Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 16-09-2013

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (178)

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Este mundo não é para novos

Nos dias que correm, muito raramente se é surpreendido pela notícia da morte de um velho. E sabem porquê? É que agora há muito pouco quem chegue àquela idade em que se possa dizer, sem qualquer rodeio, a frase: “morreu aquele velho”.
Não quero com isto dizer que as pessoas agora morram mais novas do que antigamente. É exactamente o contrário. No decurso de todo o século dezanove e mesmo nas primeiras décadas do século vinte, as pessoas muito raramente passavam da idade dos sessenta anos. Já no meu tempo, início da segunda metade do século vinte, quando se via um indivíduo, homem ou mulher, com mais de sessenta anos se dizia, é um velhote ou uma velhota.
Nos dias de hoje, velhos são aqueles que têm a idade de Manuel de Oliveira, de Nelson Mandela, da minha própria mãe, a Senhora Margarida da Conceição Abreu da Costa. Todos eles com mais de noventa anos, alguns mesmo muito mais. Mas são muito poucos! Toda a gente está a morrer bastante nova!
Eu moro numa rua bastante pequena, tem o nome de um grande médico e escritor, Fernando Namora, mas tem quase tanto de extensão como de antigui-dade. É muito curta e muito recente. Os habitantes somos dezasseis, nove do lado par e sete do lado ímpar, o meu lado é o ímpar, o número 53.
Isto da minha rua vem a propósito de eu me ter visto na obrigação de, pela primeira vez, ir ao funeral de um vizinho meu. Eu sou um dos primeiros moradores desta rua, moro aqui há exactamente vinte anos. Esse meu vizinho, que faleceu, veio para aqui morar um pouco mais recente-mente, talvez há dez anos, um pouco mais ou menos.
Tinha-me cruzado ape-nas uma meia dúzia de vezes com esse meu vizinho, cumprimentando-o na circunstância, mas nunca tivera uma única conversa com ele, nem do tempo falámos. Não sabia o seu nome nem sabia a sua idade. Sempre deduzi que deveria ter alguns anos mais do que eu.
Na altura do velório, não precisei de perguntar nada disso a ninguém, em cima da urna tinha um quadro com a fotografia do falecido, essa quase actual, e por baixo o nome, “José Martins de Oliveira”, e as datas do nascimento e do faleci-mento, respectivamente, “03 de Fevereiro de 1930” e “18 de Agosto de 2013”.
A minha primeira excla-mação para o parceiro do lado, muito baixinho, foi: “oitenta e três anos, não era velho…”
“Não, na verdade, ainda não era velho”, foi, de pronto, a resposta.
No decurso da missa de corpo presente e nos elogios fúnebres, ficou a saber-se que o falecido fora um dos ministros da igreja, uma daquelas pessoas que ajudam os padres nas actividades do culto, como sejam distribuir a sagrada comunhão nas igrejas, levá-la a casa dos praticantes que se encontrem doentes e outras. E, sempre que se lhe dirigiu, o tratou por “José Oliveira, o nosso irmão José Oliveira”. A minha mulher tocava-me no braço e sussurrava, “faz figas”. Era o meu nome!
Há agora como que um código, e eu estou de pleno acordo com ele, em que se considera velho apenas quem já tenha ultrapassado a barreira dos noventa. Como dizia, certa vez em que fora questionada sobre as maleitas do marido, Graça Mandela, terceira e actual mulher do carismático leader sul africano, “ele está é velho”, queria ela dizer que, quanto a doenças, serve qualquer uma, quando se atinge uma determinada idade.
No dia anterior àquele em que falecera o meu vizinho que acima acabo de citar, tinha ocorrido um gravíssimo acidente de viação, nas proximidades de Ourique, no Alentejo, do qual resultaram sete mortos, cinco dos quais, dois rapazes e três rapari-gas, todos com idades próxi-mas dos vinte anos. Todos estudantes universitários, e parece que nenhum tinha ingerido bebidas alcoólicas à hora do almoço. O acidente ocorreu depois do meio dia, depois de alguém os ter visto a almoçar e ter reparado que não terão ingerido bebidas alcoólicas, o que leva a supor que não regressariam de qualquer estabelecimento de diversão nocturna.
(Este mundo não é para novos!)
Hoje mesmo, no dia em que escrevo estas linhas, e no telejornal das treze, ouvi a notícia de que mais de quinhentos engenheiros ti-nham emigrado nos últimos dias. Enfermeiros são às centenas, para a Alemanha, para o Reino Unido, para a Irlanda, para todos os lados.
Mas, quanto à perse-guição de tudo o que é mais novo, refiro-me sempre às pessoas. Até a Constituição da República os persegue, sobretudo pela mão de quantos se dedicam a defender o princípio dos direitos adquiridos.
Segundo a teoria dos direitos adquiridos, um indivíduo que se reformou antes de uma dada data tem direito a manter a sua reforma intacta, em contra-posição com outro que se reforme a partir dessa data que verá a sua reforma irremediavelmente reduzida. Isto em termos gerais, poderia ir ao pormenor de desenvolver aqui cálculos comparativos, mas esse não é o meu objectivo.
O meu objectivo é rebelar-me (de rebelião) contra políticos, sindicalistas, juris-tas e outros, que tudo fazem em defesa dos direitos adquiridos e esquecem o direito da equidade, já não me refiro à igualdade, pois que esse é um direito muito mais amplo e de difícil tratamento jurídico, mas a equidade, aquela equidade de que falam os juízes do Tribunal Constitucional, onde é que mora essa equidade?
Há reformados que se reformaram há quinze anos com cinquenta anos de idade e com a reforma por inteiro, isto é, a reforma igual ao salário que auferiam ao tempo. Hoje, esses reformados têm sessenta e cinco anos, é a idade com que, um colega seu se reforma por limite de idade, e vai para casa com um valor pouco superior a metade daquele que actualmente recebe o outro, que se reformou porque tinha um determinado número de anos de serviço (leis especiais), há dez ou quinze anos atrás.
Onde mora e equidade?
(Este mundo não é para novos!)
(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

* Colaborador

Por: José Costa Oliveira

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