Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 16-09-2013

SECÇÃO: Opinião

Uma velhinha de Cabeceiras declama um conto

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Em 1882 José Leite de Vasconcelos (1858-1941), o maior etnólogo português de sempre, encontrava-se nas Terras de Basto. Andava pelo país colhendo tradições populares, notas sobre arqueologia e filologia, numismática e outras ciências afins. Nesse ano colheu da boca de uma mulher do povo do nosso concelho de Cabeceiras de Basto, este conto sobre as

“Aventuras de Pedro Malasarte”

“Era uma vez o Pedro Malasarte e foi ter a uma serra aonde havia uma casa de ladrões, e depois ele pediu socorro que era um triste barbeiro que andava a fazer barbas, e depois eles fugiro todos dele, e só ficou um resolvido a gardar o jantar, e depois o Pedro Malasarte dixe assim: “Ó meu Sr.: trá-la barba tão grande…eu faço-la.” O ladrom afastou-se e ele fez-la barba, e depois dixe-le que le botasse a língua de fora, e cortou-la e comeu o jantar; depois o ladrom começou a fugir pelo monte a baixo e dezia: explorai por mim! porque não podia deser esperai! E os outros cada vez fugio mais. Depois eles foro fazer o jantar para outra serra. O Pedro Malasarte subiu para cima de um pinheiro na serra, e levou para lá uma cancela velha, e eles stavo por baixo a fazer o jantar; assim que estava o jantar feito, eles descobriro nas (as) janelas e ele mijou por cima delas, e depois dizem eles: “Este molhinho vem do céu, há de ser gostoso”; O Pedro Malasarte fez então a sua vida sobre as panelas, e eles dixero que a marmelada que era boa; depois ele botou-la a cancela velha pola cabeça a baixo; e eles dixero ansim: “Ora sempre isto agora foi demais; se vem aí o céu velho, logo vem no novo; vamos a fugir”; depois olharo pra cima do pinheiro e dixero: “Ai que ele é o Pedro Malasarte; vamos fugir!” Depois dizem eles: “De que modo nos havemos de vingar?” Foro para a beira de um rio e fizero um homem de visto. Daí a poucos dias, ele passou por lá: “Ora para que estará este homem aqui? Deixa-me dar-lhe um ponta-pé”; e ficou lá co’o pé; deu-lhe oitro ponta-pé, e ficou co’oitro pé; deu-lhe co’os braços, ficou lá também; infim ficou lá todo. Depois esteve lá três dias; stava quase morto, passou lá o ladrão que fez o homem de visgo e atirou ao rio o home de visgo e o Pedro. Adeus, ó Vitória, Acabou-se a história!”

Por: Francisco Vitor Magalhães

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