Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-10-2005

SECÇÃO: A nossa gente

Augusto José Ferreira Araújo
Um campeão da columbofilia

Columbófilo convicto há mais de dez anos e já detentor de vários prémios e troféus de projecção regional e nacional, Augusto José Ferreira Araújo é, actualmente, o único praticante desta especialidade desportiva do concelho de Cabeceiras de Basto.
Campeão de Fundo em 2003, 2004 e 2005 e Campeão Geral em 2004, este nosso conterrâneo, morador em Chacim, Refojos, goza de grande prestígio no seio dos praticantes da Columbofilia espalhados pelo país, que lhe reconhecem reais capacidades e grande entrega à modalidade.
Nascido em Asnela, Riodouro, há 35 anos, é casado, tem 2 filhos, e trabalha na construção civil com um familiar tendo, entretanto, ficado desempregado devido à crise que atinge o sector.

Recebido com toda a hospitalidade na sua casa, e sempre na companhia interessada da esposa, Ecos de Basto registou a história desta figura simples, simpática e recatada, ainda mal conhecida dos cabeceirenses.
Filho de modestos caseiros agrícolas, logo que fez a 4ª Classe “saltou” para a dureza do amanho das terras e, mais tarde, optou pelas obras como servente de trolha, a única profissão que tem.
Ao mesmo tempo o vício pelos pombos não o largava. Quando pequeno habituou-se a ver pombas domésticas, que quase todas as casas das aldeias possuíam em pequenos bandos.

Um vício desde menino

Um dia resolveu ir à feira semanal de Cabeceiras de Basto comprar meia dúzia de pombos correios. Cheio de brio e entusiasmo, algum tempo depois de ter esperado pela sua reprodução, foi lançá-los em lugares das proximidades, casos do Arco de Baúlhe, Cavez e Arosa.
“Fiquei completamente rendido e encantado quando vi que os pombos, após alguns minutos de voo, chegavam ao pombal que construí ao lado da minha casa. Aquilo foi uma experiência única que pensei nunca ter possibilidades de conseguir.”

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Porém, o interesse em ir mais longe e tentar participar em provas oficiais não esmoreceu, bem pelo contrário.
“Eu queria entrar no mundo da columbofilia e não parei enquanto não me desloquei a Fafe onde sabia existir uma associação da modalidade. Preparei-me para me fazer sócio da colectividade, mas, nessa altura, conheci um membro da Associação Columbófila de Basto, com sede em Celorico de Basto, que me convenceu em inscrever-me nesta agremiação onde poderia ter mais garantias de apoio. De imediato me foi dada a oportunidade de eu participar num concurso tendo, nessa ocasião, os primeiros contactos com gente mais experiente e mais conhecedora dos segredos da modalidade.”

O registo dos pombos

Na columbofilia, é preciso que se diga, só é possível ter acesso às provas e concursos oficiais, através das associações legalmente constituídas para o efeito, já que este desporto obriga a regras e a procedimentos de especificidades muito próprias.
“Na verdade, todos os pombos para poderem participar em concursos oficiais têm de cumprir com uma série de requisitos, tais como possuírem ficha individual e anilhas numeradas, identificadoras das aves. Também só as associações é que estão autorizadas a fornecerem aos associados um aparelho, chamado “comprovador”, que se destina a controlar o tempo realizado pelos pombos em cada voo de competição. Este pequeno instrumento é inviolável e regista a hora de chegada de cada pombo, através da introdução de uma anilha que lhe é colocada na hora de partida.”
E continuando sem se deter.
“A pontuação é dada em função do tempo gasto desde a partida até à chegada aos pombais de cada concorrente, pombais esses que têm todos uma distância determinada pelas coordenadas respectivas, conhecendo-se, assim, com rigor as distâncias percorridas e o tempo feito por cada exemplar. Para poderem participar nas provas, os pombos têm que ser também registados e recenseados na Federação Portuguesa de Columbofilia, acto que é feito a partir do “borracho” ou pombo bebé.”

Uma modalidade exigente

Ser columbófilo de competição exige alguns conhecimentos técnicos e científicos que não podem ser desprezados, sob pena de não se conseguirem os objectivos pretendidos por qualquer concorrente que quer ver os seus pombos na “pole-position” das suas corridas.
“Eu costumo dizer que os pombos são autênticos atletas que nós ajudamos a cometer façanhas extraordinárias. Para além do “carinho” que merecem, temos que os trabalhar e treinar muito para poderem obter bons resultados. Tenho procurado ler livros e revistas da especialidade onde tenho aprendido variadas técnicas e métodos sobre como retirar o melhor rendimento dos pombos correios.”
Boa alimentação, higiene e prevenção sanitária de pragas e doenças são um dos princípios básicos que os columbófilos têm que observar.
“Sem dúvida. Uma boa alimentação, a higiene e os cuidados com os tratamentos da sanidade dos pombos é o principal segredo para uma boa campanha. Os pombos são alimentados com sementes diversificadas e rações adequadas, à venda nas casas especializadas. Administro também vitaminas, e ainda uma vacina para prevenir a doença de “Newcastle”. Esta vacina é administrada com agulha e seringa no pescoço, por cima da cabeça do pombo. Nesta altura do ano os pombos mudam as penas, situação que tem de ser bem acompanhada para uma boa saúde dos mesmos. As penas têm que nascer em camadas espessas e sedosas, de forma a que a água e o calor não penetrem no corpo da ave.”

O método da “viuvez”

A “viuvez” é um dos métodos mais eficazes e, talvez, o principal, que possibilita aos pombos “performances” espantosas na orientação, velocidade e tempo de voo. Trata-se de um método natural que todos os columbifilistas aprendem e aplicam para terem bons resultados.
“A “viuvez” é uma prática corrente na columbofilia usada há muitos anos. Consiste na separação das fêmeas dos machos durante o tempo em que não há provas. Nos períodos próximos dos concursos colocamos as fêmeas em gaiolas fechadas ao lado dos machos e só os juntamos algum tempo após a realização das competições. Este método tem por objectivo provocar nos machos e nas fêmeas desejos de acasalamento, de que resulta um comportamento de maior vigor, força e procura obstinada do parceiro do sexo oposto. Ou seja, a “viuvez” dá aos pombos uma dinâmica de regresso ao pombal que, de contrário, não existiria e, por isso, a velocidade de orientação são potenciadas desta forma”.
A columbofilia não é uma modalidade popular no sentido de granjear adeptos ou mobilizar assistentes para as provas que se realizam. Há, no entanto, muitos milhares de praticantes só em Portugal.
“Na verdade, esta modalidade tem muitos praticantes. Em Portugal são há volta de 90 mil quase se equiparando ao futebol. Os antigos futebolistas do Benfica José Torres e Fernando Chalana também são columbófilos. Esta modalidade encerra encantos e fascínios espectaculares. Lidar com os pombos é salutar e muito bonito. Já viu o que é a gente contabilizar as horas de voo, as velocidades, entre 90 e 100 quilómetros por hora, a visão que pode atingir uma distância no horizonte de perto de cem quilómetros destas aves!...”

O valor de um bom exemplar

A experiência, o manuseamento e o contacto permanente com os pombos permitem ao columbófilo conhecer e distinguir, com facilidade, com que exemplar está a tratar, se é macho ou fêmea e até o número ou o nome que o identificam.
“Eu distingo com grande facilidade os machos das fêmeas, assim como consigo chamar e pegar logo à primeira no exemplar que eu quiser, mesmo na confusão de um bando com 100 ou 200 pombos. A melhor maneira de distinguir os machos das fêmeas é pela forma da cabeça e do bico e pelo som do arrulho da ave. O som do arrulho do macho é mais grave do que a fêmea. São também muito dóceis e amigos, de tal modo que eu ao falar, ou ao assobiar consigo que eles venham para as minhas mãos e se deixem apanhar.”
Não sendo uma modalidade cara, isso não obsta, porém, a que haja gastos incontornáveis, mesmo obrigatórios. Por outro lado, os columbófilos não têm todos a mesma carteira e quando aparece um pombo campeão até se chegava a desembolsar muitos milhares de euros para o comprar.
“Isso é verdade! Ainda há pouco em Celorico de Basto foi vendido em leilão um pombo campeão por 750 euros (150 contos). Mas também há meses vi na Televisão que no estrangeiro um pombo com características de grande campeão e uma raça apurada valeu 140 mil euros (28 mil contos). Quanto aos nossos gastos, posso dizer-lhe que eu tenho despesas entre 60 e 70 euros por mês. As despesas maiores são com a alimentação e com a vacinação dos pombos, que é cara”.

O único praticante de Cabeceiras

A reprodução é feita pelos próprios columbófilos, que escolhem os melhores exemplares para obterem filhos ainda melhores, embora isso nem sempre aconteça.
“Na “criação” de pombos faço os cruzamentos que me parecem melhores para obter aves de boa qualidade. Nem sempre consigo tirar o melhor resultado. Um filho de um campeão sai, muitas vezes, degenerado e fraco. Mesmo assim, quando tenho um pombo bom, macho ou fêmea, prefiro guardá-lo em cativeiro e não correr o risco de o perder, com o fito de tirar dele outros exemplares de qualidade. Possuo cerca de 100 pombos só de criação ao longo do ano, obtenho reprodução de centenas e centenas de “borrachos” mas só meia dúzia é que saem de boa cepa. A sua renovação é permanente, pois que os pombos apesar de terem um tempo de vida entre os 12 e os 15 anos vão sendo vítimas, quando andam à solta, das aves de rapina, com destaque, aqui na nossa região, para o milhafre e o falcão.”

Um desporto educativo

Verdadeiramente apaixonado pela modalidade, da qual pensa nunca se desligar enquanto puder, o nosso entrevistado gostava que mais gente de Cabeceiras de Basto lhe fizesse companhia nesta verdadeira arte de lidar com os pombos correios.
“Gostava mesmo muito que mais pessoas da minha terra entrassem na columbofilia. Noutras zonas do país há escolas que dinamizam esta modalidade desportiva como forma de apoio à educação e à formação dos jovens. Também poderíamos ter aqui em Cabeceiras de Basto uma agremiação columbófila. Muitas pessoas que só sabem o caminho do café e de outros locais bem menos saudáveis poderiam assim ocupar os seus tempos livres numa actividade muito interessante como é esta. Este desporto promove a amizade e o convívio. Conhecem-se muitas pessoas e aprofundam-se colaborações e intercâmbios importantes.”
Informando que os pombos não são transmissores da “gripe das aves”, orgulhoso da actividade preferida dos seus tempos livres e grato pela curiosidade e interesse manifestados pelo jornal, o protagonista da “nossa gente” de hoje deixou ainda, em jeito de despedida, uma mensagem de contentamento por viver nesta terra, cujo desenvolvimento e progresso tem atingido níveis “altamente satisfatórios e de grande projecção futura.”

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