Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 03-12-2012

SECÇÃO: Informação

Terras de Barroso e de Basto debatidas em Arco de Baúlhe

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Na noite do último dia 23, a Biblioteca Municipal de Arco de Baúlhe, em Cabeceiras de Basto, levou a efeito uma tertúlia que valeu para reflectir as incursões monárquicas de há cem anos e para rememorar o Portugal de há seis séculos atrás, quando (em 1401) se realizou o casamento de D. Brites Alvim Pereira com D. Afonso, filho bastardo do Mestre de Avis, mais tarde Rei D. João I.
Arco de Baúlhe dista a uns 5 km da sede de concelho e a menos de 2 km de Pedraça, onde D. Brites nasceu, se criou e onde, entre 1376 e 1379 viveram seus pais: Leonor de Alvim e Nuno Álvares Pereira. Se Cabeceiras de Basto vale pela amplidão e fecundidade geográfica, não vale menos pela história desde os povos que nos antecederam e que fizeram desta região uma espécie de corte real dos primeiros nobres de realeza portucalense, até 1423, ano em que Nuno Álvares Pereira, já sem esposa e sem a filha Brites que morrera de parto, em Chaves, se despediu do mundo para entrar no convento do Carmo até morrer.
O pretexto para esta tertúlia na Biblioteca de Arco de Baúlhe teve uma importância enorme. As pessoas presentes, todas com propensão para a temática histórica, foram com o intuito da apresentação do livro sobre a «República e Incursões Monárquicas - Um Padre Guerrilheiro de Barroso», editado em Agosto último em Montalegre, assinalando os 150 anos do nascimento em Vilarinho de Negrões, do Padre Domingos Pereira e ainda os 100 anos das incursões monárquicas na fronteira norte com a Espanha (em 1911 em Vinhais e em 1912 em Chaves).
O Padre Domingos era barrosão de nascimento e, por influência do tio materno João Carreira, padre em Cabeceiras de Basto ingressou com os irmãos Manuel e com o José Maria no Seminário de Braga. Os dois primeiros ordenaram-se e, ambos foram colocados em Cabeceiras, junto do tio materno. Embora como administrativo também ali foi colocado e exerceu diversos cargos o irmão José Maria. Este sarau cultural teve a presença de dois dos quatro autores do livro acima referido.
O Vereador da Cultura abriu com uma mensagem muito oportuna, tal como oportuna veio a ser a mensagem de encerramento do Presidente da Câmara que mostrou disponibilidade para doravante, se estreitarem as relações aos diversos níveis entre as duas comunidades que partilham espaços contíguos e que têm afinidades historiográficas muito estreitas e decisivas desde a fundação da nacionalidade, passando pelo casamento de D. Leonor de Alvim com D. Vasco Gonçalves Barroso e, depois dela viuvar, com Nuno Álvares Pereira (1376). Em Pedraça fixaram residência, aí nasceu a filha de ambos, D. Brites que em 1401 casou com D. Afonso, filho do Mestre de Avis, logo logo depois rei de Portugal, com o nome de D. João I. Há muitos momentos importantes na História de Portugal. Mas talvez o mais marcante tenha sido este casamento que ditou a Fundação da Casa de Bragança, a qual ainda perdura e que foi alfobre da Monarquia Portuguesa entre 1640 e 1910.
Este evento em Arco de Baúlhe reuniu a intelectualidade local e, em voz alta, todos aqueles que quiseram, manifestaram o seu ponto de vista em função da importância das Terras de Basto e de Barroso, cujos apelidos nasceram e formaram a nobreza que desde essa data pontificou em Portugal.
Mas o que justificara essa sessão foi a figura polémica do Padre Domingos Pereira e do seu envolvimento nas escaramuças entre regeneradores e progressistas. O padre Barrosão, logo a seguir à implantação da República, entendeu desobedecer ao Arcebispo de Braga e abdicar do exercício sacerdotal, transformando-se num aliado, dos mais afoitos, de Paiva Couceiro.
José Dias Baptista, licenciado em História e um dos co-autores do livro patrocinado pela Câmara de Montalegre, durante uma hora de aula viva, descreveu, estribado em obras de Joaquim Leitão, Sousa Dias e outros autores da época, o ambiente político, geográfico, social e histórico em que as terras de Entre Douro e Minho se transformaram.
O signatário desta nota de leitura, como conterrâneo do Padre Domingos Pereira contribuiu, na imprensa para difundir a vantagem em aproveitar estas efemérides para enaltecer o papel das terras e das Gentes que daqui são e aqui teimam em viver. Barroso e Basto sempre foram, antes e depois da fundação da nacionalidade, chão agreste, de clima rigorosos e de planaltos difíceis de galgar. O Gerês, a Cabreira, as Alturas de Barroso, a Mourela, o Larouco e o Marão situam-se nas margens do Cávado, do Homem, do Rabagão e do Tâmega. Não foi fácil aos povos que por aqui viveram e deixaram rastos de cultura, superarem as barreiras físicas, orográficas, sociais e culturais. Ainda não venceram estas paragens as barreiras naturais que se erguem a quem aqui nasceu, vive e quer morrer. Montalegre, Boticas, Ribeira de Pena e também Cabeceiras e Mondim de Basto, continuam a ufanar-se de ser berço de História. Os rios, as serras, a infecundidade dos solos, já foram explorados pela técnica: Barragens, parques eólicos, gastronomia. Mas só agora vai chegar a Bragança a autoestrada. Entre Montalegre, Braga, o Arco de Baúlhe e outros destinos obrigatórios ainda perduram as vias do Estado Novo. Urge repensar este pedaço de terra e de gente que enriqueceram a História de Portugal, mas que o poder central tem relegado para as calendas. Veja-se o exemplo do Túnel do Marão...

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