Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-01-2006

SECÇÃO: A nossa gente

Dr. DUARTE NUNO E VASCONCELOS
O RESUMO DE UMA VIDA

Duarte Nuno de Carvalho do Vale e Vasconcelos, licenciado em Direito pela Universidade Clássica de Lisboa, Diplomado pela “Escuela Nacional de Administración Publica” de Espanha (Alcalá de Henares) e Auditor do Curso de Defesa Nacional do Instituto de Defesa Nacional, foi funcionário superior da Presidência do Conselho de Ministros, primeiro Administrador da Universidade do Minho e Director-Geral no Ministério da Administração Interna. Agraciado com o grau de Comendador da Ordem do Mérito, das Ordens Honoríficas Portuguesas. É sócio do Instituto Português de Heráldica e da Associação Portuguesa de Genealogia.
Aproveitando o facto deste ilustre cabeceirense ter lançado há pouco tempo o livro “Cavez da Terra de Basto”, o jornal Ecos de Basto convidou o Dr. Duarte Nuno e Vasconcelos a dar uma entrevista à nossa secção “A nossa gente” e foi com agrado que nos recebeu na sua Casa do Souto, bem no centro da vila de Cavez, numa tarde soalheira mas muito fria deste Inverno.
No rés-do-chão da sua casa, hoje escritório e biblioteca, onde outrora se guardavam alfaias agrícolas e naturalmente os produtos da quinta, terra fértil que ainda hoje faz questão de administrar, mantivemos uma conversa muito agradável que nos deu a conhecer pormenores da sua vida e da sua família e que hoje partilhamos com os nossos leitores, na certeza de que conhecer a nossa gente é também um exercício de enriquecimento do nosso saber, do nosso conhecimento.
E. B. – Nasceu em Lourenço Marques – Moçambique – em 1930. Sente-se mais um Português de Moçambique ou um Português da Metrópole?

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D. V. – Permita-me uma explicação prévia. O meu avô foi, provavelmente, o primeiro emigrante, de Cavez, em Moçambique. Emigrou em 1908 com os dois filhos mais velhos; a minha avó juntou-se-lhe com o restante prole (dois rapazes e duas raparigas gémeas) em 1910. Quando foi implantada a República já lá estavam todos. Meu pai, dos mais novos, tinha, então, doze anos.
Com a extinção do Morgadio (o último morgado foi meu bisavô) as propriedades da Casa do Souto foram partilhadas pelos seus seis filhos que, entretanto, tinham ficado órfãos de pai e mãe, muito pequenos, todos com menos de dez anos! A cada um veio a tocar uma pequena propriedade.
Porque cada um teve de pagar o seu sustento, educação e formação universitária (dois deles formaram-se em Medicina – brilhantemente – e um em Direito, em Coimbra), depressa os seus patrimónios se dissolveram.
Meu avô, o mais velho, que não tinha herdado qualquer casa, teve de a construir, endividando-se gravemente. Por isso emigrou para África.
Entretanto, os outros irmãos, pelas razões referidas, foram vendendo tudo, restando, apenas, a Casa do Souto, a principal, esta onde nos encontramos.
De facto, em partilhas, ela viera a pertencer ao filho terceiro do último morgado que a conservou, com muita dificuldade, até 1922. Muito endividado teve, também, de a vender.
Meu pai, sobrinho do seu proprietário (nessa altura em Moçambique, como disse) comprou-a, por morte, ao seu tio.
Assim, a casa que pertencera ao filho terceiro, veio às mãos do filho mais velho, vivo, do primogénito do último morgado.
Na sua biblioteca na Casa do Souto
Na sua biblioteca na Casa do Souto
Daqui resultou que se o Morgadio ainda existisse, este tinha seguido o seu curso como seguiu, ou seja: o filho mais velho do último morgado, era meu avô; o seu filho mais velho, vivo, era meu pai; e o seu filho mais velho, sou eu. E cá estou.
E. B. – Nasceu, então, em Moçambique...
D. V. – Sim, meu pai estava lá, tendo vindo à Metrópole, salvo erro, duas vezes. Numa delas conheceu minha mãe, uma lisboeta, com quem casou. Daí o meu nascimento em Lourenço Marques. Mas vivi lá pouco tempo. Em 1935 vim com meus pais a Cavez, regressando a Moçambique em 1937.
Voltei definitivamente para a Metrópole com minha mãe e meu irmão, em 1940. Esta vinda impunha-se, pois as propriedades que meu pai possuía em Cavez (para além do Souto, de que só tinha a raiz) estavam mal administradas, impondo-se a presença de alguém, da família, pois meu pai, ao tempo, não podia deixar Moçambique. Instalámo-nos em Fafe donde minha mãe foi administrando o que tínhamos.
Meu pai regressou, definitivamente, à Metrópole em 1942, iniciando a recuperação desta Casa do Souto.
Pormenor da Casa do Souto
Pormenor da Casa do Souto
E. B. – Viveram, então, em Fafe?
D. V. – Só um ano. Depois fomos para Lisboa, pois meu pai iria aí organizar a sua vida profissional. De Lisboa vínhamos a Cavez, amiúde.
E. B. – O senhor Doutor fez os seus estudos em Lisboa?
D. V. – Sim, licenciei-me em Direito, em Lisboa.
E. B. – Voltando à pergunta inicial, e até porque viveu tão pouco tempo em Moçambique, sente-se Moçambicano?
D. V. – Nunca me considerei moçambicano. Apenas nasci lá. Lisboeta, sim. Mas com raízes aqui, em Cavez. Essas nunca as enjeitei.
E. B. – Formou-se em Direito mas o seu percurso profissional não foi a advocacia...
D. V. – Ainda experimentei exercê-la, mas não gostei. Acumulei-a durante meia dúzia de anos com lugares no Estado (por isso me ser permitido) mas achei que essa não era profissão que me conviesse. Não tinha a menor vocação para ela.
E para a Magistratura, que meu pai tanto gostava que tivesse seguido, não fui, porque sou sedentário e a vida de juiz é de nómada.
Cheguei a requerer, por duas vezes, a colocação como Delegado do Ministério Público. Mas tão depressa fazia o requerimento, como logo ia cancelá-lo!
Resolvi, por isso, entrar na Função Pública onde fiz toda a minha carreira.
E. B. – Passou por diversos serviços...
D. V. – Primeiro estive numa Caixa de Previdência, depois num Serviço Fiscal do Ministério das Obras Públicas, onde me foram buscar para a Presidência do Conselho de Ministros. Fui então enviado para Espanha, onde frequentei um Curso de Organização Administrativa.
Assim, parte da minha vida profissional está ligada à organização da Administração Pública. Primeiro na Presidência do Conselho, depois no Ministério da Administração Interna. Percorri, então, grande parte da Europa, ora completando a minha formação, ora participando em Congressos e reuniões internacionais, sempre sobre Administração Pública.
Aí estive até meados de 1980, altura em que, sendo já Director-Geral da Organização Administrativa, o Ministro, Sr. Engº. Eurico de Melo, me convidou para Director-Geral do STAPE – Secretariado Técnico dos Assuntos para o Processo Eleitoral, onde permaneci até finais de 1992. Fiz, assim, quatro comissões de serviço, tendo servido com Ministros e Secretários de Estado do CDS, do PSD e do PS. Creio que, por ser notória a minha náusea pela política, lá terão pensado ser eu o homem certo para o lugar, pois todos esses governantes me renovaram as comissões de serviço.
E. B. – Naturalmente porque desempenhou a função com sabedoria e brio profissional.
D. V. – É possível. E talvez por isso me tenham feito Comendador da Ordem do Mérito.
E. B. – Já nos falou do bisavô, do avô... o pai viveu até...
D. V. – Meu pai faleceu em Janeiro de 1964, com 67 anos. Depois, a Casa do Souto ficou para mim e para meu irmão Jorge, em comum, até 1967. Nesse ano meu irmão propôs-me partilhas, tendo daí resultado a posse do Souto só para mim.
E. B. – O Doutor vivia em Lisboa mas manteve sempre uma ligação forte a Cavez e às suas propriedades.
D. V. – Sempre. Ainda meu pai era vivo, eu e meu irmão vínhamos muitas vezes a Cavez. Quando o Souto já era só meu, cheguei a vir de Lisboa aos fins de semana de quinze em quinze dias (sem auto-estradas) durante vinte anos!
E. B. – O senhor Doutor está cá definitivamente?
D. V. – Definitivamente sim. Mas dividindo as estadas com idas a Lisboa. Tenho um programa de permanência aqui, que depende dos trabalhos agrícolas a efectuar. De qualquer modo estarei sempre onde for necessária a minha presença.
E. B. – Doutor Duarte Vasconcelos, esta obra que acaba de lançar há poucos dias, “Cavez da Terra de Basto”, é mais uma obra ou é a primeira obra?
D. V. – Esta é a primeira obra. Espero dentro em breve publicar um outro volume, mais pequeno, resultado da informação colhida ao longo das pesquisas que fiz para este livro. Será o seu seguimento. Depois... já vejo pouca estrada!
E. B. – Há quanto tempo nasceu a ideia de fazer este livro?
D. V. – Há muitos anos! Pensei primeiro fazer um livro sobre as três casas: da Ponte, da Igreja e do Souto. Mas, depressa percebi que aquilo que mais interessaria às pessoas, em geral, era algo que dissesse respeito à própria freguesia. E, assim, já depois de ter escrito sobre aquelas casas e suas famílias, aprontei a primeira parte do livro, sobre a freguesia. Por isso pode dizer-se que o volume nasceu do fim para o princípio.
Mas a ideia de escrever este livro e de procurar a genealogia da família vem de há muito.
Meu pai tinha pedido ao falecido (há que anos...!) Dr. Francisco Canavarro de Valadares, de Santa Marinha - Ribeira de Pena, para lhe fazer um apanhado genealógico sobre a família. Esse trabalho nunca foi apresentado. Assim, resolvi eu saber quem estava para trás de nós.
Quando fui nomeado administrador da Universidade do Minho, a oportunidade surgiu pois estava tudo no Arquivo Distrital de Braga. Tive é que aprender, com quem sabia, a ler documentos antigos. Fui recolhendo informação ao longo de vinte anos e, depois, durante mais dez, organizá-la até chegar à edição do livro agora disponível.
E. B. – Há dias, na apresentação do seu livro, o Vice-presidente da Câmara, classificou o Dr. Duarte Vasconcelos como “garimpeiro da história”. Concorda?
D. V. – Ah! O Jorge Machado disse isso? De certo modo, sim. Sou um “out-sider”; investigo apenas aquilo que me interessa. Faço-o com gosto! E ao fazê-lo, aprendo muito. E pouco se me dá que se diga, como dizia o poeta alemão Goethe, que “há certos livros que só servem para provar que o seu autor aprendeu alguma coisa ao escrevê-los”.
E. B. – Cavez... o que representa esta terra para o Doutor Duarte Vasconcelos?
D. V. – Cavez é... bem, o que lhe posso dizer é que “nasci” em Cavez há quinhentos anos. “Documentadamente”.
E. B. – Cavez foi elevada à categoria de vila há alguns anos atrás. Acha que isso foi importante para a freguesia?
D. V. – Não sei. Tenho algumas dúvidas... Contudo, essa elevação é, naturalmente, motivo de orgulho para as pessoas.
E. B. – Cabeceiras de Basto no século XXI... Como vê o desenvolvimento de Cabeceiras nos últimos anos?
D. V. – Vejo com natural satisfação. Cabeceiras deixou de ser tão provinciana. Esta terra tem tido um desenvolvimento muito grande ao nível urbano e de infra-estruturas. Agora, o que falta, e é muito, terão de ser as pessoas, os cidadãos, a fazer progredir a sua terra. Não são só as autoridades a fazê-lo. Estas têm a obrigação de criar condições, mas ao cidadão cabe investir para criar riqueza e promover o desenvolvimento.
E. B. – Ao longo de uma vida tão preenchida, o que gostou mais de fazer?
D. V. – Onde gostei mais de trabalhar foi na Direcção-Geral da Organização Administrativa.
E. B. – Já agora, o que pensa da reforma da Administração Pública?
D. V. – Há décadas que se fala na sua reforma. Não se fará nunca, porque a própria Administração não quer! A rotina é atávica. Para que a reforma da Administração ocorresse era necessária alguma “violência”. E esse “encargo” ninguém está disposto a assumir.



Por: Luis Filipe Silva

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