Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 10-09-2012

SECÇÃO: Opinião

A Imprensa Cabeceirense

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SUBSÍDIOS PARA A SUA HISTÓRIA (1890-1937) - XIV

O FUTURO DE CABECEIRAS (1924-1928)
Em 17 de Julho de 1924 apareceu um novo semanário cabeceirense. Vem fazer concorrência e dar luta ao “Jornal de Cabeceiras” e ao “Ecco”. E, como estes, também se vai intitular semanário republicano, mas agora com o acrescento “bairrista”. Para a sua edição juntaram-se três homens: os proprietários Ângelo de Moura e José Bastos e o advogado Francisco Costa. A direcção e a responsabilidade editorial são entregues a Manuel Baptista Alves. A gerência, redacção e impressão são em Cabeceiras. Apresenta 2 simples páginas – (o preço do papel tinha atingido números astronómicos) – a cinco colunas. A assinatura anual custa dez escudos para o país e 22$00 para o Brasil (em moeda forte). A linha de cada anúncio pagava-se a sessenta centavos.
A entrada do 1º número é bombástica. A toda a largura da 1ª página, o título: POVO DE CABECEIRAS, e logo a seguir:
“Este jornal é teu, inteiramente, d’alma e coração. Pertence-te. Eis para que aparece “O Futuro de Cabeceiras”: - para levantar o nível moral e material d’este concelho que é exuberante e rico e está exausto e pobre. Têm-no enfraquecido e depauperado as lutas políticas dos seus homens públicos, lutas inglórias, pessoais, mesquinhas. Têm-no empobrecido e desfalcado uma horda de famintos políticos de todos os lados e de todas as cores em seu proveito e interesses próprios”.
Na 2ª página, o novo semanário espraia-se sobre os seus colegas da terra e nem um pingo de simpatia:
“Não têm feito nada (…). Nenhum aponta uma ideia, um programa de reconstrução e aperfeiçoamento político – limitam-se a bater um no outro”.
(…) Para o Eco, por exemplo, só são bons, completamente bons, os que seguem a política dos democráticos, ou antes, dos da Ponte de Pé.
(…) Para o “Jornal” só são bons, os afeiçoados da Rapozeira. Para estes, aqueles são como as feras; e estes, para aqueles, são o pior que há”.
Foi uma entrada de leão, que vai terminar com uma gazetilha, assinada por “Galeno”:
“O “Jornal” já esfalfado,
defende a causa perdida;
o “Eco” à estocada
parece fugir-lhe a vida;
ambos formam a oficina
perfeita da trampolitana”

No entanto prestava a sua homenagem a José Augusto Falcão de Azevedo, recentemente falecido, desde sempre ligado à imprensa cabeceirense, a quem classificava de “modelo de bondade, de trabalho e de carácter”.

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Como era costume, os jornais da época desapareciam sem se despedir dos seus leitores. Assim aconteceu com “O Futuro de Cabeceiras”, ainda que este tenha dado um sinal muito ténue. Efectivamente no seu nº 159, de 19 de Janeiro de 1928, na rubrica “Expediente”, informa que o jornal não se publicará na próxima semana, “devido a vários serviços de redacção”. Certo é que não voltou a aparecer. Mesmo assim não desaparecia sem lançar a ideia de uma grande homenagem pública a prestar ao “insigne e benemérito cidadão cabeceirense Dr. Júlio Henriques” que no dia 15 de Janeiro de 1928 completara uns bonitos 90 anos.

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Terminamos aqui estas pequenas notas subsidiárias para o estudo da história da imprensa cabeceirense. Dos concelhos vizinhos só Fafe nos levou a palma no cômputo dos títulos editados e na sua combatividade. A luta política era muito mais renhida que hoje mas também ultrapassava, diga-se em abono da verdade, alguns limites de educação e de bom senso, provocando polémicas históricas que levaram a muitos ódios cegos e inimizades eternas.
Desaparecido o “Futuro” ficaram na liça “O Jornal” e o “Eco”. Este vai desaparecer em 1937, já depois de instituída a censura. Fica só “O Jornal de Cabeceiras” como só ficou uma política. Desapareceu assim a liberdade de imprensa. Desapareceu o direito à contradição, à outra opinião, às outras maneiras de ver e interpretar. A imprensa perdeu a sua graça. Pode-se dizer que com a censura e com um só jornal desapareceu a história da imprensa. E, pessoalmente, estou com um não muito antigo presidente americano que dizia: “Deus nos livre de um homem de um só jornal”.
FIM

Por: Francisco Vitor Magalhães

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