Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-10-2005

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (58)

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AINDA SOBRE A JIBÓIA

Parece-me existir um casal de águias reais, talvez mais do que um casal, uma pequena colónia, cujo abrigo, e muito provavelmente os respectivos ninhos, se localizam na Serra das Torrinheiras, nuns penhascos situados entre a Pegada da Mula e a tomada de água da Levada de Víbora.
Para quem não sabe, e poderá ficar a pensar que o sítio denominado de Pegada da Mula é pura invenção minha, esclareço que se trata de um ponto situado no antigo caminho que ligava os Moinhos do Rei às Torrinheiras, passando pela vertente poente do monte que fica deste mesmo lado, relativamente ao lugar de Porto de Olho.
Tem mesmo o desenho de uma pegada de um cavalar, marcado numa das lages da calçada, e fica um pouco acima da Fonte da Grila. Estes dois sítios eram pontos de referência para muita gente, mas em particular para os volframistas que, idos de Cabeceiras e mesmo de outros concelhos destes lados, demandavam as minas da Borralha. Deslocando-nos ao local, verificámos que a Fonte da Grila desapareceu, deve ter ido abastecer um qualquer fontanário de um lugar vizinho, e o caminho onde se poderia ver a Pegada da Mula está irreconhecível, por via do matagal.
No que às águias diz respeito, costumo presenciá-las nos céus de Cabeceiras, planando a grande altitude, um par, deve ser um casal, uma maior que deve ser a fémea, esta, sendo adulta, tem cerca de dois metros de envergadura, a outra um pouco mais pequena, deve ser o macho, os machos são por norma mais pequenos que as fémeas. As águias planam em círculos, a altitudes que variam entre os mil e os dois mil metros.
Daquelas altitudes fixam o solo, à procura de qualquer roedor que pode ser um coelho, um rato, um esquilo e também sapos e cobras. Têm uma visão apuradíssima, da altitude de mais de dois mil metros conseguem localizar qualquer animal no solo, e então, fecham as asas, e em voo picado, lançam-se como um projéctil sobre a presa, que dominam num ápice, com as enormes garras e uma fulminante picada, num ponto vital, com o seu potente bico em forma de gancho.
Aconteceu há uns dias, mais concretamente a seis de Setembro do corrente ano de 2005, eram cerca das treze horas e trinta minutos, eu deslocava-me no sentido de Fafe para Cabeceiras, naquela pequena recta que fica a seguir à bifurcação que dá para o Penedo da Palha. O céu estava totalmente limpo, e por cima de Cabeceiras havia duas nuvens de rasto deixadas por dois aviões que cruzavam o espaço, um no sentido norte sul e outro no sentido inverso.
Deu perfeitamente para distinguir o vulto de uma águia, que planava, àquela hora, por baixo das nuvens de rasto deixadas pelos dois aviões. No preciso momento em que a fixei, ela fecha as asas e dispara, mesmo como um projéctil, na direcção do solo, na vertical que fica entre a Baldosa e a Freita. Eu parei de repente o carro, o que me obrigou a ouvir os reparos, que considerei justos, do condutor de um volkswagen golf, cinzento metalizado, que por um triz não me abalroou pela traseira, devido à minha brusca travagem. Mas eu queria fixar o desenvolvimento do voo picado da águia.
Estacionei então a meio daquela pequena recta, que fica a seguir à bifurcação do Penedo da Palha, no sentido de Água Redonda, liguei os quatro piscas, e fixei o olhar no sentido do sítio para onde tinha visto descer a predadora. Não demorou mais que dois ou três minutos, e começo a ver a grande ave a evoluir, bastante lentamente, com qualquer coisa pendurada das garras, num plano inclinado, na direcção da serra da Orada. Logo que se aproximou um pouco mais do meu ângulo de visão, pude verificar que o objecto que transportava era de forma esguia e pendia cerca de dois ou três metros para cada lado. Via-se, perfeitamente, que a águia evoluía com dificuldade, devido ao excessivo peso da presa.
Verifiquei que ela deve ter pousado nas proximidades do marco geodésico do pico da serra da Orada. Ainda estive tentado a ir até lá, naquele momento, e ver de perto o desenvolvimento da acção, mas pensei melhor, e decidi que seria preferível passar por lá dois ou três dias depois, a ver se haveria vestígios da presa que a águia, com tanto custo, acabara de transportar até ao alto.
Entretanto, reflectindo sobre o assunto, ocorreu-me: a águia investiu na direcção do vale entre a Baldosa e a Freita, evoluiu daí com uma presa, que parecia uma grande cobra, só pode ter sido a gibóia que por ali andava perdida. Tendo as águias ninho na serra das Torrinheiras, por que razão terá subido para o topo da serra da Orada? É evidente que o fez por razões atmosféricas. Foi devido à direcção dos ventos.
A águia subiu na direcção oeste, porque tinha o vento de feição. Ali, no topo da serra da Orada, nos penhascos situados junto ao marco geodésico, voltados para os lados de Petimão, despedaçou a gibóia, em pedaços, que lhe fosse possível deglutir. Depois, por etapas, e durante alguns dias, tê-los-á transportado no seu papo até ao ninho, nos rochedos da Pegada da Mula, regurgitando-os de seguida, nos bicos das crias, que muito provavelmente tinha no ninho. O macho também se deve ter servido do banquete.
Passada uma semana, quando me pareceu que a águia já não teria grande coisa que fazer no pico da serra da Orada, arrisquei a passar por lá, e pude verificar que, na base de um rochedo, junto ao marco geodésico, se encontrava o esqueleto da cabeça de uma grande cobra, quase desfeita, e coberta de formigas amarelas.
As águias não comem a cabeça dos répteis que caçam, pela razão evidente de que é na cabeça que os répteis possuem a glândula que segrega o veneno de que eventualmente dispõem.
Aproveito para esclarecer que a águia real, tal como o lince da serra da Malcata e o lobo ibérico, são espécies protegidas, razão pela qual não deverá ser feita qualquer perseguição a estas espécies, muito em particular ao casal de águias, que habitam nas proximidades da Pegada da Mula, na serra das Torrinheiras, e que terão prestado um serviço socialmente útil, devorando a gibóia, que atemorizava os pescadores e os banhistas do rio Peio.

Por: José Costa Oliveira

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