhamos da realidade sócio-cultural de Cabeceiras de Basto, já que este projecto teria que ser implementado numa região considerada menos desenvolvida. Ora, atendendo a essa circunstância decidimo-nos por este concelho onde sabíamos também ter o apoio e a colaboração da Autarquia e das suas estruturas e serviços culturais.
E.B. – De que modo é que a cultura pode contribuir para a igualdade entre homens e mulheres?
M.H.A. – Eu acho que a cultura é a base da vivência social entre humanos. A cultura é transversal a todas as sociedades, a todas as comunidades e, portanto, dizemos que um país, uma terra é tanto mais desenvolvida quanto maior for o grau cultural e o nível de conhecimentos das pessoas.
Isto é quase uma verdade de La Palisse na medida em que a cultura forma e informa e, portanto, nas questões da igualdade a cultura está sempre presente. Tudo aquilo que herdamos, que nos foi legado, ou aquilo que vamos mudando face às influências é algo que não é estático, não está imóvel. Pelo contrário, tudo é acção e movimento. A cultura tem que ser, por isso, encarada de modo particular para nós não esquecermos quem somos, de onde vimos e também melhor entender o mundo de hoje. Vivemos actualmente uma época em que a mulher não é apenas um indivíduo na retaguarda da sociedade mas ela é, antes, parceira e construtora dessa mesma sociedade. Portanto, a mulher é parte integrante no destino da sociedade. Quero dizer, a mulher entende que para as questões da sociedade de hoje tem propostas a fazer. Deve ser, portanto, aceite em paridade e igualdade de circunstâncias, por forma a alcançarmos uma sociedade menos violenta, mais virada para a paz.

Acções têm tido excelente receptividade

E.B. – Sendo Cabeceiras de Basto uma terra do interior com uma população marcada por conceitos e preconceitos conservadores, como têm sido recebidas as acções desenvolvidas no âmbito do projecto em curso?
M.H.A. – Ora bem! As acções levadas a efeito, sobretudo as acções seis e oito, que têm constado de palestras e conferências destinadas a uma população mais urbana onde se debatem várias temáticas, têm tido uma excelente receptividade e interesse. Aproveito a oportunidade para recordar que no próximo dia 27 de Abril terá lugar a acção sobre o acesso à formação, à educação e à cultura. Estas acções têm sido dirigidas a uma população com características mais urbanas. Depois, entre as outras acções têm também importância e que estão na calha, como seja uma série de debates e palestras nas Juntas de Freguesia em sessões com horários pós-laborais, já a partir do corrente mês de Abril. Nestas sessões vamos abordar os conceitos-chave na compreensão da igualdade/desigualdade e fomentar o sentido da cidadania, recorrendo a meios áudio-visuais. Esta é para nós, de facto, uma acção muito importante. Contamos ter a colaboração dos senhores presidentes das Juntas de Freguesia e a participação de jovens. A médio prazo ainda temos outras acções a sete, nove e dez. A acção sete entronca o objectivo das palestras e debates a fazer nas Juntas de Freguesia. Com isto pretendemos que as pessoas das freguesias que não conhecem os recursos e os equipamentos culturais existentes no concelho possam visitá-los e apreciá-los. Cabem neste leque de equipamentos a Casa da Cultura, os Museus das Terras de Basto e da Lã em Bucos, a Biblioteca Municipal do Arco de Baúlhe, a Casa da Música, o Auditório Municipal, os Pavilhões Gimnodesportivos e Piscinas,etc. Além disso, queremos incentivar o uso e frequência desses bens culturais, que constituem uma riqueza de que a comunidade pode beneficiar, e elevando particularmente, os padrões da qualidade de vida e de bem-estar da população.

Exposição vai retratar mentalidades

Mais adiante vamos realizar uma exposição, que se enquadra na acção nove, para apresentação das actividades desenvolvidas ao longo do projecto a retratar, através de registos audiovisuais ou quadros cénicos, a evolução das mentalidades ocorrida no decurso do mesmo.
Devo dizer, a propósito, que este é um projecto inovador. Tanto quanto nos foi dado saber, não foi até agora desenvolvida qualquer acção do género em nenhuma parte do país. Esta é, por assim dizer, uma acção piloto que nos estimula e nos honra.
E.B. – A mobilização e o envolvimento das pessoas nas diversas acções do projecto têm correspondido às expectativas?
M.H.A. – Sim. É evidente que temos das parcerias todo o apoio e até temos tido surpresas muito agradáveis. O interesse das pessoas pelo projecto em colaborar e ajudar tem sido magnífico. Só lamentamos que as conferências efectuadas no Auditório Municipal não tenham tido a afluência e a participação que os temas e os oradores, muitos deles de grande prestigio científico e académico, justificavam.
E.B. – Como foi recebida pelas instituições locais – escolas, autarquias, associações, colectividades – a iniciativa lançada pela APIHM?

A melhor colaboração da Câmara Municipal


M.A.H. – Muito bem. Aliás, a APIHM tem realizado em Cabeceiras de Basto outras iniciativas, pelo que a sua acção já é conhecida de grande parte dos cabeceirenses, bem como temos mantido as melhores relações com as autoridades locais, com destaque para a Câmara Municipal.
Fomos, assim, acolhidos com grande receptividade por parte das pessoas e das instituições locais que depositaram toda a confiança nas nossas acções e no nosso trabalho.
E.B. – A violência doméstica entre casais, através da submissão da mulher ao homem, é uma “mancha negra” da realidade escondida destas terras. O projecto teve em conta essa situação lastimável?
M.H.A. – Bem. O nosso projecto, transversalmente, também toca nessa questão delicada. Mas não é, de forma alguma, seu objectivo tratar a violência doméstica. O nosso projecto é um projecto cultural, de civilização que quer chamar a atenção da realidade escola, da realidade família e da realidade sociedade envolvente. Nós não tratamos especificamente da violência doméstica, pois essa matéria pertence a outros organismos que têm pessoas especializadas no tratamento dessa realidade. No entanto, sempre que o tema é chamado à colacção tratamos, falamos e chamamos a atenção para o problema que não é apenas característico das terras do interior. Não. Infelizmente é uma realidade cultural que envolve as vivências a todos os níveis sociais. E mais; não é apenas característico das populações da região do interior como disse, mas atinge, igualmente, as zonas ditas desenvolvidas de outros pontos do país.

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