Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 12-11-2012

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (164)

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EU, MISTER BEAN

Quando um dia me decidir a escrever as histórias das minhas viagens, sairá, sem qualquer tipo de margem para dúvidas, um livro mais volumoso do que qualquer um dos de José Rodrigues dos Santos, mais desvirgulado (falta de vírgulas, ou vírgulas a mais) do que qualquer um dos de José Saramago, e mais denso e impenetrável do que qualquer um dos de António Lobo Antunes.
Tentando manter-me na linha do título, confesso que sou fã de dois artistas muito especiais que nos aparecem, de vez em quando, na televisão. O primeiro é, como não podia deixar de ser, o desconcertante Rowan Atkinson, que interpreta o papel de Mister Bean, o segundo é Richard Dean Anderson que interpreta o papel de Macgyver.
Sempre que qualquer deles aparece na televisão, logo me prende. Gosto de ambos. Devo, a propósito, referir que já me safei de uma situação bastante complicada recorrendo aos ensinamentos que me foram transmitidos pela série Macgyver.
Aconteceu num café da cidade do Porto, fui a um dos quartos de banho, como qualquer mortal o costuma fazer, fechei a porta por dentro, e, depois, ela recusou-se a abrir por aquele mesmo lado. Já devem ter reparado que eu dou mostras de alguma calma, uma boa dose de calma, e, naquela ocasião, eu tinha três hipóteses, tudo tal como o pensara de imediato: a primeira, desatar aos berros até que alguém ouvisse lá no salão, onde, por sinal, existia grande algazarra, e seria muito difícil fazer-me ouvir; a segunda, manter-me ali sentado até que alguém se aproximasse e ficasse ao alcance do meu pedido de socorro; e a terceira, recorrer aos meus conhecimentos macgyverianos.
Não perdi grande tempo, embora pareça muito calmo e lento, não o sou tanto assim, quando avisto um lobo, costumo correr bastante.
Trago sempre comigo um pequeno canivete, um canivete suíço, que o meu filho, o Miguel Ângelo, me trouxe, há já bastantes anos, da Suiça, por uma ocasião em que fora lá participar em provas pré olímpicas de remo, ele era remador do Fluvial, do Club Fluvial Portuense.
Usei, à risca, os métodos de Macgyver, e, ao fim de cinco minutos, estava fora da casa de banho, a fechadura ficou lá, desmontada, e eu não disse nada a ninguém. Para quê mentir? Toda a gente faz assim! Todo aquele que encrava uma torneira, ou põe o cacifo dos toalhetes em pantanas, não vai, com certeza, direitinho ao balcão do café e dizer: «Olhe, desculpe, mas eu encravei o cacifo dos toalhetes». Tenho quase a certeza de que não vai. E eu não fui.
Bom, mas agora tenho que me voltar para o Mister Bean, caso contrário, o espaço esgota-se.
Aconteceu nos longínquos anos da década de oitenta do século passado, mais concretamente em 1986. Eu vivia só e encontrava-me numa situação de certo desencanto com a vida. Trabalhava como director financeiro na filial portuguesa duma multinacional de capitais suecos. Não ganhava nada por aí além, mas ficava-me um pouco acima da média. Para iludir um bocadinho das fraquezas sentimentais, decidi fazer a minha primeira viagem de férias ao estrangeiro.
Como todo o bom português que ainda nutre alguns sentimentos relativamente à multi-centenária aliança anglo-lusa, a primeira opção foi por me deslocar ao Reino Unido da Grã-Bretanha.
Consultei os programas de viagens da Agência Abreu e comprei uma viagem programada que se intitulava “Circuito da Inglaterra e da Escócia”. A partida era do aeroporto de Pedras Rubras, viajando-se de avião até Londres, e depois o referido circuito, em autocarro, com partida de Londres e passagem por Coventry, Chester, Manchester, Glasgow, Edimburgo, Nothingam (Bosques de Cherwood), York, Cambridge e, finalmente, Londres.
Compartilhei o meu banco no avião com duas senhoras madeirenses, que já vinham desde o Funchal, eram mãe e filha, e deslocavam-se a Londres ao encontro do chefe da família, que ali se encontrava a trabalhar. Nós viajávamos do lado esquerdo, e eu ocupava o assento junto da janela. Elas eram duas pessoas muito simples, mas eu, que fazia a minha primeira viagem de avião, quando foi servida a refeição a bordo, não arrisquei fazer nada, no que respeita ao manuseamento daquelas embalagens de catering, sem que antes elas o fizessem, e sempre a espreitar pelo canto do meu olho direito.
No decurso da viagem, pelo interior da Inglaterra e da Escócia, travei conhecimento com uma jovem de trinta e cinco anos, que também trabalhava numa multinacional sueca, com instalações em Mem Martins, concelho de Sintra, e desempenhava funções muito semelhantes àquelas que eu próprio desempenhava na outra multinacional sueca, esta com instalações no concelho de Santo Tirso.
Daquele conhecimento viria a resultar uma deslocação até Sintra, e um jantar à luz de velas, num restaurante muito próximo da estação dos caminhos-de-ferro. Embora eu tivesse insistido no contrário, foi ela quem pagou a despesa. Alegou que estava na terra dela e que quem pagava não poderia ser mais ninguém se não ela própria.
Como resultado daquele encontro, viria a ficar apenas uma simples amizade. A jovem passava também por uma fase muito difícil, ela era aquilo que se poderia chamar uma viúva sem nunca ter sido casada. Ela contou-me a sua história, que de facto não era nada feliz. Acontecera que, quando estava já de casamento marcado, cujo namorado tinha apenas mais dois anos do que ela, e seria três anos mais novo do que eu, declarou-se-lhe uma doença grave e morreu ao fim de três meses.
Ela padecia de um enorme trauma, e eu logo concluí que daquela parte não poderia surgir nada que pudesse vir a atenuar o meu desencanto com a vida.
E o Mister Bean? Foi no dia da minha chegada a Londres. Eu fiquei instalado no Mount Royal Hotel, um dos mais bem localizados hotéis de Londres. Situa-se na Rua Oxford e fica a escassos metros do Hyde Park.
Como já referi, viajava sozinho e integrar-me-ia no dia seguinte num grupo que viajara desde Lisboa noutro avião. Convencido de que o programa da viagem tinha incluído o jantar daquele primeiro dia, por volta das vinte horas, dirigi-me à sala de jantar e tomei lugar numa das mesas que me foram indicadas por um dos empregados extremamente solícito.
Foi o mesmo empregado que me apresentou a lista para que eu pudesse escolher. Da lista de pratos, mais de metade eram de chicken (galinha, frango, ou galo), era chicken das mais variadas formas, combinações, ou espécies. Eu pedi um daqueles pratos de chicken, e para beber, uma cerveja.
No momento da apresentação da factura, eu disse para o empregado que o jantar era por conta da agência de viagens, que estava incluído no preço do quarto. Ele torceu o nariz e deu-me a entender que não. Que sim, insisti eu, com ar de quem está cheio de razão.
Aquele empregado foi chamar um colega que se aproximou da minha mesa, fez uma grande vénia e tentou explicar-me que não, que o jantar não estava incluído no preço do quarto, e que eu teria de o pagar ali. Eu continuava convencido do contrário e puxei do programa da viagem que levava numa bolsa que estreava naquele dia. O programa estava redigido em português, razão pela qual não ousei exibi-lo aos meus interlocutores.
Entretanto, aproximara-se um terceiro, que deveria ser o chefe do restaurante. Todos com o máximo de respeito e devidamente perfilados. Foi quando eu reparei que, na verdade, o jantar não estava incluído no preço do quarto.
«Ai am so sorry, it was my mistake» - disse eu no meu inglês de ocasião.
«Not at all, Sir» - disse o chefe do restaurante com aquela voz sonante de inglês, porém, com elevada simpatia.
Puxei da carteira e paguei. Levava em GBP (libras esterlinas) o suficiente para não ficar mal. Mantenho em mente o filme do sucedido, e ainda hoje, passados mais de vinte e cinco anos, sempre que vejo um qualquer episódio da série Mister Bean, logo me sinto no papel do protagonista.

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

Por: José Costa Oliveira

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