Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 04-03-2013

SECÇÃO: Opinião

HISTÓRIAS DA NOSSA HISTÓRIA

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“Figuras Ilustres da Região de Basto” - Doutor Júlio Augusto Henriques

O Doutor Júlio Augusto Henriques, foi uma das mais proeminentes figuras públicas do nosso país. Filho de António Bernardino Henriques e de Maria Joaquina, nasceu no Arco de Baúlhe, concelho de Cabeceiras de Basto, em 15 de Janeiro de 1838. Em 1854, foi para Coimbra, fazer os preparatórios para a licenciatura de Direito. Entra como aluno interno no Colégio de S. Bento ( edifício onde se encontra o Departamento de Botânica da FCTUC ), onde lhe é destinado um quarto, que veio a conservar como morada, até ao dia da sua morte.
Matricula-se no curso de Direito em 10 de Setembro de 1855, que conclui em 22 de Junho de 1859, tornando-se Bacharel em Direito. Complementa a sua formação com um curso de Direito Administrativo, que mais tarde lhe vem a ser muito útil na execução de tarefas de gestão, inerentes aos vários cargos executivos de que se ocupou ao longo da vida.
O Doutor Júlio Augusto Henriques, nunca se achou com vocação para exercer a advocacia, como era a vontade de seu pai. Assim, em 10 de Julho de 1861, matricula-se no curso de Matemática; mas, poucos meses depois, em 25 de Outubro de 1961, volta a formalizar nova matrícula, desta vez para ingressar na Faculdade de Filosofia, onde conclui o Bacharelato em 12 de Julho de 1864.
Por recomendação do seu Professor de Botânica, - Doutor António de Carvalho e Vasconcelos - , o Doutor Júlio Henriques, prossegue os seus estudos na Faculdade de Filosofia, concluindo a licenciatura a 26 de Julho de 1865.
Em 1866, apresenta a sua dissertação para o concurso de docente da Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra, intitulada “Antiguidade do Homem”. Esta dissertação abordou um tema antropológico. Júlio Henriques baseou-se nos vestígios deixados pelos nossos ancestrais, de toda a história do homem, para falar da evolução da espécie humana e do seu enquadramento na Terra; descreveu os paleoambientes que estiveram associados ao percurso da evolução humana e defendeu as teorias evolucionistas das espécies, contrariando os correntes instalados do Criacionismo e Fixismo. A sua dissertação é bem acolhida e, em 1869, passa a fazer parte do corpo docente da Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra, como lente substituto extraordinário das Cadeiras de Botânica e Agricultura, Zoologia, Química e Mineralogia. Em 1872, lecciona pela primeira vez, na qualidade de lente, a cadeira de Botânica, ramo da Biologia que lhe vem a marcar a carreira científica.

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A Ascensão do Professor

Entre 1866 e 1873, o Professor Doutor Júlio Henriques, exerce o cargo de Secretário da Faculdade de Filosofia. Em 17 de Janeiro de 1873, é nomeado lente catedrático e o Conselho da Faculdade de Filosofia entrega-lhe a regência da cadeira de Botânica e Agricultura e, posteriormente, a direcção do Jardim Botânico.
O Colégio de S. Bento é extinto e o processo de ampliação da Faculdade de Filosofia toma para si grande parte das suas instalações. Depara-se então, com um novo e mais apropriado espaço de trabalho e põe em marcha todo um conjunto de reformas, baseadas em modelos de instituições botânicas de referência na Europa, que vieram a tornar o Instituto Botânico da Universidade de Coimbra, uma das mais proeminentes instituições do género. Homem empreendedor e visionário, o Professor Doutor Júlio Henriques, adquiriu para a Faculdade de Filosofia, os primeiros microscópios e promoveu o seu uso em Portugal.
O Jardim Botânico, desde o tempo do seu grande obreiro, Avelar Brotero, que vinha declinando a sua actividade, devido a burocracias e orçamentos anuais cada vez mais reduzidos, conduzindo o Jardim a um estado quase ruinoso.
Quando assumiu a direcção do Jardim Botânico, transmitiu-lhe uma nova vitalidade, contratando jardineiros qualificados, procedendo a novas plantações e estabelecendo relações com jardins botânicos europeus de referência.
Em 1880, em homenagem a Avelar Brotero, cria a Sociedade Broteriana, a primeira sociedade científica botânica a ser fundada em Portugal.
Como consequência da fundação da Sociedade, surge uma publicação, o Boletim da Sociedade Broteriana, uma revista de carácter científico, com a finalidade de dar conhecimento aos sócios da actividade da agremiação e a publicar os trabalhos científicos que dela resultavam.
A admiração que o Professor Doutor Júlio Henriques tinha por Avelar Brotero, fruto da mais valia que este botânico foi para o desenvolvimento do estudo da Botânica em Portugal, levou a que em 01 de Abril de 1887, se assentasse a estátua em sua homenagem no Jardim Botânico de Coimbra.
O Doutor Júlio Henriques, foi sócio de várias instituições científicas portuguesas e estrangeiras, como: Sociedade Broteriana, Sociedade de Geografia de Lisboa, Sociedade Botânica de França, Sociedade Nacional de Aclimatização de França, Sociedade de Economia de Madrid e Sociedade Botânica de Copenhaga.
Foi ainda, Oficial da Academia de França. Entendia muito bem, a importância que este género de instituições tinham como aglutinadores de esforços e reconhecimento de trabalhos científicos.
Desconhecido de muitos era o grande interesse que nutria pela arte. Foi inclusive, durante bastantes anos, Vogal da Secção do Conselho de Arte e Arqueologia, com sede em Coimbra.
Apesar de ser um homem determinado e lutador, era extremamente humilde.
Sempre recusou as muitas condecorações que lhe foram atribuídas. Poucos cargos aceitou ao longo da sua vida, para além daqueles que ocupava em prol das suas funções como regente da cadeira de Botânica e Director do Jardim Botânico.
Uma excepção foi a presidência da Associação Filantrópico-Académica, já extinta. Nunca quis exercer quaisquer funções administrativas ou políticas.
Em 1907, foi em representação oficial da Universidade de Coimbra, a Upsala, na Suécia, por ocasião da celebração do bicentenário do nascimento de Lineu, onde foi distinguido com o título de Doutor Honorário, recebendo diploma, anel de ouro e coroa de louros.
Durante quarenta anos, foi o 14.º Director do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, tendo-se jubilado em 16 de Março de 1918.
Aposentou-se, como Professor e Director do Jardim Botânico, em 1918, já com 80 anos de idade; mesmo assim, continuou a trabalhar como Naturalista e Director do Herbário, praticamente até à sua morte, em 15 de Janeiro de 1928, com 90 anos, em Coimbra. Foi casado desde 1874, com a D. Zulmira Angelina de Magalhães Lima, uma noiva recomendada por sua mãe.
O Professor Doutor Júlio Augusto Henriques, foi no seu tempo uma das mais altas individualidades do nosso país.
A sua terra ( Arco de Baúlhe ) e o seu concelho ( Cabeceiras de Basto ), ainda hoje são credoras do seu nome. Nunca é tarde para se homenagear tão extraordinária figura das Terras de Basto.

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