Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-01-2006

SECÇÃO: Recordar é viver

As catequistas da Igreja do Mosteiro

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A Candidinha do Leopoldo

 Candidinha do Leopoldo
Candidinha do Leopoldo
De vez em quando para desanuviar os olhos do computador, vou até à varanda da ADIB, que é a Associação onde trabalho e à qual pertence o Jornal Ecos de Basto ver o movimento da rua, ou apreciar os estudantes do ciclo que se passeiam em frente, para cima ou para baixo. E algumas vezes, num desses momentos de distracção, costumo ver à tardinha mais ou menos por volta das cinco e meia da tarde as pessoas que vêm do lado da Ponte de Pé, Quinta da Mata, Cruz do Muro e outros, em direcção ao Mosteiro, para a missa das intenções pelos seus entes queridos e amigos que já partiram. Nesse grupo de pessoas, vejo com frequência uma por quem tenho um carinho muito especial. Trata-se da Candidinha do Leopoldo, que mora perto da Capela de S. João na Cruz do Muro. Uma mulher que quase não sofreu alterações na sua figura ao longo destes anos todos em que naturalmente eu cresci, casei e hoje sou avó. Avó mais ou menos jovem, diga-se de passagem. A Candidinha do Leopoldo, apesar do seu cabelo branco que lhe dá até um ar celestial, tem uns olhos claros muito vivos e um rosto expressivo, sereno, em que se percebe que o seu interior está de bem com Deus e com o mundo.
1ª comunhão em 21/06/62, onde se vê ladeando as crianças as catequistas: Marquinhas, Mirinha, Cândida, a Guidinha a Aninhas do Magalhães, a Aurora e ao centro o Padre Barreto
1ª comunhão em 21/06/62, onde se vê ladeando as crianças as catequistas: Marquinhas, Mirinha, Cândida, a Guidinha a Aninhas do Magalhães, a Aurora e ao centro o Padre Barreto
Eu tive algumas catequistas na minha infância, desde a Igreja de Ceivães, em Valinha do Minho, Monção, onde vivi mais ou menos até à idade de oito anos, mais precisamente quando o meu pai emigrou para a França, onde procurou dar outro rumo à nossa vida, e depois já em Cabeceiras, em Refojos (onde nasci), foi a D. Marquinhas, mãe do senhor Mamede Vargas, que segundo dizem era tia da minha saudosa mãe por “via indirecta”. Eu cheguei a chamar-lhe tia Marquinhas. Era uma senhora muito religiosa, muito devota e com uma paciência infinita para com as crianças, mas exigia muito respeito, saias e vestidos “decentes…” Na igreja, quase tínhamos que estar em sentido, sempre de cabeça voltada para o altar. Mas conforme fazia connosco, exigia o mesmo às netas da Praça da República, filhas do senhor Mamede e da D. Deolinda Castro . Aos Domingos, tínhamos a doutrina de manhã com o saudoso Arcipreste Barreto, até à hora da missa das onze, sempre com as catequistas a dar apoio e a D. Marquinhas, andando com os seu passito calmo ao longo do corredor frente ao altar-mor, dando aqui e ali um puxãozito de orelhas, ao de leve, aos mais mal comportados. A esses, os pais eram chamados à atenção. Ensinou muita gente, mesmo durante os dias de semana na sua própria casa. No meu tempo, além da Candidinha do Leopoldo e da Marquinhas, havia as filhas do senhor Magalhães da Ponte de Pé, a Aninhas e a Guidinha Magalhães, a Aurora Batista do Souto Longal e a Mirinha de Paredes que além de ensinar, também cantava. Tinha uma voz surpreendente. Quando o Padre Barreto tocava o velho órgão e o coro cantava, a voz da Mirinha sobressaía logo. Mas todas elas cantavam muito bem. Ainda hoje, a Aurora Batista participa na Igreja e canta no grupo da Banda Cabeceirense. Dava gosto ir à missa para as ouvir. Aí, já o Arcipreste Barreto não reclamava. Em questões de música, cuidadinho com ele. Se alguém desafinasse, ou cantasse cada um para seu lado, ó meu amigo…era o bom e o bonito! Se as torres da Igreja não caíram naquela época também já não chegam a cair!
Comunhão solene em 01/04/73 - Crianças e catequistas na escadaria do Colégio S. Miguel tendo ao fundo a figura imponente do Arcipreste Barreto
Comunhão solene em 01/04/73 - Crianças e catequistas na escadaria do Colégio S. Miguel tendo ao fundo a figura imponente do Arcipreste Barreto
Mas as pessoas que, ao tempo, ensinavam abnegadamente a catequese, infelizmente, a maioria delas já não está entre nós. Que Deus haja, a Marquinhas, a Mirinha de Paredes e Aninhas de Magalhães, que morreu muito nova. Com todo o respeito por todas as minhas catequistas, aquela de quem tenho mais admiração e que mais me marcou, foi sem dúvida, a Candidinha do Leopoldo. Não sei explicar muito bem, mas sempre a achei diferente. Durante muitos anos não mantive qualquer conversação com ela apesar de vivermos muito próximas, somente um sorriso acompanhado de um bom dia ou uma boa tarde. Só ultimamente é que conversamos mais um bocadinho. Mesmo quando lhe pedi que me emprestasse as fotografias lhe disse: -”Candidinha a senhora está muito bem, está sempre na mesma. Eu gosto muito de si”! Ela olhou para mim com aquele rosto que eu acho muito bonito e respondeu-me:
A D. Marquinhas catequista
A D. Marquinhas catequista
-”Eu também gosto de si, Fernanda! Sempre gostei da sua maneira de ser”. Fiquei muito sensibilizada por aquelas palavras sinceras, saídas de uma pessoa extremamente simples.
Não é por mal, que durante anos, tenha dado a impressão que as coisas me tenham passado ao lado mas já vos tenho dito muitas vezes em crónicas anteriores que com a idade a avançar, começamos a dar mais importância às pessoas e às coisas que de alguma maneira passaram por nós e que com a “lei da vida” vão desaparecendo. Muitas das vezes não intervim directamente na história. Muitas das vezes, a história passou por mim e eu vi-a passar como se fosse uma mera espectadora frente a uma tela do cinema a assistir a uma longa-metragem. Essas imagens foram-se gravando e acumulando na “bobine” da minha memória e hoje sinto necessidade de a “desbobinar”. De certeza que nem sempre ela foi gravada com coisas boas, mas são as minhas recordações, e para mim todas as pessoas e coisas intervenientes na “fita” são importantes.
Não poderia acabar esta singela crónica sem homenagear estas mulheres que dispuseram do seu tempo para educar as crianças e fazer parte da vida da nossa Igreja do Mosteiro de Refojos, participando em todas as suas actividades.

Por: Fernanda Carneiro

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