Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 01-10-2012

SECÇÃO: Recordar é viver

A Bruxa de Monte Córdova de Camilo Castelo Branco, em Cabeceiras de Basto

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Caríssimos leitores,
Certamente, para muitos de vós, em especial aqueles que, por diversas razões não são dados a romances, não por serem ignorantes mas porque, a vida não lhes permitiu adquirir livros que lhes permitisse enriquecer mais o seu saber ou, porque as condições da vida dura e com parcos rendimentos os obrigou a trabalhar, desde muito cedo de sol a sol, estranhará o título desta minha crónica.
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Não vou reescrever o livro de Camilo Castelo Branco, no seu todo mas, sim descrever sintetizando, do meu jeito habitual, a forma como vi e senti o acontecimento acima referido, ‘A Bruxa de Monte Córdova’, em Cabeceiras de Basto.
Os leitores assíduos do jornal e os ouvintes da rádio local, vão escutando a divulgação dos eventos culturais, entre eles as peças de teatro, baseadas nos romances de autores clássicos que, a nossa Autarquia tem levado a cabo em Cabeceiras de Basto. A Edilidade tem a seu cargo um grupo de teatro, formado por alguns profissionais. Eles produzem, encenam, dirigem os atores amadores da nossa terra que, se envolvem com entusiasmo dando o seu melhor.
Essas pessoas são: o Alexandre, o Roberto, o Armando, um ou outro ator convidado de fora e a Joana. A Joana é a responsável pelos cenários, roupas, entre outras coisas.
Este grupo está cá em Cabeceiras, há já algum tempo. Têm “arrastado” atrás de si muitos participantes de várias gerações: pais, avós, jovens, crianças,bem como, universidade sénior, associações folclóricas e grupos musicais, entre eles os Cavaquinhos da Raposeira.
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Desde o seu início, conseguiram entusiasmar e, envolver a população local e dos arredores. Realmente, este género de teatro, onde os atores interagem com os participantes locais e o público, tem tido um grande sucesso! Nunca tinha assistido a tal entusiasmo para ver um teatro. Geralmente, são representados em espaço aberto e, com grande adesão e vontade de voluntários para fazê-lo! É mesmo contagiante! Tanto que, os “atores” amadores vão repetindo as participações.
Já entrei num desses, com os Cavaquinhos da Raposeira, na altura das Comemorações do Centenário da Implantação da República e, como Cabeceiras de Basto foi o último reduto da monarquia a render-se, a interpretação tinha a ver com o muito famoso, o líder Padre Domingos Pereira, um revoltoso convicto dos seus ideais monárquicos até à morte. Empolguei-me toda e simplesmente adorei! O Padre Domingos Pereira é um dos personagens mais falado dos meus livros!
Diga-se com toda a justiça que, este êxito, se deve a um género de teatro diferente. Este grupo de encenadores, atores profissionais, produtor e amadores da nossa querida terra, fazem-no de maneira diferente do que estamos habituados a assistir, por exemplo, em televisão. A enormidade de pessoas que, atrás descrevi, parece que à primeira vista não vai resultar mas, no seu conjunto se torna harmonioso.
Desta vez, os textos do teatro, que se realizou no passado dia 21 de Setembro, inserido na Feira tradicional de Cabeceiras, foi extraído do célebre romance “A Bruxa de Monte Córdova”, do autor clássico, Camilo Castelo Branco.
Só para lembrar, Camilo Castelo Branco, escreve esta obra em 1867, já as ordens beneditinas tinham acabado. Este autor, inspirou-se em factos “reais” (eu quero ter a ilusão que sim) passados nesta singela vila de mil oitocentos e tais. Aliás, este autor, refere a nossa terra e os nossos lugares em muitos romances que escreveu mas, sem dúvida este emocionou-me muito porque, o li com treze ou catorze anos e, muito à escondida! Foi o segundo romance que li desde a minha infância. Depois desse li de tudo. Romance, mistério, suspense, crónicas, capa e espada, etc. Li muitos autores portugueses, hoje grandes clássicos e também estrangeiros, por exemplo, Jorge Amado. O primeiro foi a “Rosa do Adro”. Por aqui se vê o meu apego ao romance.
Esta representação, ainda que muito sintetizada teve como cenário a frente da Câmara Municipal, local onde outrora viviam os frades no Mosteiro de Refojos. Este Mosteiro Beneditino, ex-libris deste concelho que, na sua arquitetura, tem incluído um zimbório, único segundo dizem, em Portugal! Foi então ali que, se desenrolou durante noventa e cinco minutos mais ou menos este tão belo e trágico romance. O ambiente preparou-se, as luzes ficaram a meio termo, os atores estavam trajados com o rigor da época, mesmo ao mínimo pormenor. Ao ouvir as primeiras palavras naquele cenário a lembrar a nossa igreja, com o "gradeamento" interno onde os frades estavam separados do povo que frequentava a igreja senti que, “estava” lá, naquela época, a assistir ao desenrolar de tudo.
Angélica Florinda, mais conhecida pela Angélica do Picoto, dali da freguesia de Alvite, do lugar do Picoto, muito jovem, dezassete anos, uma bela moçoila, segundo as más línguas, “uma tentação do pecado das carnes”, frequenta a Igreja do Mosteiro de Refojos. Uma moça muito bela, cobiçada pelo capitão-Mor de Cabeceiras, dois frades, o juiz ordinário, o alferes de milícias, o juiz dos órfãos, o escrivão das sisas, o boticário e o mestre da escola, farejavam-na tanto à inveja que a rapariga quando se deparava com qualquer um pela frente com palavras de sedução replicava entre dentes, com maus modos e fazendo figas contra os importunadores.
“Eu tarrenego, diabo” E apertava o passo ligeiro com os olhos postos no chão e o credo na boca! Pobres moços, segundo reza a história nenhum deles tinha ainda vinte e seis anos…
Reecontro de Angélica com o seu filho, que não via há muitos anos Há muito tempo doente, morre ao reconhecê-lo
Reecontro de Angélica com o seu filho, que não via há muitos anos Há muito tempo doente, morre ao reconhecê-lo
Angélica Florinda era a tentação, dos homens, dos anjos e… dos frades.
Um desses frades, rapaz de vinte anos, Frei Tomás de Aquino, rapaz esbelto, espadaúdo, saudável na flor da idade e encerrado num mosteiro contrariado (naquele tempo os filhos dos lavradores ou iam para a guerra ou iam para um mosteiro) conhecia Angélica desde criança e foi-lhe ganhando amizade ao longo do desenvolvimento da moçoila, até que se apaixonou perdidamente por ela e ela também se apaixonou por ele. As constantes idas ao Mosteiro, onde por entre as grades se entreolhavam e falavam em murmúrio, em breve levantou as suspeitas de que algo estava a acontecer ao frade. Ora como o abade do Mosteiro e outros frades a cobiçavam com olhos gulosos não acharam piada a esta “pouca vergonha” que este jovem de Deus estava a infligir à santa Madre da Igreja! As ameaças à pobre Angélica Florinda, do Abade do Mosteiro para que não frequentasse a Igreja e, os ciúmes do frade que a cobiçavam, porque estava a levar à perdição da alma de Frei Tomás de Aquino e outros dentro do convento, fizeram com que este perdesse a cabeça. Envolveu-se numa luta corpo a corpo com outro frade que a cobiçava. Estes acontecimentos chegaram aos ouvidos do Frade Mor que o chamou à ordem, o ameaçou e chegou a prender num local mais isolado do Convento de Refojos. Com todas estas desgraças que lhe aconteceu os pais deste desventurado frade abandonaram-no à sua sorte. Depois disso começara verdadeiramente o infortúnio destes jovens apaixonadas. Há os encontros e desencontros, há partidas para a guerra, há um filho gerado e há mais coisas…
Mas sobre o romance não vou contar mais! Seriam precisos três jornais inteiros para falar sobre ‘A Bruxa de Monte Córdova’! Para mim, valeu a pena reviver, aquele momento, no dia 21 de Setembro ainda que muito superficialmente, mas que, deu para entender, mesmo àqueles que nunca ouviram falar da Bruxa de Monte Córdova e, também, muito possivelmente, de Camilo Castelo Branco. Aconselho vivamente a procurarem o livro nas livrarias da vossa zona. Têm sempre a hipótese de encontrar estes ou outros, na Casa Museu de Camilo Castelo Branco, em Seide, concelho de Famalicão. Eu própria, já fiz isso e, não me arrependi! Só o facto de ser “passado” na nossa terra já terá valido a pena, a procura!
Já muito falei sobre Camilo e sobre algumas das suas obras que li muito jovem e que, com a certeza, que não compreendi toda a sua grandeza. Hoje mulher adulta e bastantes anos em cima, com outra mentalidade vejo as coisas de outra maneira.
Camilo escreveu esta obra julgo que em 1867. Tinha mais ou menos 42 anos.
Adorei e, espero assistir muito em breve a outro evento desta natureza. Quem sabe se eu não farei parte, algum dia, deste grupo de Teatro da Câmara de Cabeceiras de Basto, recreando alguma personagem (trágica ou cómica) daquelas que eu tanto escrevo!

fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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