Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 26-05-2014

SECÇÃO: Opinião

Figuras que deixam saudades

Padre Lobo felicita os grandes jogadores do Atlético, Filipe Moura  e o saudoso Mário, que subiram à 1.ª Divisão Regional
Padre Lobo felicita os grandes jogadores do Atlético, Filipe Moura e o saudoso Mário, que subiram à 1.ª Divisão Regional
Padre Eduardo Lobo Pinto de Carvalho

Caros leitores, aqui estou mais uma vez a contas com recordações que de vez em quando me “assaltam” o pensamento.
Padre Eduardo Lobo autor das adpatções das quadras satirizadas
Padre Eduardo Lobo autor das adpatções das quadras satirizadas
Há já vários anos, talvez na altura do lançamento do meu primeiro livro “Álbum de Recordações”, o senhor Padre Domingos Apolinário, nosso antigo director do Colégio de S. Miguel de Refojos, que fez o favor de estar presente naquele momento importante da minha vida, me entregou umas quadras que o saudoso Padre Lobo de Alvite (era assim que nós o chamávamos) nosso professor de português adaptou. Esses versos foram cantados com a música do autor Francisco José que foram adaptados noutra letra para serem apresentados no Carnaval do Colégio de S. Miguel de Refojos.
Quando li os versos satirizados e com muito graça, achei incrível que o nosso Padre Lobo (que à primeira vista não partia um prato) também participasse na festa de Carnaval do Colégio que, diga-se de passagem, era a única em que os alunos podiam fazer uma ou outra maroteira que passava quase despercebida do olhar de “águia” do nosso Director Padre Apolinário como por exemplo, beber um cálice de Vinho do Porto para adoçar a garganta e até fumar um cigarrito que os rapazes ofereciam às meninas…tudo isto nos bastidores do palco. Alguns professores até viam, mas faziam de conta que eram “cegos” e no carnaval ninguém leva a mal…
Devo dizer que, essa faceta poética, crítica e satírica do nosso querido professor de português, Padre Lobo, eu desconhecia! Nunca, que eu saiba, bateu nalgum aluno. Era sempre brioso da sua postura impecável, no seu vestuário de sacerdote, com fato preto e cabeção. Nunca lhe vimos o cabelo despenteado! Não consentia um bocadinho de pó dos quadros de giz mas, tinha uma postura e uma personalidade que, nos tempos de hoje, não se vê muito nos sacerdotes desta geração.
Muitas vezes os trabalhos de casa de português iam por fazer. Pedia desculpa e até mentia dizendo que estive doente e não os pude fazer. O Padre Lobo olhava um bocadinho sério para nós, vendo bem nos nossos olhos que estávamos a mentir. Esse olhar fazia com nos envergonhássemos e nos aplicássemos mais na sua disciplina.
Como atrás referi, guardei muito bem até hoje estas quadras que o senhor Padre Domingos Apolinário me deu, caso eu quisesse fazer algo com elas. Hoje esse dia chegou. Lembro que estas quadras foram adaptadas na letra e com música de alguns artistas bastante conhecidos na época, o “Magala” e o “Francisco José”. Quem conheceu estas músicas podem cantá-las como eu fiz.
Antes de passar às quadras, vou escrever uma pequena biografia do Padre Eduardo Lobo Pinto de Carvalho:
Foi ordenado Sacerdote em 1957, Pároco de Alvite em Cabeceiras de Basto, onde leccionou no Colégio local, S. Miguel de Refojos, desde 1957.
Em 1970 foi, também, Pároco de Santa Senhorinha.
Em Dezembro de 1976 foi para Golães, no concelho de Fafe. Foi até ao momento da sua morte Arcipreste de Fafe. É em Golães que o saudoso Padre Eduardo Lobo repousa no seu eterno descanso.
Nasceu em 8 de Novembro de 1932 e faleceu em 7 de Março de 2000. Já catorze anos volvidos. Era ainda muito novo, apenas tinha sessenta e oito anos. Deixou boas recordações em Cabeceiras de Basto, especialmente nas freguesias de Alvite e Santa Senhorinha.
Com a devida vénia aqui transcrevo as quadras, talvez algo desajustadas, visto que, já devem ter mais ou cinquenta anos.

“Teus olhos castanhos”
com música de Francisco José

Teus olhos castanhos
D’encantos tamanhos
São uma desgraça,
Se piscas um olho
Parece um repolho
Sorrindo a quem passa.

Teu olhar ardente
Que até fere a gente
Quando te apetece
É piramidal
É mais que um punhal
É uma gilete.

Olhos azuis remelados
São bons para fazer rir
Olhos negros enfarruscados
Fazem a gente fugir.
Olhos verdes são traição
Que até me lembram o fel
Olhos bons p’ro coração
Os teus se são sem rimel.

Teus olhos às ricas
Negros fatalistas
São de lamentar.
Pois tu nem calculas
A cara que fazes
Se calha chorar.

Tuas sobrancelhas
Todas depenadas
Com uma tenaz.
Fazem-te parecer
Não com a B.B. (Brigite Bardot)
Mas com Satanás.

“Magala”

Toca andar e mais devagar
Que vamos entrar p’ra sala;
“Teachear” entrou, a aula começou
E agora ninguém mais fala.

Os contínuos coitadinhos
Não têm nada que fazer
E sentem grande alegria
Em nos vir aborrecer.
Quando estão desocupados
Então tanto lhes faz
Como polícias de trânsito
Para a frente e para trás.

Refrão.”Toca a calar...”

Durante as aulas chamadas
A malta fica lixada
E se não se põe a pau
Toda a malta é esticada.
O pior é no Natal
Uma das quadras festivas
É o diabo com as notas
Por causa das negativas.

Refrão: “Toca a calar…”

No Natal até à Páscoa
É o tempo dos horrores
Das chamadas, estiquetes
Feitos pelos professores.
E então nos exercícios,
Isto é cá p´rós meus parceiros,
Aparecem nas correcções
Só medíocres e porreiros.

Refrão: “Toca a calar e mais devagar…”

As entradas do Colégio
São tão grandes e tão fortes
Que coitados os campónios
Até confundem as portas.
E por elas entram dentro
Com o seu chapéu na mão
Para pagar suas fintas
E também sujar o chão.

E. Lobo

Carnaval caseiro

Contaram-me noutro dia,
(e não são ditos à pressa)
Ali à entrada do burgo
Se travou esta conversa:

-Bom dia! Dá-me licença
Ó meu senhor dos bigodes,
Pode entrar-se cá na Vila?
- Mas então, porque não podes?

Olha – tornou o Basto
Donde és tu tão educado?
- Eu sou aqui do concelho
Por males do meu pecado.

E contou e disse coisas
Que eu para aqui não trago
Quando dá com espectáculo
Que esteve p’ró fazer gago.

Mas então, ó Senhor Basto,
Consente nesta ousadia?
O Basto sorriu e disse:
- Só tem esta serventia.

(É que alguém ali ao perto
Todo se desapertou).
- Mas, então como é que é isso?
O nosso homem gritou.

E o Basto, esse sorriu,
Boa pessoa, coitado,
Mas o outro lanço em punho
Cuspinhava para o lado.

Púnhamos ponto final
Naquilo que ao depois disse
Não publiquemos o mal
Saía muita tolice.

Num falar bem mais sereno
Ia o homem já na praça
Alguns lhe ouviram dizer:
- Quem quiser que lhe ache graça!

Que é mesmo forte mistério
Ele há “barracos” no seco
Na rampa do cemitério
“Barracas” a pouco preço.

“Barracadas”, gente minha,
E de boas Excelências!
E não há uma casinha
Para evitar indecências.

Palavra que tu disseste,
Desgraçado, mal supunhas
Não levou muitos instantes
Estava de calças nas unhas!

P. Eduardo Lobo, Carnaval do Colégio de S. Miguel de Refojos

fernandacarneiro52@hotmail.com

* Colaboradora
Fernanda Carneiro

















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