Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 21-01-2013

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (167)

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OS NORTE AMERICANOS E O PORTE DE ARMA

Poucos terão sido os que, ao tomar conhecimento do massacre ocorrido a catorze de Dezembro de 2012, uma sexta-feira, na pequena cidade de Newtown, estado norte-americano de Connecticut, não exprimiram um largo gesto de estupefacção. Pese embora o facto de, naquele país, tal tipo de ocorrências se ter tornado um tanto ou quanto recorrente desde há longos anos.
Procurei alguns dos casos mais recentes, de dimensão semelhante, que se têm verificado por lá, nos EUA, e donde parece pretender concluir-se que tais práticas se devem às facilidades, de que todos os cidadãos dispõem, quanto à obtenção de uma qualquer arma de fogo.
O mais recente de todos, antes deste último, como não poderia deixar de ser, ocorreu a vinte de Julho de 2012, em Aurora, no estado do Colorado, também um jovem, de vinte e quatro anos, entrou numa sala de cinema, lançou uma bomba de gás contra a plateia, e fez inúmeros disparos, matando doze pessoas e ferindo mais de cinquenta.
Apenas outro exemplo. Este ocorreu a dezasseis de Abril de 2007, e ficou conhecido como o massacre de Virgínia Tech, por ter tido como cenário o Instituto Politécnico e Universidade Estadual da Virgínia, na localidade de Blacksburg, o atirador era um estudante sul coreano da instituição, que se suicidou de seguida. O número de mortos foi de trinta e três, incluindo o próprio atirador, e o número de feridos foi de vinte e um.
Uma particularidade, aquele massacre de dezasseis de Abril de 2007 foi em tudo muito semelhante ao verificado agora a catorze de Dezembro de 2012. Ataques em escolas, perpetrados contra estudantes e professores, tendo como autores jovens estudantes que, após os tresloucados actos, acabam por se suicidar.
A questão da posse de armas. A propósito deste último atentado, muitos foram os comentadores, em particular de nacionalidade brasileira, que se apressaram a estabelecer comparações entre o número de armas em poder da população e o número de crimes desta natureza praticados. Os resultados têm sido deveras pouco convincentes no sentido de atribuir a culpa, pura e simplesmente, à posse de armas.
Num desses comentários lê-se, por exemplo, o seguinte: “Com menos armas, o Brasil tem três vezes mais mortes que os EUA”.
O acesso às, e a posse de, armas de fogo, por parte da população civil, sempre tem sido fácil nos Estados Unidos da América. A própria constituição do país consagra tal direito.
De um estudo elaborado por um departamento especializado das Nações Unidas, o UNODC (United Nations Office on Drugs and Crime), reportado ao ano de 2007, consta que nos Estados Unidos da América havia, em poder da população civil, 270 milhões de armas, ao passo que, no Brasil, esse número era de apenas quinze milhões. Resulta, destes números, que nos Estados Unidos da América, a percentagem de indivíduos armados é em média muito próxima dos cem por cento, ao contrário do Brasil, onde essa percentagem se fica por oito por cento, apenas.
Nos funerais das vítimas do atentado de Newtown, o Presidente Barack Obama voltou a focar a questão da facilidade com que os americanos têm acesso à posse de armas de fogo, deixando a ideia de poder vir a suscitar uma mais rápida decisão relativamente à imposição de restrições a tal acesso ao uso e porte de armas.
Os americanos são ciosos das suas tradições, e não me parece que, mesmo debaixo de fortes comoções, como aquela por que acabam de passar, na sequência dos acontecimentos de catorze de Dezembro, na pequena cidade de Newtown, venham a ceder nesse particular. Por outro lado, há o grande lobby que é o negócio do armamento.
A este propósito, parece-me pertinente lembrar aqui a história contida num texto que me fora sugerido, para um trabalho de uma cadeira de sociologia, quando frequentava o quarto ano do curso de economia da Universidade do Porto.
A história passava-se exactamente nos Estados Unidos da América. Da localidade já não me lembro, mas penso que se passava num daqueles estados onde se situam as Montanhas Rochosas, ou o Grand Canyon, Estados do Colorado, ou do Arizona.
Tratava-se de uma pequena aldeia que ficava encravada entre altas montanhas, onde havia uma colónia bastante numerosa de águias. Em períodos de maior escassez de alimentos, as águias desciam ao povoado e atacavam as crianças. As estatísticas indicavam que, em média, desaparecia uma criança por ano, levada pelas águias.
Perante esta calamidade, a população organizou-se e decidiu pelo combate às águias. Munidos de caçadeiras, deram-lhe caça e acabaram por dizimá-las.
Os habitantes da aldeia ignoraram que uma grande parte da alimentação das águias era constituída por serpentes, que abundavam nos rochedos. Abatidas as águias, as serpentes, sem predadores que as consumissem, multiplicaram-se, muito rapidamente, e acabaram por comer todos os sapos que existiam na região.
Como toda a gente sabe, os sapos são um dos alimentos preferidos das serpentes e alimentam-se de insectos. Os sapos são os melhores prestadores de serviços no combate às pragas de insectos.
Naquela aldeia, escasseando a população de sapos, que se alimentavam dos insectos, estes multiplicaram-se aos milhões e passaram a destruir, por completo, as culturas de cereais, de hortaliças e de frutas.
Foi uma autêntica desgraça em termos de produção agrícola. A população voltou a reunir de emergência e decidiu, quase por unanimidade, que a chave da resolução para a crise era passar a proteger as águias, para que elas pudessem comer parte das serpentes, para que estas, as serpentes, ficassem em menor número e não comessem os sapos todos, para que estes, os sapos, continuassem a alimentar-se de insectos, para que estes, os insectos, não devastassem as searas, as hortas e as fruteiras.
Moral da história, é muito provável que o Presidente dos Estados Unidos da América não possa fazer grande coisa, no que respeita ao condicionamento do uso e porte de armas, pelos cidadãos do seu país.
É que eles, os americanos, são muito bem capazes de preferir que um descontrolado qualquer massacre a população de uma escola, de quando em quando, a terem que se sujeitar à humilhação de ficarem indefesos, perante a ameaça, de um qualquer malfeitor, que lhes possa surgir ao virar de uma esquina.
Enfim, ou é a sociedade, ou é a Natureza…
(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

Por: José Costa Oliveira

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