Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 30-11-2005

SECÇÃO: Opinião

ANO 2005 A CAMINHO DO FIM

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Não deixa saudades…

Mesmo correndo o risco de ser repetitiva eu não podia deixar de escrever algumas palavras nesta época que pode ser alegre ou triste.
Aproxima-se o Natal e com ele as lembranças e as saudades daqueles que já partiram e que pela primeira vez não irão estar presentes. No meu caso falo da minha mãe, Isaura Pereira.
Pela primeira vez não vamos ter a mãe preocupada em saber se as couves e o bacalhau chegam para as quase quarenta pessoas;
Pela primeira vez não vamos ver a nossa mãe a pôr as couves a cozer às três horas da tarde no dia 24 de Dezembro;
Pela primeira vez não vamos ter a mãe a dizer que uma parte do bacalhau é frito outra parte é cozido;
Pela primeira vez não ouviremos dizer a nossa mãe que as couves, para um genro não levam tempero e para os outros são temperadas com muito alho e azeite. E também já não nos dirá para não nos esquecermos de fazer a cebolada (uma moda nova introduzida há poucos anos, em nossa casa).
Infelizmente, este ano ela não estará presente.
Já não lhe direi como de costume:
Com esta vela de esperança desejo à minha família, amigos e leitores do Ecos de Basto, um Santo Natal e um Próspero Ano Novo
Com esta vela de esperança desejo à minha família, amigos e leitores do Ecos de Basto, um Santo Natal e um Próspero Ano Novo
-"Oh mãe! Ainda agora são três horas e você já está a contas com as couves? É tão cedo!”
-”Não faz mal! Quanto mais cozidas melhor ficam!”, respondia ela.
Esta ladainha repetia-se todos os anos e ela acabava sempre por ter razão.
Este ano a responsabilidade da cozedura das couves e a feitura da ceia de Natal toca à minha irmã Conceição e a mim, que sou a mais velha dos nove irmãos, e também porque somos as únicas raparigas a viverem em Cabeceiras. E acreditem que já sinto o peso da responsabilidade!
Será que vamos fazer tudo como a minha mãe fazia? Será que as couves, o bacalhau, as rabanadas e a aletria irão ter o mesmo sabor? Espero que sim!
Mas, à parte destas minhas preocupações e destas tristes lembranças tenho que me lembrar que o Natal é uma época de esperança, de amor, de receber e principalmente de repartir. Coisa que muito raramente fazemos.
Disse no Natal anterior que o ano de 2004 era para esquecer. Penso que o de 2005 também não deixa saudades nenhumas. As catástrofes naturais que aconteceram foram horríveis. Por exemplo, o furacão a que deram o nome de “Katrina” que submergiu a cidade de Nova Orleães e outros que destruíram cidades com chuvas, lamas e sismos. Não podemos esquecer as desgraças que acontecem diariamente, pela mão do homem, como os atentados suicidas invocando o nome de um Deus para justificá-los.
Mas que Deus e que religião são esses que permitem tais crimes hediondos?
São atingidos diariamente dezenas de seres, sendo muitas vezes a maioria crianças. Mesmo os suicidas são pouco mais que crianças que morrem com a convicção que serão heróis de uma guerra chamada de “guerra santa”.
Será que nunca se irão resolver estes conflitos árabes? Mas o pior é que os atentados já extravasaram os seus países e já atingiram outros continentes, nomeadamente, o americano e o europeu.
E as secas e os incêndios que atingiram este ano o nosso País contribuindo para piorar a crise económica que já se arrasta há alguns anos e não vejo maneira de tão cedo ela desaparecer? E ainda no decorrer deste mês de Novembro o que aconteceu em França, mais propriamente na cidade e nos arredores de Paris? Por questões religiosas e de racismo arderam milhares de carros, uma bomba de gasolina, uma escola e penso que uma fábrica. Na minha opinião, arderam mais os carros dos que trabalham no duro porque de certeza que os outros estavam guardados em garagens.
E é com o aproximar desta quadra natalícia, quando nos pomos a reflectir e nos interrogamos qual será a causa de tanto ódio que existe dentro do ser humano que ao menor atrito faz sair para fora de nós o animal adormecido com toda a violência impossível de descrever.
E além desta violência real e diária ainda temos a violência gratuita da ficção na televisão e no cinema. O que interessa é saber quem bate o record das audiências.
Mas eu não sou analista político e nem crítico do cinema. Deixo estas interrogações àqueles que têm responsabilidades, nomeadamente, aos governantes que foram eleitos pelo povo para zelarem pelos direitos civis e os direitos humanos.
Mas eu não queria, de maneira nenhuma, terminar este meu artigo com uma carga tão negativa e tão pessimista. Estamos a chegar ao Natal. Há que ter esperança. Devemos transmitir às nossas crianças e aos jovens que a vida pode ser bela se for vivida baseada no respeito e amor pelo próximo. Eu pela minha parte tentarei ser melhor.
Espero que todo o mundo passe um Santo Natal e principalmente haja comida à mesa para todos. São os meus votos.
Boas Festas.

Por: Fernanda Carneiro

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