Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 20-01-2014

SECÇÃO: Recordar é viver

Jaime de Sousa e Silva
Setenta anos de matrimónio feliz

Caros leitores, hoje vou dedicar algum tempo a escrever sobre alguém que, não conhecendo pessoal-mente, a imagino através dos seus textos com os seus poemas, que tem enviado para mim ou para o Jornal Ecos de Basto, do qual ele é assinante. Para ser mais correcta, este senhor já nos escrevia quando tínhamos o jornal Basto, mais ou menos desde 1980. É verdade! Já nesse tempo aprendi, ao ler as suas cartas, que este cabeceirense desta freguesia de Refojos, Jaime de Sousa e Silva, adorava a sua terra que deixou para trás há muitos e muitos anos. Percebe-se pelas palavras nostálgicas e terrivelmente sentidas, que tem umas saudades imensas de todos os sítios por onde andou em criança e jovem, dos amigos com quem conviveu, com a banda de música e os colegas que dela faziam parte. Descreve nas suas cartas tudo ao pormenor que nos faz sentir quase o cheiro das coisas e dos lugares. Sinto-as como ele, por exemplo, quando penso nos anos que vivi em Valinha, concelho de Monção, nos primeiros aninhos de criança e onde nasceram ainda mais cinco irmãos. Quando essas lembranças vêem à minha memória, apetece ir ao encontro daqueles que quero rever e que, graças a Deus, ainda estão vivos. Fizeram e ainda fazem parte da minha vida. Acho que tenho isso em comum com o Jaime de Sousa e Silva.
Apesar da grande diferença de idade entre nós, percebo e compreendo tudo aquilo que ele diz e sente. As saudades são mais que muitas.
Gosto de o ouvir falar na sua família e, sobretudo, na sua querida esposa que sempre adorou ao longo das suas vidas em comum. A felicidade é tangível mesmo sendo escritas num papel.

Foto tirada aos 40 anos de matrimónio  de Jaime Silva e Ana Teixeira
Foto tirada aos 40 anos de matrimónio de Jaime Silva e Ana Teixeira
Seria para mim um prazer conhecer esta pessoa! Certamente aprenderia muito com ele. Vê-se que a vida lhe acrescentou muita sabedoria. No que consta quando fala de Cabeceiras de Basto, ele refere sempre “nós, a nossa terra, o nosso presidente, o nosso amigo, o nosso jornal, o nosso Mosteiro de Refojos, a nossa Banda Cabeceirense, etc. “ Por todos esses motivos comecei a ganhar afeição a esta “personagem” que é o Jaime de Sousa e Silva.
Hoje decidi dedicar-lhe esta minha crónica, até para dar-lhe os parabéns pelo aniversário de casamento, que foi no dia 26 de Janeiro do corrente ano, onde festejou setenta anos e, graças a Deus, continua ao lado da sua querida Ana de Jesus Teixeira. Uma coisa rara cada vez mais.
- Senhor Jaime de Sousa e Silva, como sempre gostei imenso da sua carta e pode tratar-me só pelo meu nome. Sou uma pessoa simples, filha de gente honrada e trabalhadora. O meu avô, não sei se se lembra dele, era o “Zé Colatré” caseiro do farmacêutico Dr Moutinho da Boavista, muito conhecido no nosso concelho. Os meus avós tinham um rancho de filhos e filhas e eu sou filha de um deles. O meu pai, Manuel de Campos, não era dos mais velhos nem dos mais novos. Conheço muito bem as minhas raízes e orgulho-me delas. Obrigada pelas palavras lindas que recebo de si. Faz-me muito bem ouvi-las por alguém que aprecia o nosso trabalho. Um abraço desta cabeceirense.
Vou transcrever umas notas que ele gentilmente me enviou e que eu tenho muito prazer em colocá-las nesta página do jornal.

***

Com a devida vénia

Cacém, 04/02/2014
Exma Senhora D. Maria Fernanda Carneiro
Venho por este meio de comunicação, agradecer a carta que lhe enderecei, dizendo-vos que tinha um certo acanhamento em lha enviar, porque já a tinha escrito há algum tempo.
Só a enviei quando Deus me inspirou a fazê-lo. Teve V. Senhoria a nobreza de a transcrever para o nosso Jornal Ecos de Basto e, ainda, antes da minha carta, as belas palavras que me dedicou, sobre os poemas que de quando em vez escrevo para o nosso jornal. Muito e muito obrigado minha senhora, por tudo quanto me tem ajudado a ser um vosso colaborador.
À exma Senhora D. Fernanda Carneiro, tenho mais um pedido especial a fazer-vos. Creio que não vades negar o que vos vou pedir. Tenho quase a certeza que até vai gostar de escrever no Ecos, este evento que se passa comigo mesmo.
No dia 26 de Janeiro fiz eu e a minha mulher setenta anos de casados. Creio que é uma data que poucos assinalam nesta vida. Por isso, Exma senhora D. Fernanda, vos peço por favor, envio - lhe os dados e a senhora faria o favor de compor este evento no nosso Ecos de Basto, como V. senhoria tão bem sabe executar. Era o seguinte:
- Eu, Jaime de Sousa e Silva, nascido no lugar da Ponte de Pé da Freguesia de Refojos do Concelho de Cabeceiras de Basto, filho de Maria Augusta de Sousa e Silva e de… Jaime G. Bastos. Casei com Ana de Jesus Teixeira, filha de António Teixeira e de Elvira de Jesus Andrade, mais conhecida por Elvira “Marra”. Nasceu no lugar da Cancela, Freguesia de Refojos do mesmo Concelho. O enlace, deu-se no dia 26 de Janeiro de 1944, no Mosteiro de S. Miguel de Refojos. Foi oficiante o Senhor Padre Arnaldo de Paredes, em virtude de o Pároco local que era o senhor Padre Arcipreste António Mota Vieira, Grande Pregador, se ter deslocado para fora do nosso concelho, para dirigir um “Triúdo”. Eram dez horas em ponto, quando os sinos da torre do Mosteiro, repenicaram com grande maestria, pelo meu saudoso tio Jeremias, Sacristão nessa altura. Era natural de Abadim. Era tio do meu pai. Conheci toda a família paterna, só não conheci o meu pai que faleceu no Brasil, casado com outra mulher, que não lhe deu qualquer filho: eu fui o único que ele teve neste mundo. Chegamo-nos a escrever e mais nada. Toda a família paterna me adorava.
São ossos do ofício que cada um tem que “roer”, na passagem desta vida. Diz Jesus: o nosso único Salvador”
“Não chames de Pai a ninguém, porque Pai só tens um, o teu Pai Celestial que está nos Altos Céus, nem chames de Mestre a ninguém porque Mestre só tens apenas um, que sou Eu.”
Estou plenamente satisfeito! Só tive um Pai e um Mestre, não se pode ser mais feliz nesta vida, quando assim acontece. Quando preciso do meu Pai, chamo-o e Ele, aí está. Falo com Ele e tudo Ele me concede: peço ao meu Mestre e, Ele aí está também a ensinar-me; sou feliz!
Dona Fernanda Senhoria Minha! Aqui estou com o meu Pai, o meu Mestre a pedir-vos que me façais aquilo que vos peço e de certeza que não mo ireis negar, pois também vós sois uma filha daqueles a quem amo. Envio-vos a nossa fotografia tirada pelos quarenta anos de termos casado. Se tivesse conhecido D. Fernanda, minha esposa com vinte anos, veria minha senhora o que era uma mulher bonita.
Não casamos por uma paixão, não! Foi por amor que para sempre perdurará!
Sou vosso eterno amigo, que vos deseja muita saúde, paz, amor e a graça de Deus.
Jaime de Sousa e Silva

(fernandacarneiro52@hotmail.com)

* Colaboradora

Por: Fernanda Carneiro

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