Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 30-11-2005

SECÇÃO: Opinião

ARCO DE NÓS

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A Bela e o Nojo

1. A história não se passou comigo. Mas é minha porque me comoveu suficientemente para falar dela. Passa-se numa reunião com encarregados de educação. A propósito dos problemas de um aluno, a mãe desata subitamente a chorar e fala no regime de terror que há, todos os entardeceres, na sua casa.
2. Violência doméstica, está-se mesmo a ver. É um assunto sempre penoso, que a todo o instante pode ferir susceptibilidades, suscitar processos judiciais, gerar vinganças e remorsos. Um mundo, enfim, de silêncios e de indignidades secretas. O mais fácil é ignorar, encolher os ombros, suspirar q.b. e andar para a frente. Entre marido e mulher, etc...
3. O problema de um homem chama-se espelho. É quando nos não revemos, à hora de nos auto-mirarmos, naquela figura covarde e resignada, que desiste de ser gente e opta pela medíocre tranquilidade de não ter chatices. Na profissão e na vida.
4. O caso da violência doméstica assume contornos mais trágicos quando há, no meio desse novelo chamado família, crianças vítimas. Inspiro-me numa imagem dada à luz por Soeiro Pereira Gomes para as descrever: homens de amanhã que não chegam a ser meninos hoje. Usurpação da infância, da adolescência, da juventude. Roubo de felicidade.
5. A encarregada de educação diz ao director de turma do seu filho que já levava pancada desde moça, desde o namoro. Tivera um dia a esperança de que, após o casamento, o agressor prescindisse desses hábitos bestiais (de besta). Tivera depois a esperança de que o nascimento dos filhos conseguisse o que o casamento não conseguira. Até que ao ingénuo esperar sucedeu o desespero e a descrença. Tudo isto rodeado de sangue e de lágrimas que custam muito mais a sentir do que a descrever.
6. Tomou, em certa noite de gritos e de pancadaria, a decisão enfim de sair de casa, levando os filhos. Mas não já. Tem ainda de esperar. E explicou o porquê do adiamento desta liberdade.
7. Em pequenina, quando fizera a primeira comunhão, já não tinha pai; e custara-lhe muito essa ausência, ao ver  os amigos coetâneos serem beijados pelos respectivos patriarcas. Queria, portanto, esperar pela primeira comunhão do filho, antes de correr com o marido agressor de tantos anos. Para que, já se vê, não fosse o descendente privado da presença paterna, nessa altura solene.
8. O capricho desta mãe tem razões de amor que tornam tudo tão certo que não há legislação ou filosofia capazes de o combater. Mas suscita também esta ideia perturbadora, embora bela, de haver quem prescinda de ser feliz para que os outros sejam felizes. Não seria isto particularmente grave, se não houvesse por aqui também a questão da dignidade humana...
9. Tem de haver um limite para nos sacrificarmos, nos humilharmos, nos adiarmos. Esse limite chama-se dignidade. Abaixo desse equador das nossas vidas, já não somos pessoas.
10. Isto tem a ver com a condição dos homens e mulheres em geral. Mas parece-me igualmente actual, no contexto das novas regras que o Ministério da Educação tem vindo a instituir, perante o espanto e a amável resignação da classe docente.
11. Bem sei que o tema é já outro, a merecer outra crónica. E por isso suspendo o discurso, mas não o nojo.

Por: Joaquim Jorge Carvalho

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