Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-12-2005

SECÇÃO: Crónica

A Minha Terra - XVIII

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A Mata de Santo Antonino, densa, muito densa, enorme, ia até aos domínios de Alvação, era, e ainda é alguma coisa, um paraíso de evasão servido numa bandeja de silêncio. O silêncio e o torpor aliavam-se aos ruídos, sons, barulhos, tudo da natureza, enfim, ao que só existia quando céu e terra deixavam de estar mudos, ao fundo, junto à casa solarenga, galinhas-da-índia, cisnes, faisões, perus, pavões, rolas, eu sei lá. Nas noites invernosas e escuras como breu ninguém se atrevia a alcançá-la e a prescrutá-la.
D.Emília não emprenhava de maneira nenhuma, porque tinha a madre seca e não havia meio de a barriga lhe inchar, como às demais mulheres vizinhas que pariam filhos como quem paria bacorinhos. Sofria de muito desgosto, não obstante o marido cumprir a sua obrigação canónica com frequência.
D. Emília, a senhora Emilinha, fez uma promessa de arromba a Nossa Senhora da Graça – ir de joelhos da Pedra Alta, por cima de Atei, e consultou, à segurança, bruxas e feiticeiras, sobretudo a mais famosa, a de Escarei, que só atendia por combinação, porque a fila de espera era longa.
Uma cigana observou-lhe a vulva e o clítoris com um dedo e abanou a cabeça descrente, mas aconselhou-a a praticar o acto, herdado de Adão e Eva, com o marido em dias de Lua cheia, à meia-noite em ponto e outra vez de manhã e guardar o choco e rezar a salve-rainha à Mãe de Deus para lhe fazer o descimento ao seu ventre sáfaro.
Nossa Senhora da Graça ficou surda tapada e as bruxas, apesar de grandes esforços e mesinhas, não conseguiam que D.Emília embarrigasse. Um padre, de tricórnio e roquete, à testa da chusma processional, para fazer o milagre da fertilidade em D.Emília, entoava por um velho ripanço a ladainha de Santa Justa, cuja lição, provavelmente de cunho ariano, sobrevivera aos ritos visigóticos e moçárabes:
- Inupta puela suavíssima…
- Ora pro nobis!
- Tenera caro rastro illibata…
- Ora pro nobis!
- Rudis et tenuis carina…
- Ora pro nobis!
- Excelsa unda voluptatis…
- Ora pró nobis!
- etecetera.

Desarmou a procissão arcaica e homens e mulheres embrenharam-se aos pares pelo giestal em flor. Baixara de todo a noite, e ao clarão das estrelas e do quarto crescente lobrigavam-se a cada passo casais tomados de delírio amoroso, embora as entranhas de D.Emília continuassem estéreis como a pedra dura. Devia ser castigo de Deus por ter casado por arranjo e não por amor. Foi um sufoco. Ficou para tia e teve de aturar os sobrinhos, que eram uns valdevinos e lhe punham a cabeça em água. Eram uns ratoneiros, larápios que operavam de noite e nas sombras, e malcriados. Um deles, quando interpelado sobre a má vida que levava, virou-se de escantilhão, coçou os testículos e assoou o monco, ainda a fazer pouco. Saiu das Pereiras ainda novo e o burgo viu-se livre dele. Uf! Nem GNR, nem regedor, nem cabos-de-polícia. Era o sobrinho da senhora D. Emilinha, menor, e só numa casa de correcção, lá para Lisboa, talvez a Casa Pia, ou para o degredo, em África.
O sol aplicava diariamente a sua demão de luz aos dois lados da minha casa, mais amarelecido pela manhã na parede voltada a leste, mais amarelo torrado na parede do lado ocidental pouco antes de passar o testemunho à sombra avassaladora da noite, com os gnomos e os fantasmas cirandando depois das zero horas.
Em-pós as noites longas das moiras encantadas, os homens e as mulheres, cedinho, lá se iam espalhando pelos campos e pelos montes, como moiros de trabalho, enquanto as moiras só viviam na imaginação.
Eu só desejava uma mesa e pão sobre essa mesa, na toalha de linho nódoas de vinho, a lareira lambida pelo fogo, queria a casa do forno onde eu me escondia dos relâmpagos e trovões, queria numa aldeia, umas pedras, um rio, umas quantas mulheres de joelhos brancos esfregando a roupa nas pedras, queria só isso, queria a courela, as perdizes no ovo, a baba do cuco, laranjas de orvalho no ano novo colhidas na árvore, com folhas ainda agarradas ao pé, queria ver o vento, o véu das noivas apanhar os confeitos nos casamentos, queria o pátio da escola, a roda das raparigas a cantar à volta do plátano, o primeiro sonho de amor, as primeiras palavras gaguejadas trocadas com uma rapariga, queria só isso, nem isso a bem dizer queria. Que me deixassem sozinho nas minhas elucubrações, talvez.
Eu, um adolescente tartamudo, queria saber coisas.
- Vai-me contar ou não como é que a mãe e o meu pai se conheceram?
- Já te disse rapaz. Isso foi nos Abris. Espera. Não te mordas de ânsia.
- Mordo o que posso, mãe.
- Então só saberias que eu e ele nos conhecemos se nos tivéssemos conhecido nos Dezembros.
- Poça, mãe, que diabo…
O menino do lado, meu companheiro de brincas, olhou-nos com a sua cara de sapo e foi caminhando pela mão da morte.
O meu pai, então, apanhando a minha mãe na cozinha a lavorar e depois a pilhar da vassoura e com ela varrer a capoeira e aos bichos dar farelo e milho avondo, acudiu e explicou tudo direitinho, nos conformes, sem subtilezas.
Obrigado, pai, por saber que me assimilei aos teus genes que vêm dos meus avós e que tu me transmitiste.
Pobre pai: cresceste neste mundo, perdeste-o e tardaria anos a regressá-lo, pelas vias mais labirínticas, toda essa vida de aprendiz dum marceneiro ronha, dois anos e meio de tropa absurda, deixou-te cavilado.
Minha mãe calou-se. Daí a pouco estava a rezar. Julguei que fosse tique o seu papeado, não, era a passar as contas do rosário, olhos na fogueira, a que cozia o pote das batatas rachadas, e os feijões amarelos do caldo subiam e dançavam com a fervura. Quando se abriu disse-me:
- Não tinha ainda rezado pela alma do teu avô, filho. Tu não rezas, és maçónico. Olha que morreu a olhar o teu retrato. Tu eras o seu ai-jesus. Oh, maldita fosse a vida! Maldito o dia em que reparei na primeira letra de imprensa! Maldito o mestre que me ensinou a ler e permitiu que me deixasse trespassar dos venenos do espírito, Homero, Camilo, Tolstoi, Anatole France! Porque não fiquei eu em Barroso, com o meu avô, com mãos rudes a cavar a terra dura, a fazer filhos, a sepultar os mortos tão natural e simplesmente como um pássaro lança o seu chilreio nas tílias do quintal?
Reboaram os passos da gente da aldeia e não era no caminho roto, mas na minha alma que iam andando e pisando. Para que viemos à luz, Senhor?
A caloreira era tanta que as pedras ardiam na calçada, e nós descalços, enquanto os regatos cristalinos corremurmuravam entre choupos e amieiros.
Pois minha madrinha e a irmã, boas senhoras, mas sacristas, tinham uma paixão instalada na sua obcecação: averiguar quais os herejes e descrentes estavam para morrer para chegarem a convertê-los à derradeira hora, com elas um padre vizinho, muito esguio e formal, da Confraria da Sagrada Família.
Nenhuma vontade hereje, nenhuma indiferença ateia, nenhum preconceito laico, podia interpor-se então entre a sua vontade de cruzadas do Céu e os leitos agónicos.
Avançavam ambas com o seu cura de almas até à cama onde, a maioria das vezes, eram aceites, com um suspiro de resignação, pelo moribundo, que admitia, sim senhor, que fora punheteiro e putanheiro, que era católico, mas que por preguiça nunca lhe deu jeito gastar as alpercatas nos lajedos das igrejas.
Chegámos assim ao São Miguel. Cabeceiras transformou-se num mosaico de pequenas e grandes barracas de madeira, de festões de buxo e balões venezianos, de ciganos de pele incendiada, a feirar cavalos, jumentos e jumentinhos, a “remonta” (1), esfarrapados mercadores de aleijões, vendedores da banha-da-cobra, tendas, mesas ao ar livre, belfurinhos e tavolados em que expunham todos os seus produtos e artigos de veniaga e os mendigos estendiam as mãos aos feirantes com o semblante imperioso da pedinchice oficializada e aceite comumente. O mendigo era uma figura social, como o jornaleiro ou o advogado, salvo as devidas distâncias.
No dia 29, as opas vermelhas dos homens que transportavam enormes e espalhafatosos andores na procissão, os grupos de anjinhos, que lindinhos, de asinhas a flutuar e das figuras de santos e santarrões, a Virgem Maria, uma rapariga de 16 anos, descalça e toda de branco, naquele tempo havia mais fé e pitrólio, da carne sangrenta dos bois, carneiros e cabritos que os barraqueiros esfolavam à entrada das portadas de ramos-de-loureiro, do estralejar dos foguetes, das danças de roda improvisadas aqui e além, do gemer elástico das gaitas, dos carteiristas da escola de Ermesinde, os serralhos ficavam lá para a Fonte de S. João e cercanias escuras. O terreiro regurgitava de risadas selvagens, que estoiravam a par da estridência bárbara da música e dos dançarinos, a saracotear os corpos suados, que rodopiavam como loucos.
Os feirantes mais pobres, de longe, dormiam embrulhados nos cambolins, ou mantas de trapo, na Praça do Mosteiro.
O Administrador, senhor Chaves, oriundo de Braga, monárquico de cepa, com anel de brasão, e o Briote, chefe do posto da GNR, armados até aos dentes, garantiam a mínima segurança, só a presença deles assustava, a criançada fugia a sete-pés. O arcipreste Barreto que tinha um génio tão repentino como exaltado, excessivo, pouco próprio de um pastor de almas, era amigo íntimo do Administrador, uma fera, e batia palmas às suas acções correctoras, mesmo as mais arbitrárias. A Cadeia das Pereiras, uma enxovia, ficava a abarrotar.
Foi na Feira de São Miguel que conheci uma bela e elegante donzela, e com ela namorei todos os dias, até à abertura das aulas no Colégio, pois uma empatia muito forte apanhou-nos, a velha atracção do masculino e do feminino, submeteu-nos.
Renasce sempre no Largo do Pelourinho a minha infância, ao fim da tarde o jogo do chinquilho, o arruído das malhas, os paulitos, o sol poente esvanescendo, a fina fímbria de uma luz, divinizando a morte. Os galos a tilintar na fresca manhã, havia já pão mole e bebida de cevada na malga, com muito açucre mascavado e nós lá íamos, em bando chilreante, caminho da escola de aprender a ler, a escrever e a contar e a senhora professora apontava com o dedo em riste a fotografia do Salazar, aquele que nos salvara a todos não sabíamos bem de quê, a professora também não sabia, mas jurava que nos salvara; e, de mãos postas, diante do Crucifixo, rezávamos as orações da cartilha. Depois, a educação cívica: “é preciso respeitar os pais, cuidar deles, sobretudo quando chegam à velhice, pedir a bênção ao senhor abade, respeitar os irmãos mais velhos e acarinhar os mais novos, os professores que nos tiram das trevas, os legítimos superiores…” Pois sim, adiantou muito. Está-se a ver…
A mestra, com os seus olhos saídos dum lápiz-lazúli, como se estivesse sempre à espera do Natal, “a festa religiosa mais linda do mundo”, meninos e meninas.
Para nós valia bem pouco - um pião ou um cartucho de figos do Algarve ou um boneco de barro de Barcelos, era o que o Menino Jesus nos trazia pela chaminé, mas ao fidalguinho de Alvação, que frequentava um colégio de meninos bonitos, trazia-lhe uma bicicleta. Comecei muito cedo a duvidar desse Menino Jesus, amigo dos pobrezinhos.
A escuridão dos casebres afundava-se no branco alcochoado de uma neve gorda por entre a qual assomava o brilho de pedra de ónix dos ossos mais salientes dos fragoedos.
A minha terra são todos os amigos que conquisto, não bajulo, e que, por isso, perco a cada instante, são os mesmos campos verdes ou lá o que são hoje, que no Outono vi tristes e desolados, pois neles nasci e morro a cada hiato, o malmequer, a erva, o velho pessegueiro em flor assegura-me o mínimo de dor indispensável. Sou donde estou e só sou português de rija têmpera por ter em Portugal olhado a primeira vez a luz do dia. Não pertenço aos vendilhões das almas no templo do mundo e, afinal, até sou muito grande, nasci numa aldeia pequena, simplória, simpática, alegre, louçã onde todos se conheciam e amavam. Que possa sempre ver a pedra, o terrunho, a estrela, o animal, a árvore, a sucessão das estações, o dia, o pôr-do-sol, a noite e ouvir o balir das ovelhas e os grilos cantarristas.

(1) Remonta – Grupo de oficiais militares de cavalaria que vinha à Feira de São Miguel escolher e comprar os melhores espécimes de cavalos para as respectivas unidades e se hospedavam na velha Pensão Cabeceirense, de minha tia Glorinha.

Por: Alexandre Vaz

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