Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 14-04-2014

SECÇÃO: Entrevista

E depois de Abril… com João Pacheco

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Quarenta anos depois a Revolução dos Cravos continua atual. Vozes contemporâneas fazem-se ouvir, recordando os valores de Abril, seja nas páginas dos jornais, na edição de livros, na poesia, na história, no jornalismo ou nas redes sociais, lançando o seu olhar sobre um País herdado e com reflexos diretos no quotidiano dos portugueses.
Com o 25 de Abril, conquistaram-se e democratizaram-se direitos na educação, na saúde, na cultura, na habitação, na ciência, no campo social, entre outras áreas, através da implementação de políticas que ao longo de quatro décadas, muito contribuíram para melhorar a qualidade de vida e aumentar o bem-estar dos portugueses.
João Pacheco falou sobre os anseios e preocupações da sua geração
João Pacheco falou sobre os anseios e preocupações da sua geração
O 25 de Abril de 1974, continua vivo na memória de várias gerações que sofreram na pele as restrições de medidas repressoras, que condicionavam a sua liberdade e atrofiavam o país em que viviam, originando o êxodo da população que, na ânsia de melhor dias, partiam para outros países ou simplesmente fugiam de um destino traçado, nomeadamente o de muitos jovens que tinham à sua espera a guerra colonial.
Com o 25 de Abril, tudo mudou. A liberdade, a democracia, a igualdade, entre outros valores, foram instituídos em Portugal, que se transformou num país livre onde cada um assume os destinos da sua própria vida, com o acesso livre à educação e a patamares de desenvolvimento nunca antes alcançados. O 25 de Abril está por isso presente na vida de todos os Portugueses, através de princípios e valores com que se cruzam diariamente.
No entanto, quarenta anos depois, alguns dos direitos alcançados afiguram-se-nos diminuídos, condicionando a vida das pessoas e originando novos êxodos sobretudo dos jovens que com a sua partida levam todo um investimento efetuado ao longo de anos na sua formação, deixando para trás um país com dificuldades em satisfazer os seus anseios.
Por isso mesmo, convidamos João Pacheco, um jovem natural de Cabeceiras de Basto, de 19 anos, estudante de Ciência Política na Universidade do Minho e líder da JS local, a falar dos impactes de uma revolução que não viveu mas que lhe trouxe tudo o que uma vida em liberdade e em democracia lhe permite fazer, sem limites, com ambições e vontade de vencer.
Ecos de Basto - O que significa o 25 de Abril de 1974 para um jovem de 19 anos?
João Pacheco - O 25 de Abril de 1974 representa para mim exatamente o mesmo que representa para toda a minha geração e ainda que muitos jovens não tenham consciência disso, significa bastante. Desde logo, pelo facto de sermos cidadãos livres.

E.B. - Quais foram os protagonistas do 25 de Abril?
J.P - Da história que conheço, tenho como referência os militares do Movimento das Forças Armadas (MFA) como responsáveis e protagonistas da revolução que pôs fim ao Estado Novo.

E.B. - Volvidos 40 anos de uma revolução que mudou completamente um país, o teu, és herdeiro de princípios e valores alcançados, como a democracia, a liberdade, igualdade, fraternidade. O que representam para ti?
J.P - Ainda que tenham conceções e significados distintos, estes princípios e valores devem ocupar o mesmo nível e ser interpretados e analisados em sentido lato, no seu conjunto. Não se pode falar de democracia sem referir as suas bases fundamentais: liberdade, igualdade e fraternidade e, por isso, estes valores representam para mim a essência da revolução.

E.B. - Com o 25 de Abril instituiu-se em Portugal uma democracia responsável com incidência em várias áreas. Queres referir uma ou duas áreas que na tua opinião sejam verdadeiras conquistas de Abril?
J.P - Comecemos pela grande conquista que foi o Estado Social. Sem dúvida nenhuma, o grande promotor de crescimento e melhoria em áreas como a Educação e a Saúde.

E.B. - Achas que o 25 de Abril valeu a pena?
J.P - Como escreveu Fernando Pessoa no seu poema Mar Português ‘Tudo vale a pena se a alma não é pequena.’ Se havia o sonho de erguer um país livre, justo, solidário e fraterno e, para lá do sonho, se houve a oportunidade e a coragem de fazê-lo, é caso para dizer que sim valeu a pena.

E.B. - Quais são as principais consequências do 25 de Abril para um jovem cabeceirense?
J.P - As mesmas que para qualquer jovem em Portugal. Esta parece uma resposta algo óbvia e até um pouco fútil, mas a realidade é essa e ainda bem. Se atendermos ao facto de um jovem cabeceirense ser um jovem do interior e compararmos as suas oportunidades com as de um jovem que resida no litoral pode-se dizer que as oportunidades de ambos se equivalem, porque há acesso generalizado, a todos os níveis, à saúde, à educação, à cultura e a muitas outras áreas, ainda que a implementação e proliferação das políticas neoliberais levadas a cabo pelo atual governo estejam a colocar em causa todo um passado de triunfos e conquistas sociais.

E.B. - Qual a importância dos partidos na vida política?
J.P - Os partidos são imprescindíveis à vida política. Diria que são a grande referência da democracia participativa.
Quando se diz que os partidos políticos concorrem para a organização da vontade popular, significa que contribuem para a expressão dessa vontade, através de um pensamento político ideológico forte, isto é, ideologicamente sustentado. Porque sem ideologia, o debate perde sentido. Não há rumo quando falta o espetro ideológico.
Por isso, considero que os partidos são cruciais para a vida política.

E.B. - O que pensas do poder local democrático instituí-do com o 25 de Abril?
J.P - O poder local democrático - instituído com o 25 de Abril - é a dimensão política mais próxima das pessoas e, por esse motivo, deve merecer o respeito de todos. Embora isso não se tenha verificado com o atual governo que, a pretexto do memorando da Troika, propôs uma reforma administrativa que visou, pura e simplesmente, a extinção das freguesias. Aplicou-a, contra os autarcas e contra as populações, e com esta medida, para além de desrespeitar a história e identidade das freguesias, aumentou o fosso entre eleitos e eleitores e diminuiu a eficiência administrativa.

E.B. - Que futuro antevês para a democracia?
J.P - Churchill disse que: “A Democracia é o pior de todos os sistemas com exceção de todos os outros”. Concluindo, é o me-lhor regime que temos.
Falar de democracia é uma responsabilidade muito grande e antecipar o que nela pode acontecer não é fácil. O que sabemos, à partida, é que as pessoas agem de forma padronizada, isto é, os acontecimentos repetem-se ao longo dos diferentes períodos de tempo e o que se verifica é que se criaram novas formas de participação, envolvendo grupos de cidadãos eleitores, dando maior abrangência ao processo político com o intuito de trazer novos protagonistas à vida política. Contudo, a consequência nada tem a ver com o propósito inicial, ou seja, o que aconteceu na prática não foi o que se perspetivou.
O que espero é que as comemorações do quadragésimo aniversário do 25 de Abril passem sobretudo por uma reflexão sobre o que aconteceu à democracia que os homens da revolução sonharam, a democracia que o presente nos exige a todos e, a partir desta análise se procure conceber um regime democrático cada vez mais forte para o futuro. Porque o que antevejo para a democracia no futuro é uma série de desafios, estímulos e incitações que serão colocados a cada cidadão.
E.B. - És líder da juventude socialista em Cabeceiras de Basto. Quais os principais anseios e preocupações desta geração?
J.P - Para os jovens o futuro é um paradoxo, porque é aquilo que nós desejamos, é o nosso amanhã inevitável e, ao mesmo tempo, a angústia e incerteza absolutas.
Os homens que fizeram a revolução de Abril sonharam um país diferente. Idealizaram um Portugal melhor. Contudo esse é o país onde, naturalmente, hoje os jovens também projetam os seus sonhos e as suas ambições, sejam particulares ou coletivos. Depois de tudo isto, o único caminho que o governo tem a apontar aos jovens é o da porta da saída, da emigração.
Esta é uma geração marcada pelo ceticismo e pelo descrédito, em parte porque a governação dos dias que correm não cumpre Abril. Por esta e outras razões os jovens deixaram de acreditar na política e estão de tal forma desmotivados para agir que se esquecem que também nós, jovens, todos e cada um, temos de assumir o papel de atores da mudança. Para isso é preciso começar em algum lado, seja na política, no mundo associativo, onde quer que seja. Temos é que ser todos mais intervenientes e mais participativos.

E.B. - Sendo tu um interveniente ativo no movimento associativo, que passas parte do teu tempo neste concelho, achas que Cabeceiras de Basto tem respostas socioculturais, educativas, desportivas, formativas e de ocupação salutar dos tempos livres, suficientes?
J.P - Cabeceiras tem crescido exponencialmente nos últimos anos. Se hoje existem inúmeras associações, se existem diversos eventos e iniciativas dirigidas a todos é porque por trás de toda esta realidade se investiu em áreas como a cultura, a educação, o desporto, a formação e muitas outras, quer ao nível das infraestruturas, quer na dinamização desses equipamentos, os quais em grande parte têm a sua gestão e atividade entregues às associações. Se hoje há uma faixa etária que beneficia, a todos os níveis, de grande parte dos investimentos feitos é a juventude, mesmo no que respeita à ação social. O município tem vindo a atribuir diversas bolsas de estudo. Temos em Cabeceiras a Casa da Juventude, gimnodesportivos e polidesportivos, piscinas municipais em todas as vilas do concelho, temos, nós jovens cabeceirenses, uma Comissão Municipal de Proteção de Crianças e Jovens ativa, temos um cartão jovem municipal que nos possibilita obter uma lista infinita de vantagens, temos equipamentos escolares modernos, do ensino regular e profissional, e portanto, capazes de responder com êxito e eficácia às necessidades dos que cá estudam. Estes são apenas alguns exemplos de que o nosso concelho tem respostas suficientes e diversificadas, capazes de satisfazer as pretensões dos cabeceirenses e, em particular, dos jovens, pois os investimentos que foram e têm sido feitos são investimentos de futuro.

E.B. - Sei que frequentaste, no ano letivo 2012-2013, a Escola de Ciências Agrárias e Veterinárias da UTAD, o que te levou a mudar para a UM e frequentar Ciência Política?
J.P - Não é de agora a minha participação na política e, particularmente, no Partido Socialista e na JS. Quando ingressei na UTAD, já estava na Juventude Socialista e em Março de 2013 tomei posse como coordenador da concelhia de Cabeceiras. Desde então, a minha intervenção cívica e política tem sido permanente, claro está, dentro da dimensão do que é ser um líder concelhio e com isto já venci e perdi vários confrontos políticos e tenho aprendido bastante neste meu percurso, mais ou menos recente, mantendo sempre e acima de tudo uma boa convivência democrática.
Mudei para Ciência Política, depois de me informar sobre o que é verdadeiramente o curso, ingressei nele e estou bastante satisfeito com os conteúdos e os resultados que tenho obtido. Não me imagino a fazer outra coisa que não a intervenção política, a análise e interpretação dos fenómenos políticos. Não vim para a política para permanecer nela a prazo e estou cá para continuar e para aproveitar todas as oportunidades que me forem proporcionadas, a bem de todos, porque vejo a política como um meio para servir e acredito também que os políticos e os projetos que protagonizam devem ter uma existência e intervenção no médio/longo prazo. As pessoas estão fartas de políticos de ocasião, pois são esses que descredibilizam a política. Não quero com isto dizer que o poder deve ser só para alguns, mas defendo acima de tudo que a política precisa cada vez mais de gente mais séria e de projetos mais ambiciosos e viáveis.






















































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