Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 11-02-2013

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (168)

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ZICO, O CÃO QUE FOI NOTÍCIA

Esta história vem a propósito daquele incidente ocorrido numa residência da cidade de Beja, ao final da tarde de domingo, treze de Janeiro do corrente ano de 2013. Muito embora tenha a minha própria opinião, não me vou aqui pronunciar se o animal deve ou não deve ser abatido. Uma espécie de condenação à morte, se comparado com os humanos.
Até hesitei, um pouco, quanto ao título a dar à crónica. A alternativa seria “A Humilhação”. Mas, como pretendo que, para memória futura, fique gravado o nome do sujeito, decidi-me pelo nome próprio do cão, do “assassino”, como foi amplamente divulgado.
Devo dizer que me arrogo um profundo defensor dos direitos dos animais, e das plantas. Sou incapaz de matar um qualquer, à excepção daquela espécie de mosquitos, que atacam de noite, fazem um zumbido enfadonho e deixam picadas dolorosas. Esses sim, trucido-os com determinação, com violência mesmo. Porquê? Porque eles me atacam, interferem com o meu bem-estar, provocam-me dores que não são as melhores que se possam desejar a alguém.
Depois dos mosquitos, os animais com que eu simpatizo menos são exactamente esses, os daquele grupo de cães potencialmente perigosos, e os répteis que não têm patas, tudo o que sejam cobras. Apesar de tudo, tenho mais medo das cobras do que dos cães potencialmente perigosos. Uma cobra faz-me estremecer sempre que me aparece, pode ser mesmo muito pequena, com meio metro ou até menos. E, caso curioso, até quando aparecem na televisão, me fazem estremecer,as cobras.
Mas, eu continuo incapaz de matar uma cobra, talvez pela razão de ela nunca me ter feito mal. Costumo cruzar-me com algumas, na estrada, e, ao contrário de outros motoristas que tenho observado, sempre me desvio delas. Já tenho parado mesmo para que elas me saiam da frente, e atravessem a estrada, zigzagueando. Tenho prova testemunhal de tais factos. Eu paro, sempre que possa, para que uma simples lagartixa atravesse a estrada.
Voltemos, então, à humilhação. Ainda antes de todo aquele movimento que se gerou à volta do caso, e que levou a que ficasse em suspenso a pena de morte do animal, seguido dos enxovalhos dirigidos ao actor Ruy de Carvalho, exactamente por ele próprio se ter manifestado também contra o abate do cão potencialmente perigoso, houve uma passagem que me comoveu, e, se outra não houvesse, também eu, por essa exacta razão, me coloquei ao lado daqueles que se manifestaram a favor da absolvição.
Comoveu-me a imagem do cão Zico quando, conduzido por dois elementos da polícia municipal, cada um segurando a sua trela, se dirigia para a carrinha que o levaria para o local de abate. Comoveu-me a postura humilde do cão, olhando cabisbaixo para os lados, parecendo alheado de tudo quanto o rodeava, e o modo como saltou para o interior da viatura, cauda arriada quase a tocar o chão.
Querem saber qual foi a imagem que me veio de imediato à memória? Foi a imagem de Dominique Strauss Kahn quando era levado, entre dois agentes da polícia de Nova Iorque, com ambos os braços para a frente, punhos algemados, e mãos esticadas para baixo, a barba, grisalha, por fazer, e o cabelo despenteado.
Nada de mal entendidos, Zico é um cão que pertence a uma raça potencialmente perigosa, enquanto que Dominique Strauss Kahn, dali em diante mais solicitado por DSK, exercia as funções de Director Executivo do Fundo Monetário Internacional, e era acusado de ter violado uma empregada de quartos do hotel onde se encontrava hospedado.
O primeiro é um animal, muito embora fosse considerado um animal de estimação; o segundo é um ser humano, um dos homens mais poderosos do mundo, no momento em que fora detido.
Mas a verdade, essa foi que a imagem da detenção de DSK também me comoveu, me chocou até. E, falando muito sinceramente, devo dizer que me custou, e ainda custa, a acreditar que o homem tenha mesmo violado a empregada de quartos do hotel.
Que diabo, DSK tinha no momento dos factos a provecta idade de 62 anos. Digam lá o que disserem, mas já ninguém conseguirá convencer-me que se trata de um homem na flor da sua idade! Conheço o grau etário. Por seu lado, a ofendida, a Dona Nafissatou Diallo, é uma mulher de 33 anos, natural da Guiné Conacri, mãe solteira.
O facto de ser natural da Guiné Conacri, ser mãe solteira e ter apenas 33 anos, tudo isso poderia não significar muito, se ela fosse uma pessoa que aparentasse qualquer espécie de fragilidade. Mas não, reparem nas fotografias e nos vídeos onde ela aparece. Vê-se, perfeitamente, que é dona de uma invejável robustez física. Não sei se moral, mas robustez física, lá isso tem.
Não creio que o acusado a tenha violado mesmo. Comparando os físicos e as idades de ambos, penso que será preciso alguma dose de ingenuidade para se acreditar que tal tenha acontecido.
Que o Senhor DSK é um conquistador? Disso parece não restarem dúvidas, prova-o todo o historial que tem atrás de si. Que terá pelo menos tentado seduzir a camareira, também se afigura perfeitamente razoável. O que parece estranho foi a dificuldade encontrada em provar que ele não seria homem para obrigar, à força, a mulher a aguentar-se debaixo dele, sem lhe dar um valente encontrão, e escapulir-se, porta fora, largando o quarto em fuga.
E depois, a forma como ele aceitou negociar um acordo milionário com a ofendida, tendo em vista sanar o assunto com abandono da via judicial. Duas coisas podem ter contribuído para esta via de solução: uma, talvez o modus operandi da justiça americana, que, sendo aos nossos olhos eficaz, nem sempre será eficiente quanto baste (é preciso conhecer bem a distinção entre eficácia e eficiência); a outra, a trama politica no interior do partido a que pertencia… DSK era um potencial candidato às eleições presidenciais francesas que se avizinhavam…
Peço desculpa, eu sei que isto não são contas do meu rosário.

Por: José Costa Oliveira

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