Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 04-03-2013

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (169)

José Costa Oliveira
José Costa Oliveira
A PONTE DA RANHA

Na Ranha, há duas pontes, uma sobre a ribeira de Painzela, é aquela que integra a Estrada Nacional 205, e fica para Poente, a outra sobre o rio Peio, é aquela por onde segue a estrada que liga a vila ao centro da freguesia de Abadim, e que depois segue, pelo interior da serra da Cabreira, até Vieira do Minho. Esta fica para Nascente, a jusante da praia fluvial com o mesmo nome e paredes-meias com o edifício do antigo matadouro.
É daquela segunda que aqui vou falar, a que delimita a fronteira entre as freguesias de Painzela e de Abadim. Há muito tempo que eu pensava neste escrito, mas faltava-me qualquer coisa para o completar, como gostaria que ficassem as minhas ideias. Esse momento surgiu agora, graças à prestimosa colaboração do Professor Francisco Martins Pacheco. Colaboração essa que desde já agradeço.
A estrutura actual é relativamente recente, data exactamente do ano de 1958. Foi construída pelos Serviços Florestais, apenas alguns anos após o rompimento da estrada que, a partir do largo da Capela de Santo António, no centro de Abadim, seguiria em direcção ao interior da Cabreira.
Antes da construção daquela que agora lá se encontra, havia outra que se situava sensivelmente no mesmo sítio, apenas alguns metros, parece que nem chegaria a ser a sua própria largura, para jusante, essa passava mesmo resvés com o telhado do edifício do antigo matadouro.
Reparando numa fotografia do tempo, nota-se que tinha dois arcos: um maior, de dimensão normal; e outro menor, este do lado da margem esquerda, mais próximo do matadouro. Pela configuração, é fácil concluir que era mesmo bastante antiga, romana muito provavelmente que não, mas medieval.
Ainda a conheci e passei por lá algumas vezes, sempre à frente de uma junta de bovinos que o meu pai costumava levar à feira de Rossas. Fazíamos uma jornada de cerca de dezassete quilómetros para cada um dos lados, trinta e quatro no total, nós e os pobres dos animais, que connosco regressavam, sempre que a sorte do negócio não nos bafejava e o gado não era vendido.
Nesse tempo, o tabuleiro de raiz encontrava-se em elevado estado de degradação e tinha uma plataforma de madeira, uma espécie de soalho de uma qualquer instalação agrícola. Os cascos dos bovinos ao baterem-lhe em cima faziam um ruído estranho que os assustava, e era sempre uma dor de cabeça passar por ali, corria-se o sério risco de os animais se assustarem de verdade, começarem a recuar, e despenharem-se do tabuleiro para os lajedos do rio. A ponte, com piso de tábuas, não tinha qualquer tipo de resguardo.
A estrada, que dali faz a ligação ao centro da freguesia de Abadim, e que agora é relativamente larga e rectilínea, naquele tempo era bastante mais estreita e tinha muitas curvas, mas era uma estrada, e até era de construção recente, pois fora rompida com o envolvimento no projecto de uma pessoa que eu conheci muito bem, e que era o avó paterno do meu amigo professor que acima refiro, o Senhor José Maria Martins Pacheco, da Casa da Baladã, de Abadim.
Antes de o Senhor Pacheco da Baladã se lançar com o projecto da construção da estrada, já a ponte que ligava as duas margens do Peio ali existia, e era, muito provavelmente, de construção medieval. Nesse tempo, servia pelo menos um caminho de que ainda conheci parte do traçado, caminho esse que seria a principal via de ligação entre o centro da vila e o centro daquela freguesia de planalto, a freguesia de Abadim.
Visto ao contrário, do centro de Abadim para o rio, esse caminho vinha da Corredoura, depois de aparecer a estrada passou a ser designado por quelho, era, e julgo que ainda é, o quelho que passa pelos Argãs, depois pelas Paradelas, a partir do limite entre os Bacelos e os Bacelinhos, segue a meia encosta, um pouco pela parte de cima do Banido.
Em tempos mais recentes, parte do traçado desse caminho passara a ser um córrego artificial, que fora construído para proteger as leiras das duas propriedades do Banido das enxurradas, que desciam encosta abaixo. Esse córrego precipita-se depois, na vertical, na ribeira de Riodouro, por alturas do Banido de Baixo, um pouco a montante de umas pondres que ali existem.
A meio da encosta, havia uma bifurcação donde partia um ramal (continuo a falar de caminhos) em direcção à ponte velha da Ponte Nova, e o caminho principal seguia no sentido do sítio chamado Salgueirinhos. Aqui, havia outra bifurcação donde partia um ramal que descia até ao lugar da Fábrica, onde ainda existe uma travessia em lajes, esta sim, deverá ser do tempo dos Romanos.
Há uns meses, tentei fazer um reconhecimento da área e esbarrei com uma vedação, complementada com um portão fechado a chaves, mesmo em cima do pontilhão, e, do outro lado, onde antes era o caminho que dava saída e seguimento a quem fizesse a travessia, um quinteiro de porcos acompanhados por uma dupla de cães altamente ruidosos. Sem pestanejar, arrepiei viagem.
Continuando naquele que vem lá desde a Corredoura, atravessa toda a meia encosta dos Banidos e chega até aos Salgueirinhos, esse seguia depois ao lado da fortificação, que era um grande muro que vedava a cerca das Cobras, e terminava à entrada da ponte, que eu chamo de medieval, mesmo em frente do largo onde paravam os carros de bois, que depois transportavam as carcaças, e onde chegavam os vitelos, acompanhados por vacas que não eram as suas progenitores, para serem abatidos.
Sou de opinião que haveria ainda outros dois caminhos servidos pela antiga ponte da Ranha: um, que partia directamente dali e seguia para montante, passava pelas Regadinhas, pelo Poço Redondo, e entrava em Abadim pelo lado do Vale; o outro, uma espécie de itinerário complementar dos nossos dias, partia daquele que seguia até à Corredora, logo após terminar o curso meia encosta pela parte de cima do Banido, estabelecia a divisória entre os Bacelos e os Bacelinhos, e dirigia-se pela parte mais meridional das cercas do Batôco, em direcção à Coutada, seguindo depois para Riodouro, com serventia de Abadim, pelo lado da Vezeira.
Penso ter deixado um pequeno contributo para que alguém, mais estudioso, possa fazer um verdadeiro trabalho sobre a matéria.
(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

Por: José Costa Oliveira

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