Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-10-2005

SECÇÃO: Crónica

OS MORTÓRIOS

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A passagem perigosa, a ponte estreita, congosta estão representados, digamos, em diversas tradições religiosas. Na mitologia iraniana a Ponte Cinvat é utilizada pelos defuntos na sua viagem post-mortem; “tem uma largura de nove comprimentos de lança para os justos, mas para os ímpios torna-se estreita como lâmina de navalha (Dikart, IX 20,3). A visão de S. Paulo mostra-nos uma ponte estreita como um cabelo que liga o nosso mundo com o Paraíso (dificuldade a vencer); (Cristo diz que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino do Céu.) O mesmo pensamento encontramos na literatura árabe – “ a ponte é mais estreita do que um cabelo, e liga a Terra às esferas astrais e ao Paraíso”. Também a tradição religiosa irlandesa refere uma ponte coberta de agulhas, de pregos, de lâminas de navalha que atravessa o inferno; os mortos utilizavam-na na viagem para o outro mundo. As lendas medievais falam também de uma ponte escondida sob a água e de uma ponte-sabre, sobre a qual o herói (Lançarote) deve passar com os pés e as mãos nuas; a passagem faz-se com sofrimento e agonia. O Evangelho de S. Mateus, VII, 14, diz: - “Estreita é a ponte e apertado o caminho que conduz à vida, e há provas que o encontram”. Esta mancha difícil pode simbolizar o caminho da vida, a peregrinação para o centro do mundo, para o centro da Terra-Mater da vida que pariu os homens. O homem é nascido da Terra, vem do fundo da Terra – das cavernas, das grutas, das fendas, dos abismos marinhos, dos frutos, das ribeiras – e para ela volta (La Terre – Mère et les hiérogamies cosmiques, - Erasmus – Jahrbuch, XII, pág. 57 e segs.).
Essa viagem pode ainda ser dificultada ou pelo comportamento do morto, em vida, ou porque a sociedade dos mortos se recusa a recebê-lo. Então a sua alma vagueará, qual fantasma, pelo mundo, fazendo parte desse exército de espíritos que atormenta os vivos. A crença em fantasmas nasceria com o homem.
A morte, porém, seria a forja de maior número de superstições, quer por respeito, quer por temor. Os mortos começaram por representar para os vivos um carácter sagrado, sendo adorados e venerados. A literatura sacra específica é clarividente. Vemos esse carácter sagrado nas civilizações do Próximo e Médio Oriente, desde os tempos do paleolítico. “Os gregos veneravam-nos com o nome de deuses manes, (Virgílio, Eneida, VI, 325 – 330).
Nós chamamos-lhes fiéis defuntos. No entanto, essa veneração não era devida a todos. Também, desde sempre, uma sociedade de entidades malévolas surgiu do reino dos mortos, quando os vivos não satisfaziam os ritos funerários e comemorativos, quando não lhes cumpriam promessas ou saldavam dívidas em atraso. Os mortos gozavam duma existência bem-aventurada; mas para que ela se realizasse, era necessário que as oferendas lhes fossem levadas regularmente pelos vivos. Contrariamente, a sua alma saía da mansão pacífica e tornava-se errante, atormentando os vivos. Se se deixava de oferecer aos mortos o banquete fúnebre, imediatamente saíam de seus túmulos; sombras errantes carpiam suas desgraças e formulavam ameaças em noites silenciosas.
Acusavam os vivos da sua negligência, procurando puni-los com doenças ou destruindo suas sementeiras. É este lado malévolo de culto dos mortos o que mais subsiste entre o povo português e duma maneira geral entre os povos de civilização mediana, vulgarmente conhecido pelo “medo das almas do outro mundo.” O povo, na sua prodigiosa imaginação, julgava ver fantasmas, os mais diversos, munidos de facalhões, ferros incandescentes… Esses aventesmas podiam tomar variadíssimas formas: - burro branco alado, serpente, dragão, cão ou porca com filhos, etc. Não causará estranheza associar esta crença a monstros que dizem, ou diziam, surgir de noite em lugares suspeitos. Empregar artes mágicas, feitiços, vozes, etc., para os lançar ao mar coalhado, para os esconjurar, para os vencer, era normalíssimo. O monstro, o fantasma, o dragão, a serpente, símbolos da Noite Cósmica, são-no também da Morte. E têm que ser vencidos, tal como os deuses venceram o Dragão Primordial nos começos dos tempos, aniquilando-o, e com ele o Caos. Com a vitória sobre o Dragão, sobre o Monstro Marinho, que estorva a passagem das almas, entram estes no reino da luz, na sociedade dos mortos, jamais pensando em atormentar quem quer que seja. A crença de esconjurar para o mar coalhado a alma penada, fantasmagórica, tem similar com a vitória sobre aquilo que tem aspecto malévolo. A vitória possui, enfim, o condão de restabelecer a ordem entre a sociedade dos vivos, perturbada por esses espíritos. É provável que a defesa dos lugares habitados e das cidades começassem por ser defesas mágicas porque tais defesas – fossas, labirintos, muralhas, etc. – eram dispostos a fim de impedir a invasão dos demónios e das almas dos mortos, mais do que o ataque dos homens; (os Caldeus e os Assírios colocavam à entrada dos palácios animais fantásticos para que os espíritos maus aí se fixassem). Na Idade Média, no Ocidente, eram consagrados ritualmente os muros das cidades como defesa entre o demónio, a doença e a morte. Persiste, no fundo, a preocupação de evitar que os mortos oprimam os vivos. Consequentemente as cerimónias rituais inerentes ao chamamento do espírito do morto, no local onde expirou, à preocupação de o orientar para o mar coalhado, à crença nos corpos abertos, às rezas e benzeduras perante um redemoinho de vento, etc., prevêem o aniquilamento dessa sombra funesta, malévola, desagregadora. Disse-se que, muitas vezes, o motivo por que essas almas voltam à terra se deve ao não cumprimento de determinadas promessas. Referimos também a crença, vagamente ainda em vigor, de que todos devem, em vida ou em morte, ir em romagem a Santiago de Compostela; (pela estrada de Santiago – Via Láctea – vai a alma do morto). Os versos populares dizem:

Santiago da Galiza
Vós sendes tão int’resseiro,
Ou em morte ou em vida
Hei-de ir ao vosso mosteiro

Santiago da Galiza
É um cavaleiro forte
Quem lá não for em vida
Há-de ir lá depois da morte

Esta crença relacionada com a Via Láctea encontra-se também em vários povos: - Os Bantus chamavam-lhe o caminho dos deuses; os Ojis, o caminho dos espíritos por onde as almas vão para o céu; tribos da América do Norte, a estrada das almas. É, porém, bem complexo o sentido e a explicação desta crença. Acompanharemos ainda Mircea Eliade in “O Sagrado e o Profano” (essência das religiões), Livro do Brasil, Lisboa, s/d. págs.38 e segs. : “A Via Láctea e o axis mundi que se vê sobre o céu, tornando-se presente na casa cultural sob a forma de um poste sagrado que liga várias partes do espaço sagrado – mundo divino (céu), terra e regiões inferiores (mundo dos mortos). Temos aqui, pois, uma imagem cosmológica que teve grande difusão: - os pilares cósmicos que sustentam o céu e ao mesmo tempo abrem a via para o mundo dos deuses. Até à sua cristianização, os Celtos e os Germanos conservavam ainda o culto dos tais pilares sagrados. Na Índia Antiga fala-se de skambha, pilar cósmico. Outras referências existem. A imagem visível deste pilar cósmico é, no Céu, a Via Láctea. (Jacob viu em sonho uma escada que tocava os céus e pela qual os anjos subiam e desciam…)”.
Ainda ligados aos símbolos celestes, em orações fúnebres, podemos referir os raios do Sol, os raios e as fases da Lua, etc. A Lua, pelos seus contrastes, seria o astro que primeiramente cativou a vista e estimulou a imaginação do homem. O céu nocturno, cujas luzes contrastam com a escuridão da terra, impressiona muito mais a imaginação do povo do que o céu diurno. A procissão dos defuntos, crença que se espalhou por todo o Norte do País era, para muitos videntes, um conjunto de sombras. E via-se, normalmente, de noite. Graças às fases da Lua – a lua com que nasce, morre e renasce – o homem tomou consciência do ser no cosmos e das suas possibilidades de sobrevivência ou de renascença. Foi possível solidarizar, mercê de simbolismo lunar, factos profundamente heterogéneos: - nascimento, morte, ressurreição, águas, plantas, fecundidade, imortalidade, trevas cósmicas, vida pré-natal, a existência além-túmulo, etc. A Lua revela ao homem religioso não só que a morte está indissoluvelmente ligada à vida, mas principalmente que a morte não é definitiva, que é sempre seguida de um novo nascimento. A Lua valoriza religiosamente o dever cósmico e reconcilia os homens com a morte.
O Sol é assimilado ao herói que, como ele, luta contra as trevas, desce ao reino da Morte e sai vitorioso. Outros símbolos celestes, várias estrelas, se relacionam, na mente popular, como culto dos mortos. As reminiscências, porém, são demasiado vagas e ténues para lhe captarmos algo de específico. No fundo, ao fim e ao cabo, não se desviarão muito do que já se afirmou.

Em conclusão – No ritual funerário minhoto encontramos reminiscências comuns a todos os povos, reminiscências essas que remontam à mais recuada antiguidade – não lhe auscultamos o início; reminiscências de costumes nascidos e desenvolvidos no meio e reminiscências provenientes da assimilação de umas e outras com o Cristianismo. Captar-lhes o significado na sua totalidade é quase impossível: - Algumas crenças, porque não lhe encontrámos a raiz, tão remotos se nos apresentam; outras porque são mistela de cruzamento de povos que por aqui viveram, e muitos foram; as lendas, as crenças, os costumes vão-se modificando ao contacto das civilizações com que se entrecruzam; outros ainda porque são pura criação popular, tantas vezes instintivas e quase paradoxais – o homem amolda as suas crenças às circunstâncias do seu viver.
O primitivo, de fecunda imaginação, ignorante quanto a leis que regulam os fenómenos físicos, tendia a considerar individualidades humanas, embora sui generis, a água, o vento, a nuvem, o astro, a planta, o animal, a sombra fugidia, o lume. Mal diferenciava o sonho da realidade, a morte do sonho ou delírio, a vida da morte. Daqui resultou povoar o universo de entidades superiores e misteriosas, da vontade dos quais julgava que ele próprio e a natureza estavam dependentes em certos casos, e os quais, por isso, precisava de invocar ou esconjurar, conforme as circunstâncias (Vide José Leite de Vasconcelos, Religiões da Lusitânea, Lisboa, 1897, I Vol, pág. 96).
Coordenar, pois, sistematicamente, todas essas superstições, sem o inextrincável misto de crenças e sentimentos, talvez os mais difíceis de todos os fenómenos sociais, é trabalho moroso, exaustivo, quase inglório pela incalculável variedade de elementos provenientes de diversos estados das concepções do espírito humano, dos sucessivos estados de civilização que se foram sobrepondo. A verdade é que o carácter de persistência étnica da superstição lhe atribui alta importância para descobrir os estados primitivos do espírito humano e, simultaneamente, para deduzir da complexa acumulação de elementos estranhos nos mitos a sua simplicidade inicial. Pelo estudo das superstições chega-se à determinação das camadas sociais justapostas pela unidade civil, mas profundamente separadas entre si por inacessíveis distâncias de capacidade mental. “Vide Teófilo Braga, O Povo Português – costumes, crenças e tradições, IIº Vol.)
As superstições, na sua persistência e no seu carácter temeroso ou maligno, são um documento psicológico de extraordinária valia.
FIM

Por: Alexandre Vaz

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