Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 20-01-2014

SECÇÃO: Recordar é viver

As nossas gravuras

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Mosteiro de S. Miguel de Refoios – Notas soltas

Caros leitores, já foi no final do ano passado que vos escrevi a última crónica. Hoje, mês de Janeiro do ano de 2014, estou a escrever a primeira do primeiro Ecos de Basto do mesmo ano. De entre os muitos assuntos actuais, que poderia escrever para este número, resolvi antes procurar no arquivo histórico do meu marido e ver se encontrava algo que me desse vontade de publicar. Encontrei entre outros papeis, umas folhas amarelecidas pelo tempo com data de Janeiro de 1881, extraídas do ´Occidente´, Revista Ilustrada de Portugal e do Estrangeiro cuja administração, redacção e atelier ficava na Rua Loreto em Lisboa.
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Já tinha visto por alto estes papeis soltos que tinham chamado a minha atenção. Referem-se à origem do Mosteiro de Refojos. Foram encontrados pelo meu marido, através da Internet. Apesar de tanto se falar e escrever sobre o Mosteiro e o convento, vou também, correndo o risco de repetição, transcrever para a minha crónica, estes dados que achei muito interessan-tes. Certamente que, estes assuntos da nossa história sobre o património local terá interesse mais para uns do que para outros, mas acre-ditem que, se nos interessar-mos um pouquinho veremos que nos podemos sentir orgulhosos da nossa terra e, nomeadamente do seu património edificado.
Como atrás vos referi, vou transcrever este texto tal qual está no papel, publicado na data de 21 de Janeiro de 1881, século dezanove. Claro que da publicação deste texto até ao momento actual, princípios do século XXI, o Mosteiro e a sua envolvência sofreram uma transformação. Hoje não tem nada a ver. Aliás, a transformação fez-se em todo o concelho, mas realmente a diferença do centro da vila de então até hoje é impressionante! E, falo só da que os meus olhos vêem desde que me conheço por gente. Tudo isto para dizer o quê?
Neste artigo, como vocês vão reparar até pela foto (já muito conhecida) a zona da nossa Praça da República é muito diferente dos tempos de hoje. Pode-se verificar que naquela época se fazia lá a feira semanal. Os animais como cavalos, burros e juntas de gado para transporte dos artigos para venda, pastavam por lá enquanto os feirantes e os lavradores locais faziam os seus negócios. Era ao domingo que se realizava a feira. Existiam grades a toda a volta do adro da Igreja do Mosteiro de Refojos e, falam as pessoas entendidas que o adro tinha dois ou três lanços de escada.
Espero que gostem ou pelo menos vos faça sentir curiosidade em saber mais sobre o Mosteiro, Ex - libris nosso concelho, nossa Terra e as nossas origens. Confesso que sou muito curiosa em relação a tudo que nos diz respeito, à nossa história local, à nossa Praça da República e arredores que foram palco de guerrilhas, nos anos 1910 e 1912 entre os rebeldes monárquicos e os soldados republicanos mas, disso eu não vou falar agora. Vou então passar o texto publicado no Jornal ´Occidente‘, em 21 de Janei-ro de 1881.
Com a devida vénia

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No concelho de Cabecei-ras de Basto, a 10 kilometros ao N.E. de Braga a 25 a 30 a leste de Guimarães, fica situado o antigo mosteiro de beneditinos daquela invoca-ção e que a nossa estampa representa.
Está assente o mosteiro em sítio baixo e de pouca vida mas saudável, tranquilo, cercado de pomposa vegetação. Seus contornos são abundantes de caça de monte, pescado de rio, muitas e boas frutas, avultando entre os arvoredos os castanheiros seculares.
Três incêndios, destruíram a maior parte do seu cartório, deixaram em incerteza a noticia dos seus primeiros dias. Uns atribuem a sua produção a D. Gomes Mendes Barroso e D. Cha-moa, irmã de Gonçalo Mendes de Sousa, em tem-pos de D. Afonso Henriques, outros a S. Frutuoso, outros a Hermigio Fafes, rico – ho-mem em tempo de Reces-winto, outros a Gomes Soei-ro.
Se é certo, como diz Frei Leão de S. Thomaz, que ali se encontraram duas campas, uma da era de 708 (ano de Cristo de 670) e outra do prior Plagio ou Paio Soeiro da era de 739 (A.Cristo 701), a sua fundação deve ser anterior, e então resistiria o mosteiro à invasão Muçulmana, cujos efeitos desastrosos evitaria, mediante tributo que ficaria pagando, como sucedeu a outros.
João Pedro Ribeiro menciona um carta de Couto dada por Afonso I da era de 1163 ( A de Cristo 1125), no que há engano, porque só três anos depois começou aquele príncipe a governar. À parte o erro da data, leva-nos esta carta a crer, por mais plausível que seria por aquele tempo a fundação do mosteiro ou quando menos aquele alargamento.
Até 1428 foi governada esta casa por abades perpétuos, sendo o primeiro de que há notícia D. Bento Mendes, contemporâneo daquele príncipe e o ultimo D. Afonso Ane, que morreu naquele ano. Seguiram-se depois os Abades comendatários, dos quais foi o primeiro D. Gonçalo Borges e último d. Duarte filho bastardo de D. João III.
Por morte deste, nomeou o monarca, administrador do mosteiro a Frei Diogo de Murça, Frade Jerónimo e reitor das Universidade, que havia sido perceptor e director do real bastardo.
D. Diogo obteve do papa a supressão do mosteiro e aplicação das suas rendas aos colégios de S. Bento e S. Jerónimo, que pretendia fundar na Universidade de Coimbra.
Como os Frades resistiram à intimidação que lhes foi feita para este fim e continuaram a celebrar os ofícios divinos, o mesmo Frei Diogo impetrou novos breves, pelos quais se aplicaram certas rendas àqueles institutos, ficando outras para doze frades que permaneceriam no convento, que o mesmo Frei Diogo veio governar depois de mudar de habito por autoridade apostólica.
Frei Diogo faleceu e suce-deu-lhe seu sobrinho D. Jo-ão Pinto.
Em 1570 passaram os abades a trienais, dos quais foi o primeiro Frei Thomaz do Touro cujas funções cessa-ram em 1573 e faleceu pou-co depois no mar, quando ia para o Brasil exercer lugar de provincial.
Tinha o convento muitas quintas, e propriedades avultando os bens que lhe provieram da meação de Vasco Gonçalves Barroso, primeiro marido de D. Leonor de Alvim, esposa do famoso condestável D. Nuno Alves Pereira, progenitor da casa de Bragança.
O que existe hoje do convento é relativamente moderno como a simples vista demonstra. Ainda exis-tem os claustros cons-truídos pelo Frei Diogo de Murça, mas a fábrica geral foi acabada em 1690. a igreja é vasta, adornada de duas torres e de um zimbório, de que na gravura apenas se vê o nascimento, de 33 metros de altura, tendo na base da cúpula, cercada de uma varanda, as estátuas dos doze apóstolos, e no alto dele outra de S. Miguel, de 2,61 de alto, também cercada de varanda.
O interior do edifício é todo sumptuoso, segundo o gosto da época, exteriormente conduz a ele uma bela alameda, a que dão comunicação três ruas, e que é atravessada a todo o comprimento pelo pequeno rio Basto.
Ao lado da ponte existe, grosseiramente esculpido um soldado tendo no ventre a seguinte inscrição – ponte de S. Miguel de Refoios. Ano 1690.
Das antigas terras do mosteiro e de outras daquele concelho provem, além de outras produções, o excelente vinho conhecido no país com o nome de – Basto – e que rivaliza com o de Amarante.
Para mais notícias veja-se Frei Leão de S. Thomaz, beneditina lusitana, J. Pedro Ribeiro, Observações de Diplomático e Sr. Pinho Leal, Portugal antigo e moderno, vol. VIII.

fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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