Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 04-03-2013

SECÇÃO: Opinião

UM CABECEIRENSE NO CANCIONEIRO DE GARCIA DE RESENDE (1516)

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(continuação) AS TROVAS DO MARRAMAQUE

São somente duas as trovas de Marramaque recolhidas por Garcia de Resende. A primeira acontece em Setembro de 1481 quando uma dama preparava a sua mula para acompanhar o saimento (funeral) do rei D. Afonso V que ia a sepultar no Mosteiro da Batalha. A dama não sabia como devia guarnecer a mula e o fidalgo Nuno Pereira a aconselhava. Então vem o Marramaque e diz para a senhora:
Vosso arreyo vay inteiro;
Bem Yreys, a Deus prazendo,
E eu douvos um pandeyro
Alcancareyro,
Que leveys na mão tangendo.
E douvos huma crespina
De chaparia de latam,
Porque soys dama muy fina,
E bem dyna
Pera mays do que vos dam.
Querem estes versos dizer que a mula está bem arreada, agradando a Deus, mas, para sua ajuda, lhe dava um pandeiro, para ir tocando pelo caminho; dava-lhe ainda uma coifa (rede para o cabelo), tudo porque era uma dama muito delicada e distinta, muito digna, para mais do que dela diziam.
*
A outra trova é dirigida a um fidalgo, Pero de Sousa Ribeiro, que andava escrevendo trovas em que criticava homens casados que andavam de amores com outras damas:
Vejo o paço alvoraçado,
Vejo-os todos remexer;
Dizey: que foste fazer,
Cunhado já pousentado?
Dou-m’oo demo todo inteiro,
Co trovar já de fumeyro,
Que quisestes renovar;
Porque days em que falar,
Pero de Sousa Ribeiro.
Fota, capelhar vermelho,
Tahyly e hum terçado,
Numa mula, c’um espelho
Na mão, dyz que foi achado,
Em Vagos, cerca d’Aveyro,
Aa sombra dum castanheyro;
Ysto nam vay por palrrar,
Mas por pena nam paguar
Pero de Sousa Ribeiro.
Esta copla terá sido declamada entre 12 de Setembro de 1499 e 30 de Setembro de 1506, como apurou Braamcamp Freire.
Quanto ao sentido e ao humor? Sente que todo o paço anda alvoraçado com homens casados (pousentados) atrás do demo (as mulheres?), todos querendo parecer renovados, mais novos; e conta de um desses que foi encontrado em Vagos, povoação do distrito de Aveiro, à sombra dum castanheiro, todo vestido de tela fina, com cadilhos, e turbante na cabeça, uma veste mourisca, armado de espada (terçado) com correia a tiracolo (tahyly).

(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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