Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 25-03-2013

SECÇÃO: Opinião

UM CABECEIRENSE NO CANCIONEIRO DE GARCIA DE RESENDE (1516)

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(continuação) - MARRAMAQUE NOS VERSOS DO CANCIONEIRO

Mas o nosso 4º senhor de Cabeceiras, João Rodrigues Pereira, o Marramaque, alcunha pela qual era reconhecido, não deixou de ser lembrado nos versos de outros trovadores que Garcia de Resende reuniu no seu Cancioneiro. Isso é prova da sua aceitação no meio dos senhores da corte e da fidalguia do seu tempo.
Lembram-se da trova que Marramaque dirigiu à dama que ajaezava a sua mula que a transportaria ao funeral de D. Afonso V? É D. Francisco da Silveira que se dirige agora à dama com conselhos e, muito especialmente, que tomasse como “servidor” ao nosso Marramaque. Ora, na gíria da época, servidor era aquele que servia alguém amorosamente, com paixão:

Segund’is aparelhada
de tudo o que me parece,
para vos nam minguar nada,
d’abastada,
aquisto soo vos falece:
ao pescoço campainha,
por servidor Marramaque,
falar muito ant’a Rainha
com bespinha
e sacudir ü grão Traque.

Ou seja: A dama ia bem aparelhada mas para que não deixasse de parecer abastada, faltava-lhe uma campainha (um apêndice carnudo que pende no meio da borda livre do véu, à entrada da garganta) e a companhia do Marramaque.

*
Uma das mais curiosas trovas do Cancioneiro é a que glosa o vestuário de D. Manuel de Noronha, filho do capitão, governador da ilha da Madeira, que vai na grande embaixada que acompanha o rei D. Manuel a Saragoça (Espanha) em 1498, da qual faz parte Marramaque. E o fidalgo madeirense faz-se notar pelo seu grosseiro vestuário. Assim fidalgos castelhanos descobriram que o português usava umas ceroulas de chamalote, um tecido feito com a lã de camelo, que deveria provocar um calor horroroso mais a mais para um homem vindo dum clima quente. E então deram-se para comparar com o Marramaque, oriundo dum concelho nortenho, cheio de fráguas e montanhas, de invernos muito frios.
Vários trovadores se dedicaram ao assunto. Assim é o fidalgo Simão de Miranda, de Vila Viçosa, quem levanta o tema:

Amei mais o chamalote
que lila nem guardalete
que fiz calças d’ü pelote
de que jaço de remate.
Nam fizera Marramate
esta envençam
nem o grão Pêro de Lobam!

Marramate está aqui por Marramaque, unicamente para rimar com remate e é louvado, conjuntamente com Pêro de Lobam (não identificado) como sendo incapaz de usar aquela peça de roupa: ceroulas.
A Trova tem um refrão da autoria do coudel-mor D. Francisco da Silveira:

Grande corte de Castilha,
nam hajas por maravilha
Manuel calçar-se mal,
que nam é de Portugal,
mas é da ilha,

isto é, que os castelhanos não se admirassem com o traje de D. Manuel de Noronha porque ele não era de Portugal.
Mas Jorge de Aguiar vem ainda dar uma ajuda metendo Marramaque ao barulho:

Cuidei que como passasse
d’uma poesia vana
ou de trovas de mangana
nam s’achasse em Triana
quem de ceroilas trovasse
mas pois o paço se filha
por Velasco e Bobadilha
à causa dum trajo tal,
nam se deva ver por mal
Marramaque ir a Castilha.

Os dois últimos versos têm uma interpretação muito dúbia, sendo Braancamp Freire de opinião que significam que o Marramaque não andaria muito abonado de dinheiro, já que foi El-Rei que custeou as suas despesas.
O certo é que o senhor de Cabeceiras fez parte da comitiva real de D. Manuel aos chamados juramentos de Castela, por influência da Rainha.
E como termina o caso das “ceroilas de chamalote”?

A El-Rei seraa castigo
este trajo de Noronha,
que nam leva mais consigo
quem no meta em vergonha,
Dêem-lhe, dêem-lhe lá peçonha
Que, se escapa este verão,
Sacará outra envençam.

FIM

Por: Francisco Vitor Magalhães

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