Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-10-2005

SECÇÃO: Crónica

foto
OS MORTÓRIOS
Breves comentários a umas tantas reminiscências

Mencionámos, em primeiro lugar, o pranto que enobrece, particularmente, três fases. Independentemente do significado mítico deste número, notemos que são três as vezes que a alma do finado terá de verter lágrimas na viagem para o além, consoante encontra as três portas que lhe vedam o caminho, (dificuldades a vencer) – a porta do instante em que morre, a porta do julgamento e a porta do lugar para onde é orientada. Os familiares fazem coro com a alma nessa deambulação pelo reino dos mortos.
É interessantíssima a crença dos obstáculos a vencer pela alma, (como pelo herói), comum a muitos povos e frequente em várias mitologias conhecidas. O sacrifício, a dificuldade, as lágrimas, o desespero acompanham a alma nessa via dolorosa. A vitória alcança-se no sofrimento, na patio. Só depois a alma será aceite pela comunidade dos mortos; de contrário errará pelo mundo. Podemos ajuntar o tradicionalismo do pranto, sem dúvida ligado à paixão da alma, (não se esqueça de que a dor dos pranteadores, nessas ocasiões, anda, muitas vezes, arredia), o costume de parar o relógio da casa pois o espírito do morto deve ser imediatamente guardado pelos seus mais íntimos até à decisão da sentença do finado. O tempo em que fica em suspenso nesse instante pois a alma não pertence já à comunidade dos vivos, nem ainda à comunidade dos mortos. É uma espécie de tempo neutro. Para certos povos, só o enterramento ritual confirma a morte: - aquele que não é enterrado segundo o costume não está morto. Além disso, a morte de uma pessoa só é reconhecida como válida depois da realização das cerimónias funerárias, enquanto a alma do defunto foi ritualmente conduzida à sua nova morada, no outro mundo, e lá em baixo foi aceite pela comunidade dos mortos.
Tudo o que possui quatro pernas – mesas, bancos, camas, etc. Voltam-se ao contrário visto que o espírito do mal pode servir-se dessas peças, já que têm pernas, para maus fins, como o de dificultar o itinerário da alma. Simultaneamente, também a deposição do cadáver num banco, numa tábua, no chão tem o seu significado mítico, conquanto escape à maioria:
- O corpo que sai da terra a ela volta. O homem fica perante o facto consignado da vitória da morte e do nada que ele é. “Tu que és terra, ponho-te na Terra”, lê-se no Athank Veda (XVIII, 4,48). “Que a carne e os ossos voltem à terra” pronuncia-se durante as cerimónias funerárias chinesas. “ Hic natus hic situs est” (C.I.L. – V, 5595) é a inscrição frequente nas lápides sepulcrais romanas.
Quando se coloca sobre o solo o cadáver, (primitivamente colocava-se ainda em estado de moribundez), é a ele que cabe dizer se a morte é válida, se é facto consumado. O rito de deposição do cadáver no solo implica a ideia de uma identidade substancial entre a Raça e o Solo. Para certos povos, só o enterramento ritual confirma a morte. Não sabemos se ainda hoje pela nossa legislação, como acontecia até há bem pouco tempo, só se podia abrir no Cartório Notarial o testamento do morto depois de ele enterrado.
Aquele que não era enterrado segundo o costume não estava morto. Estamos convictos de que esse cerimonial característico dos primeiros momentos após o último suspiro, tudo hoje desprovido de todo o seu significado primitivo, nasceu – algures no tempo – ligado ao transe difícil (para o homem arcaico) da passagem do aquém conhecido para o além ignoto.
A expressão popular de que um morto, nos primeiros momentos após o desenlace, obedece e cumpre os valores dos vivos tem a sua explicação numa outra que lhe ouvíamos frequentemente – “ é que a alma ainda não foi julgada”, isto é, a alma ainda não tinha sido aceite no reino dos mortos; ainda não se identificara com o elemento primordial que lhe dera origem. A alma aguardava o seu julgamento e a sua sentença. Os vivos, os familiares, logo após a descida do cadáver ao seio da terra-mãe, pelo menos em alguns sítios ( mencionámo-los) distribuíam, a quem participou na cerimónia fúnebre, alimentos. Casos havia em que se preparava refeição abundante. Qual o significado deste costume ancestral? Na deposição do cadáver na sepultura, servia-se ao morto um banquete, banquete fúnebre, e isto perdia-se na fundeira dos tempos, levando com ele os alimentos. Este facto relacionava-se, evidentemente com a crença na vida do além, pois, além de alimentos, colocavam-se objectos de uso comum e diário do extinto.
Com o tempo o homem passou a distribuir esses alimentos pelos acompanhantes no cemitério, primeiro, no adro ou em qualquer dependência da igreja, depois.
Os Egípcios usavam o banquete fúnebre por ocasião do enterro; outro tanto acontecia entre os gregos.
Os Romanos terminavam o funeral por um banquete – agape - na casa do defunto, para o qual se convidavam os parentes, amigos e pobres a fim de que todos orassem por ele, depois de tomada a refeição. Ao povo distribuíam carne. Esta cerimónia, com o tempo e como seria normal, degenerou em escândalo. E logo com os romanos! Lemos algures esta frase latina: “ Bibere in honorem sanctorum vel animae defunctae”.Tal banquete comemorativo, ligado ao culto dos mortos, tinha similar no que ainda recolhemos: - dar pão e vinho ao povo ( em algumas freguesias carne, arroz, etc.) e servir um jantar aos parentes e amigos. Também está ligado a esta crença o ofertório nos enterros o qual depois acabou por reverter em favor do pároco, (oblato). A distribuição da molete no Minho corresponderia ao pa de morts da Catalunha, segundo Labrós.
Ainda hoje em regiões da Itália e da Grécia se dá também pão aos pobres nos enterros. Ora isto é simbomítico. Nesta distribuição de alimentos temos de colocar em plano de relevo as carpideiras, (choradeiras, pranteadoras) a que se estipulava uma ração especial. As carpideiras (mercenárias) nos funerais era, do mesmo modo, costume antiquíssimo. Verificámo-lo ainda nos povos em estado primitivo e sabemos da sua frequência em remotas épocas, através de bibliografia. Colhemos referências do Egipto, da Mesopotâmia, da Assíria, da Índia, da Grécia, de Roma, etc. Lucílio, por exemplo escrevia: - “Mercede quae/Conductae flent alieno in funere praefice/Multo et capillos sundunt, et clamant magis.” (Lucílio, Sat. XXII,I) ou seja as carpideiras que alugadas por dinheiro choram no funeral alheio e arrancam os cabelos em grande quantidade e clamam mais. A elas se refere também Homero e o profeta Jeremias. Na Itália tiveram o nome de cantatrices: - De cabelos desgrenhados, sentadas umas, de joelhos outras, de pé outras ainda, junto do esquife, gesticulando, iniciavam o seu rosário de nénias – louvores gerais, elogios particulares… S. João Crisóstomo condena as pessoas que se entregam “ a prantos desconhecidos, a gestos furiosos, a cortar os cabelos, a ferir as faces, assistir com os braços nus aos funerais. “Do mesmo modo refere e condena as carpideiras venais que soltavam gemidos por um preço estabelecido junto dos cadáveres. Quanto à razão de ser, ao significado do pranto alto, a que o povo atribuía grande importância, (choraram muito? - perguntavam), já nos referimos anteriormente. Um outro costume que merece cuidada reflexão é o de deitar, por cima do caixão, um punhado, uma pazada ou uma sacholada de terra logo que ele se coloca na cova. Porquê? Não estará aqui a degeneração duma outra crença - a de atirar pedras à sepultura do morto ou para cima do caixão, ou no local onde foi sepultado? O costume de colocar pedras sobre as sepulturas encontra-se entre as raças selvagens, entre outros povos de civilização rudimentar e, transformado em lápide, em pedra funerária nas raças superiores. É um vestígio primitivo, vestígio que tem um sentido profundamente mítico: - esperança da ressurreição do morto, ou então guia no mundo subterrâneo, no caminhar para a bem-aventurança. Poder-se-á ligar a este costume o de atirar pedras para honrar Hermes (Mercúrio) e conseguir a sua protecção numa qualquer viagem. O deus dos viandantes, dos mercadores, era primitivamente um dia dos almas dos mortos.
(Deucalião e Pirra atiravam pedras para a retaguarda a fim de que a terra se povoasse).
Outro problema, assaz interessantíssimo, é aquele que gira à volta da luz, da chama, da labareda. Saída do convívio dos mortos, a alma percorrerá as regiões subterrâneas – regiões de passagem – rumo à luz da felicidade, da bem-aventurança. Conduzida ou não, (a concepção varia de povo e de crença), nessa dificuldade, nem por isso o povo deixou de atender a esta situação: - Quando uma pessoa morre é bom queimar-lhe as palhas do enxergão: - Pela direcção do fumo ou da labareda saberemos o destino da alma. Simultaneamente ela não voltará a este mundo. Também, enquanto não for enterrado o cadáver (em certas regiões por períodos mais longos), se não deve acender lume em casa do finado. Perdido no além, nas zonas sombrias da terra, o seu espírito pode ser ludibriado por essa chama e voltar ao convívio dos vivos. Certo é, note-se, uma hipótese discutível, mas, na sequência da crença e dos dizeres do povo, parece das mais válidas. O uso de fachos acesos em volta do esquife remonta à mais alta antiguidade. Pretende-se alumiar a alma do morto e afastar as sombras maléficas habitadas por espíritos infernais. Do mesmo modo, as luzes colocadas nos cemitérios, em certas épocas, hoje como simples sinal de homenagem, pretendiam alumiar a alma, se porventura voltasse ao túmulo. E porque esta crença foi vulgar, colocavam ainda alimentos nas sepulturas para que a alma se alimentasse; (há regiões onde ainda o fazem; simplesmente deixam esses alimentos na mesa, de noite, após a ceia. Os dias preferidos são o de Fiéis Defuntos ou o de Natal. O Concílio de Elvira (305 d.C.) proibiu pôr luzes nos cemitérios, a fim de que os mortos não fossem perturbados na paz do túmulo. O simbolismo das luzes reporta-nos, por andarem juntos, para o simbolismo das flores de certos arbustos com virtudes. Cobrir o cadáver ou o túmulo com flores é costume ao qual não captamos o termo “ a quo”. Continua, ainda hoje em muitos lugares. Perdeu o primitivo simbolismo – beleza e fragilidade da vida – mas não diminuiu em exuberância e intensidade. As flores depositadas no caixão eram, normalmente, as preferidas do finado e as de maior significado: - violetas (cor roxa), rosas, lírios e outras cor de púrpura. Hoje, além dos crisântemos e os cravos vermelhos, usa-se toda a espécie de flores arranjadas por floristas profissionais, o que não acontecia dantes. A árvore plantada sobre o túmulo muito frequente na antiguidade, representava a alma tornada imortal.
Julgava-se (e ainda hoje) que a árvore rebentava espontaneamente do corpo. O cipreste era frequente, por exemplo, entre os romanos que o plantavam, não como hoje nos adros mas nos cemitérios, um junto das casas dos patrícios que estavam de luto. Nos campos das nossas aldeias plantavam-se o alecrim, o buxo, a murta, a madressilva, a erva-doce, etc. Numa ou noutra campa encontramos ainda o azevinho, planta de muita virtude. Plívio refere na Hist. Naturalis, XXXVI, 34, que o azevinho serve para expulsar as serpentes, dissipar a histeria, fazer resolver a epilepsia… Entre nós ainda vai persistindo a crença de que evita o mau olhado, encantamento, desfaz o quebranto e todos os fantasmas tristes e melancólicos. Por isso o povo, em algumas regiões, para evitar delíquios ou sangue pelo nariz, se faz acompanhar de amuletos ou de um simples raminho de azevinho ou de murta. Os mortos levavam, às vezes, misturado com flores, raminhos de arbustos, bem como de alecrim e erva-doce; as suas virtudes milagreiras podem auxiliá-las no além. Este costume será, talvez, reminiscência de deitar dinheiro no caixão para que a alma do profano ao sagrado, do tempo à eternidade, é de ter ascendente importância pois nos define a dificuldade a vencer nesta cisão de naturezas. As imagens da ponte, da porta estreita, da congosta estreita, etc., que sugerem a ideia de passagem perigosa, abundam nos rituais e nas mitologias iniciáticas e funerárias; podem associar-se às viagens pelas regiões subterrâneas, pois também estas ligam duas vidas diferentes; também implicam uma rotura e uma transcendência.

Por: Alexandre Vaz

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.