Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 03-12-2012

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (165)

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A QUINTA DO MOSTEIRO

Eu não sei se haverá alguém, daqueles que ainda se lembram, que sinta saudades (boas lembranças ou recordações) daquilo que era a nossa vila há meio século atrás.
Apenas como ressalva, cumpre-me adiantar que, muito embora me arrogue como crítico de certas formas de crescimento, não posso, de modo nenhum, negar o progresso.
A nossa vila, como todas as vilas e cidades do país e de todo o mundo, tem crescido muito. Se não tivesse crescido como as outras, teria ficado para trás e seria apontada como ovelha ronhosa, por isso mesmo, por não ter acompanhado o crescimento.
Se o crescimento terá sido o mais adequado, também não cabe aqui aferir, nem há qualquer intenção nesse sentido.
Mas, de todos aqueles que se lembram do que era a paisagem que envolvia o Mosteiro de S. Miguel de Refojos, quem é que não sente assim como que um qualquer pozinho de nostalgia?
A Quinta do Mosteiro era uma espécie de fortaleza, toda murada com um muro de cerca de dois metros de altura. Eu refiro-me ao tempo em que eu próprio a conheci, quando o Campo do Sêco ainda não era plano e tinha duas colinas: uma, onde agora se encontra a parte frontal da Escola Básica e Secundária, era o lado da feira dos porcos; a outra, onde agora se encontra o Quartel dos Bombeiros, era o lado da feira do gado (gado referia-se a bovinos).
Aquelas duas colinas do Campo do Sêco eram povoadas por frondosas oliveiras, que faziam sombra, preciosa nos dias de Verão, e davam muita azeitona que era varejada e apanhada pelos caseiros da quinta no início do mês de Janeiro. Uma parte daquela que caía, sacudida pelo vento, em particular a da colina do lado nascente, era um mimo para os porcos, em dias de feira.
O muro, com cerca de dois metros de altura, começava no vértice nascente/sul do Campo do Sêco, ali próximo da fonte de S. João, e circundava toda a quinta, ao longo do Rio, das Almas, do Telhado até ao Pinheiro; depois, ao longo da berma da Estrada Nacional 205, desde o Pinheiro até ao limite dos quintais das traseiras dos prédios da ala sul da Praça da República.
O caminho que, vindo da Ponte de Pé e pela Ponte do Bom Nome, fazia a ligação até ao Alto do Pinheiro, chamava-se caminho de “Detrás do Muro”.
A Quinta do Mosteiro sempre tivera quatro caseiros. O meu pai, quando tinha os seus quinze anos, talvez dezasseis, também por ali passou, deixando a sua terra natal, a freguesia de Atei, veio para moço de servir de um daqueles caseiros, era o “Braguês”. Tinha essa alcunha por a mulher ser natural de Braga, e o meu pai viera para seu criado por ele ser também natural de Atei.
A primeira incursão que o progresso fez na estrutura da quinta aconteceu com a construção da denominada estrada da Sobreira. O primeiro lanço a ser construído foi, exactamente, entre o vértice nascente/sul do Campo do Sêco e a casa do Senhor Joaquim das Almas. Eu trabalhei, desde o primeiro dia, nessa parte da obra, decorria o ano de 1963. A empreitada era da responsabilidade da Câmara Municipal, e o encarregado era o Senhor Guilherme Pimenta, ligeiramente surdo, natural e residente em Alvite.
Lembro-me de um dia, em que a construção dos muros de vedação ia crescendo, com o trabalho de duas equipas de pedreiros, uma chefiada pelo Senhor Saul Marra, e a outra constituída pela família dos Peludos da Freita, ver o Senhor Arcipreste Barreto abeirar-se do encarregado, com ar de quem chega para resolver um grande caso, e questioná-lo quanto à altura do novo muro de vedação que estava a ser construído, alguns metros para o interior daquele que acabara de ser derrubado.
O Senhor Guilherme Pimenta, com a mão direita atrás da orelha do mesmo lado, tentando virar a campânula o mais possível para a frente, ouviu e disse: «esteja descansado Senhor Arcipreste que hoje mesmo comunicarei a pretensão ao Senhor Pacheco». O Senhor Pacheco da Baladã era quem acompanhava o desenvolvimento da empreitada. Quanto ao muro, entre a esquina do Campo do Sêco e o sítio das Almas, esse acabou por ficar com cerca de um metro e oitenta de altura, um pouco menos que o anterior, mas bastante mais alto do que um metro e vinte como constava do projecto.
A segunda incursão foi o arruamento hoje denominado de Rua de S. Miguel, onde mais tarde viriam a ser construídas as casas dos magistrados. Eu também trabalhei nessa obra, decorria o ano de 1966, e o empreiteiro era a firma Carlos Rodrigues com sede em Braga.
Depois, já no pós Revolução dos Cravos, a primeira grande intervenção foi o rompimento daquela que é hoje a Avenida Francisco de Sá Carneiro, e significou o grande golpe na privacidade de todo o recinto da quinta. Hoje é o que se pode ver.
Gostaria de observar a cara daquele cidadão, não um qualquer falecido que voltasse ao mundo, mas um dos vivos que tivesse emigrado com a idade de trinta anos e agora regressasse, pela primeira vez, com a idade de oitenta, por exemplo.
Não é de todo impossível. Refiro-me ao hipotético torna viagem que por aí apareça passados cinquenta anos de ausência. Pelo sim pelo não, recomendo a todo aquele que porventura tenha uma fotografia aérea com o máximo de detalhe de toda a área da quinta, que a mantenha em bom recato. Essa é, já nos dias que correm, um verdadeiro tesouro.

PS: Agora, que parece estar em curso um conjunto de obras que visam transformar toda aquela zona envolvente da ribeira, no curso que corre ao lado do casario antigo dos caseiros da quinta, não deixem de recuperar o lagar de azeite, com o telhado renovado mas com o formato antigo, com as pedras das paredes lavadas, mas não lavradas. Coloquem lá a base, a galga, as traves com os pesos, os sifões e as seiras, a fornalha também, onde seja possível assar batatas no borralho do bagaço, as verdadeiras batatas a murro, e deitem abaixo aquela gaiola de madeira, de péssimo gosto, que se encontra empoleirada no sítio onde antes estava o telhado antigo.

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

Por: José Costa Oliveira

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