Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 21-01-2013

SECÇÃO: Desporto

UM CABECEIRENSE NO CANCIONEIRO DE GARCIA DE RESENDE (1516)

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OS CANCIONEIROS

Os historiadores de literatura definem como “cancioneiro” a colecção de poesias dos trovadores e jograis. Todos os países têm os seus cancioneiros. Em Portugal surgiram entre o século XI a XIII, mas é no século de Quinhentos que se verificou uma maior actividade na recolha da produção poética. A finalidade é não só seleccionar o que melhor se escreveu numa língua, mas também oferecer aos “senhores” textos que depois gostavam de cantar e declamar nas suas festas.
Quem colecta os textos? Normalmente são “homens da corte, que animam os serões palacianos e é a poesia que brota do convívio com as damas e do contacto com os nobres”.
Em Portugal há quatro cancioneiros principais: o chamado “da Ajuda”, o da “Vaticana”, o de “Colucci-Brancuti” e, finalmente,

O CANCIONEIRO GERAL

Este Cancioneiro, publicado em 1516, recolhe poesias líricas e satíricas, a maior parte delas em redondilha maior e compostas entre 1450 e o ano da publicação, reunidas por Garcia de Resende. Este diz que são “gentilezas e cousas de folgar”, tomadas “como adoração e como um longo e delicioso penar, ou a chufa um tanto desbragada, que sublinha os mil e um ridículos do tempo”, ou, como diz o autor do prólogo à melhor edição portuguesa de sempre (a da Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 6 vol.), “os amores e as justas, as gentilezas e a galanteria, a sátira graciosa, emparceirando com a licenciosidade, o sentimento religioso e o olhar atento e crítico sobre o mundo daquela época”.

GARCIA DE RESENDE

Nascido em Évora em 1470, filho dum casal servidor do bispo da diocese D. Garcia de Meneses. Tinha assim o nome próprio do bispo e, talvez por influência deste, e ainda que muito jovem, foi admitido na corte real como moço de câmara d’el Rei D. João II. Em 1490 passou a viver na casa do príncipe D. Afonso. Falecido este algum tempo depois, regressou à corte como moço de escrivaninha.
Diga-se que “era de natureza jovial, que aceita sem melindre e retribui a dobrar as zombarias dos contemporâneos ao seu físico de pícnico, confidente de reis, espectador interessado e brandamente irónico, espírito prestável e inventivo (…), lírico imaginoso:
Poetava e lançava os seus chistes às elegantes do tempo, mas isso não o impediu de subir na vida, agora na corte de D. Manuel, que lhe concedeu cargos que lhe trouxeram fama e proveito. Foi mesmo o nº 2 da embaixada ao papa de Roma que assombrou o mundo pelo fausto, grandeza, riqueza e pompa, em que se incluíram muitos animais selvagens, vindos das selvas de África e Oriente, entre eles um elefante que fez pasmar meia-Europa.
D. Manuel morre, mas Resende continua a desempenhar cargos importantes na corte de D. João III. Entretanto colige as trovas e os versos seus e de muitos dos seus amigos e conhecidos, reunindo 286 poetas, dos quais um é “cabeceirense”.
Quem é ele?

JOÃO PEREIRA

É assim que Resende o designa no Cancioneiro. O seu nome completo é João Rodrigues Pereira. Tem o mesmo nome de seu pai, 3º senhor do concelho de Cabeceiras de Basto, com sua sede na nobre Casa da Taipa, na paróquia daquele nome, a nossa São Nicolau de hoje. É o filho segundo do casamento, tardio, de seu pai, com D. Leonor de Castro, donzela da Casa da Rainha D. Isabel, filha de D. Pedro Castro, senhor de Bemviver, no Douro, capitão de armada. Terá nascido pelos anos de 1452 ou 1453. Veio, como toda a fidalguia do tempo, para a corte em Lisboa. “Foi elle alegre, jovial, cavalheiro. Prestava-se, ao que parece, à caturreira, coisa muito nossa, muito dos paços dos reis e fidalgos (A. B. Freire)”.
Na corte conheceu Garcia de Resende, moço como ele, companheiro de estroinice.
O pai, 3º senhor de Cabeceiras, faleceu em 1470. Por direito o senhorio do concelho e de toda a casa, com os coutos de Lamegal (c. de Pinhel) e Lumiares (c. de Armamar), pertencia ao primogénito Diogo Pereira. Mas este faleceu pouco tempo após seu pai pelo que D. Afonso V confirmou João Rodrigues Pereira como senhor da casa de seu pai, em Fevereiro de 1473. Tornou-se assim no 4º senhor do concelho.

(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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