Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 26-08-2013

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (177)

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LEIRADAS

Leiradas é um dos muitos lugares da freguesia de Riodouro, concelho de Cabeceiras de Basto, distrito de Braga, província do Minho. Apesar da sua altitude rondar os seiscentos metros, é um daqueles lugares típicos das partes mais elevadas das serras da Cabreira, do Barroso e do Alvão.
A partir da segunda metade do século XX, os aglomerados urbanos desta categoria de lugares sofreu grandes transformações no sentido da dispersão.
Porém, desde o início, desde a data em que terão sido criados, que não deverá andar muito longe dos tempos da fundação da nacionalidade, até àquela linha de divisão temporal, meados do século XX, sempre terão mantido a sua forma original.
Um caminho, em alguns casos um cruzamento de dois caminhos, e um nú-cleo de casas, todas muito juntas, ou mesmo pega-das, de construção muito simples, de um único piso, e ladeando os caminhos, partindo de um núcleo central no sentido das periferias.
As paredes das construções eram todas em granito, bastante toscas, e as coberturas de colmo. A partir de meados do século XX, as coberturas de colmo passaram a ser substituídas por telha, em alguns casos telha vã, noutros, na sua maioria, telha francesa. As paredes de granito, inicialmente toscas, passaram a ser aparelhadas com algum tipo de reboco.
No lugar de Leiradas, nota-se que houve um surto de novas edificações em período que antecedeu, em cerca de um século, aquela tendência.
Muito embora se mantivesse a planta original em termos de topografia, com três caminhos a convergir para o centro, formando um entroncamento; era o caminho principal que ligava Chacim a Cavez, seguindo uma trajectória, embora um pouco irregular, no sentido poente nascente, e o outro que vinha do alto de Asnela, também com uma trajectória de certo modo irregular, mas um pouco no sentido norte sul. O casario, a partir das primeiras décadas do século XIX, apresenta uma configuração bastante dife-rente daquela que se antevê como primitiva.
O centro do lugar é, todo ele, um perfeito lajedo. Não será mesmo nada despropositado admitir que nenhuma das actuais construções daquele centro urbano terá qualquer tipo de alicerce escavado no terreno.
Se repararmos na pequena casa onde nasceu o Barão de Basto, que fica pegada à casa grande que lhe cresceu ao lado, e ostenta, na padieira do pequeno portão que ainda lhe dá serventia, a data de 1749, vemos que uma parcela da sua parede do lado norte é formada pelo rochedo fixo do solo.
Mas, voltando a meados do século XIX, verifica-se que o casario daquele lugar sofreu uma grande transformação por essa altura. Subindo o caminho no sentido do entroncamento de Boadela para o centro, temos: a casa do Cândido (1873); depois a casa da Eira (1839); e a casa de Cima (1866). Estas são aquelas que ostentam datas. Temos um espigueiro, antes da casa da Eira e do lado oposto do caminho, que tem a data de 1859. No extremo sul poente, do lado direito do caminho vicinal que por ali segue para uns olivais, há outro espigueiro, pequeno, só com dois lanços, esse tem a data em numeração romana (MDCCCXI) (1811).
Já se viu que a casa pequena dos familiares do Barão tem a data de 1749, e que todas as construções, que se centram nas datas mais recentes (1811-1873), casas do Cândido, da Eira, do Souto, de Além, de Baixo, de Cima, do Carvalho e Casa Nova, todas elas são de perpianho bem trabalhado.
No início do século XIX terá havido um grande surto de emigração para o Brasil. Foi o período em que a monarquia portuguesa decidiu transferir-se para aquela colónia, evitando as convulsões motivadas pela guerra peninsular, numa primeira fase, e depois pelas lutas liberais.
A família real deixou Lisboa com destino ao Brasil no dia 27 de Novembro de 1807, exacta-mente três dias antes das tropas francesas, comandadas por Junot, darem entrada em Lisboa.
Sabe-se que, do lugar de Leiradas e por aquele tempo, rumaram ao Brasil, dois irmãos. Foram eles: o Alexandre José Fernandes Basto e o João António Fernandes Basto. Não se sabe, ao certo, com que idade terão embarcado. Também não se sabe o tempo que por lá terão permanecido. Mas sabe-se que fizeram fortuna e que regressaram a tempo de dar corpo a grandes investimentos na terra que os vira nascer.
A diferença de idades entre ambos era de apenas dezoito meses. O Alexandre nasceu a vinte de Janeiro de 1798, e o João António a vinte e cinco de Julho de 1799. Os seus pais eram os proprietários da pequena Casa da Eira e chamavam-se Manuel José Fernandes e Joanna Maria Leite.
Como acima se viu, a Casa da Eira ostenta uma data na padieira da sua porta principal, que é de 1839. Nesta data, o mais velho dos dois irmãos tinha quarenta e um anos, enquanto que o mais novo teria quarenta, ou pouco mais.
E foram aqueles dois filhos do lugar de Leiradas que, na sequência do Decreto Real de vinte e oito de Maio de 1834, que extinguiu as ordens religiosas em Portugal, acabaram por comprar todo o património imobilizado do Mosteiro de S. Miguel de Refojos.
A compra, que resultou dum procedimento de venda em hasta pública, verificou-se no ano de 1839. Não se sabe quais as respectivas proporções da parceria, mas sabe-se que ambos os irmãos viveram e morreram na denominada Casa do Mosteiro.
O João António morreu solteiro, em 24 de Agosto de 1873, com a idade de 74 anos. Há registo onde consta que fora naturalizado brasileiro.
O Alexandre José casou, parece que a esposa era uma cidadã de nacionalidade brasileira, chamava-se Constança Álvares Pereira de Sousa Basto, e deixou prole, pelo menos quatro filhos: o Alexandre Augusto, o Júlio José, o Cândido José e o Bernardino José. O segundo, Júlio José Fernandes Basto, foi aquele que viria a ser o Barão de Basto. O Alexandre José morreu a dois de Agosto de 1874, com a idade de 76 anos.
Há uns dias, li um texto manuscrito da época, deixado por um amigo pessoal do João António Fernandes Basto, que relata o dia e a hora do seu falecimento, e que o mesmo fora sepultado na igreja, em frente ao altar de Nossa Senhora do Rosário.

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

* Colaborador

Por: José Costa Oliveira

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