Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-11-2005

SECÇÃO: Opinião

A propósito dos acontecimentos na França

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A cultura é um património intelectual, próprio de uma determinada sociedade em que se constitui pelos valores, normas, linguagens, símbolos, modelos de comportamento, etc. Esta recria-se e adapta-se em função da mudança das realidades. As pessoas podem identificar-se em diversos grupos de: cidadania, género, língua, política, religião, história, costumes, vestuário, culinária, enfim. Garantir a diversidade e respeitar as identidades é um desafio para a humanidade, uma vez que os cerca de 200 países existentes contêm cinco mil grupos étnicos. Portanto, a maioria dos países são considerados sociedades multiculturais, na medida em que abarcam diversos grupos culturais. Actualmente, as pessoas estão a mobilizar-se mais em causas ligadas a injustiças étnicas, religiosas, culturais, exigindo o reconhecimento da sua identidade. Este tipo de movimentos fazem parte da história universal, mas devido à disseminação da democracia, por um lado, e ao avanço da globalização, por outro, estes são cada vez mais visíveis. As pessoas têm a noção do seu direito à liberdade, de escolher e mudar sua identidade, praticar livremente sua língua, religião, seguir à risca a etnia sem preconceitos, sem medo de punições. É concisa a ideia de que se estes movimentos não forem geridos podem converterem-se em conflitos, exemplo actual são os acontecimentos na França. Dentro do fenómeno da migração, há duas abordagens políticas utilizadas em vários países: por um lado, a diferenciação, ou seja, os migrantes mantêm a mesma identidade não se integrando na sociedade, e por outro, a assimilação, isto é, a impossibilidade de manter a antiga identidade.
A liberdade cultural é a capacidade de as pessoas escolherem a sua identidade com opções de escolha. Esta liberdade, uma vez que é um fenómeno indispensável para o desenvolvimento humano, necessita de ir mais além das oportunidades sócio-políticas e económicas. Existe duas formas de negar a liberdade cultural: por um lado, a exclusão do modo de vida, negando o estilo de vida que um grupo escolha, argumentando que se deve viver todos de igual forma numa mesma sociedade, por outro, a exclusão da participação que consiste em discriminar as pessoas nas oportunidades sociais, políticas e económicas devido à sua identidade cultural.
O objectivo das sociedades multiculturais é defender a liberdade e a igualdade para todos, baseando-se no respeito mútuo das diversas culturas, políticas, crenças que não ultrapassem o “bom-senso”, é uma exigência para minimizar os riscos de conflito em todas as nacionalidades, uniões sociais e comunidades culturais, em suma, pretende-se uma neutralidade ética da lei e da política. Estamos perante um desafio para todos os países: delinear políticas nacionais específicas que alarguem as escolhas, invés de as estreitarem, através do apoio e protecção das identidades nacionais mas, no entanto, mantendo as fronteiras abertas.


Por: Sílvia Machado

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