Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-10-2005

SECÇÃO: Crónica

Recordar é viver

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UM MOMENTO BEM PASSADO

Num dos dias calmos da Feira do S. Miguel, ao passar junto ao Café Cabeceirense encontrei a Maria do Sameiro Queirós Moura, conhecida carinhosamente por “Sameirinho da Praça”. Parei para cumprimentá-la e comentei:
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-” Como vai a rapariga mais bonita que andou no Colégio de S. Miguel e que ainda hoje continua na mesma?” ao que ela me respondeu, com o seu sorriso único:
-"Oh! Isso é bondade da Fernanda. Os anos vão passando e nós vamos modificando”.
A Sameirinho, para quem não sabe, é filha mais velha da D. Maria José Queirós e do saudoso Artur Moura, comerciantes da Praça da República e, também, dos Mouras da Ponte de Pé.
Não fui propriamente colega dela, pois é ligeiramente mais velha e andava uns dois a três anos à minha frente. Mas de certa maneira convivíamos até porque eu fui colega do irmão Filipe Moura, professor e também jogador do Atlético Cabeceirense, no tempo em que eu pensava que o futebol era “desporto…”.
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Mas voltando à Sameirinho, devo dizer-vos sem exagerar, e verão pelas fotos que tão gentilmente me cedeu e, não é exagero da minha parte que era e continua a ser uma mulher bonita e acima de tudo muito simpática.
Aproveitamos o encontro para recordar algumas peripécias do nosso tempo no Colégio, provocando em nós algumas saudáveis gargalhadas. Falámos das corridas que dávamos no intervalo, desde a sala de aulas para ver quem chegava primeiro às mesas do “Ping Pong” e apanhava as raquetes, como também para saltar à corda. As mais novas como eu, eram sempre descriminadas pois as “matulonas” tiravam-nos do caminho e as raquetes nem vê-las.
Todas essas correrias não tinham o agrado da senhora Professora D. Filomena que, além de ter as quatro classes da primária, também estava incumbida de zelar pelo bom comportamento das alunas durante a sua permanência nos corredores e nos intervalos.
O bom comportamento queria dizer: andar com educação, não trocar olhares com os rapazes, cuidado com a linguagem e, obrigatoriamente, trazer bata preta, gola branca e calçar meias mesmo que fosse verão.
O Colégio era muito rígido com quem infringisse essas normas. Claro que isto nem sempre era fácil. A vida era dura, pagava-se o Colégio ao mês e nem toda a gente tinha possibilidades de ter duas “mudas”de uniforme.
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Também havia aquelas que não apreciavam o desporto, preferiam formar grupinhos e falar baixinho sobre os rapazes. No meu tempo, e em tempos anteriores ao meu, os rapazes não podiam falar com as raparigas nos recreios e fora deles, somente o podiam fazer na sala de aulas com muito respeito e descrição, porque senão já se sabia que as reguadas no gabinete do director Padre Apolinário eram monumentais. Pela parte que me toca trouxe quatro reguadas de recordação do meu tempo do Colégio. Além disso, ainda tínhamos que aturar a sua pouca simpatia e o seu tom irónico.
Se me não falha a memória, a Sameirinho foi responsável, indirectamente, pelas reguadas que um rapaz levou e que segundo se ouvia falar, na altura, lhe “arrastava a asa”. Hoje esse jovem, infelizmente, já não se encontra entre nós.
Havia uma altura do ano em que os estudantes conviviam todos. Era no período do Carnaval. Aqueles que participavam em teatro ou a cantar tinham de ensaiar todos juntos no palco que havia no rés-do-chão do Colégio. Dos jovens que faziam teatro naqueles anos longínquos, lembro-me de dois em particular: foram eles, Joaquim Barreto e Manuela Carneiro. Mas esta parelha de actores amadores tinha muito jeito. Até ficaram famosos. Esses jovens já eram, nessa altura, frontais e determinados. Quando tinham razão ninguém os calava, doesse a quem doesse, inclusive algum confronto com um ou outro professor. Ainda hoje, Joaquim Barreto e Manuela Carneiro mantêm a mesma determinação e alguma rebeldia saudável, o que nem sempre agrada a toda a gente. Quem havia de dizer que o jovem Joaquim Barreto dos anos 60, hoje Presidente da Câmara mudaria a página da história cabeceirense. Quem conheceu Cabeceiras há doze, treze anos pode verificar que se transformou numa pequenina cidade!
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A Sameiro e a Natália, filha do falecido senhor Aurélio da Cachada, eram as cantoras habituais do Carnaval. Como eu cantava no Coro do Colégio, o Padre Apolinário um dia chegou junta à minha carteira, deu-me uma folha de papel com quadras de uma canção e disse textualmente e com a pouca simpatia do costume:
-”Guarda este papel e decora estas letras. Quero tudo decorado na ponta da língua para o ensaio. Este ano vais cantar tu!”.
Fiquei logo a tremer porque o senhor Director não era para brincadeiras. Eu tinha-lhe muito medo e o meu pai também não ia muito em cantigas até porque, muitas vezes, punha as cantigas à frente das aulas, o que me prejudicava! Durante dois anos passei a ser também cantora do Colégio. Recordo os títulos delas que eram: “La Maman” e “Non ho l’età per amarti” o que diga-se de passagem vinha mesmo a propósito.
E foi numa amena conversa com a Sameirinho, numa tarde agradável, que recordamos estas e outras coisas. Umas mais alegres, outras mais tristes. Mas foi tão bom recordar! Faz tão bem à alma.
Gostava de tornar a ver os colegas daquele tempo. Infelizmente alguns já não fazem parte deste mundo. Partiram quando ainda tinham o mundo todo à sua frente.
Aproveito a ocasião para pedir aos meus colegas que entrem em contacto comigo através do jornal para recordar velhos tempos e saber o que é feito deles.

Por: Fernanda Carneiro

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