Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 18-06-2012

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (158)

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O TENENTE GONÇALO DE MEIRELES

Esta minha recordação do fidalgo de Santo Antonino surgiu de modo mesmo inesperado, sem a menor dúvida, e veio a propósito da quadra que se vive, a quadra das festas dos santos populares.
Felizmente para mim, e também para o bom êxito destas crónicas, que a minha mãe ainda vive. E eu faço-lhe companhia, ali na sua modesta habitação, no lugar da Cancela, em dois serões semanais. Até comprei uma concertina, e, não tendo grande vocação para o instrumento, não consigo tocar com as duas mãos ao mesmo tempo, por isso não faço os graves, mas dou um jeito nos agudos, nas músicas propriamente ditas. Eu toco, todas as semanas, pelo menos durante dois serões, para a minha mãe.
Pensava eu que ela, a minha mãe, enquanto jovem, e a exemplo da quase totalidade das raparigas da sua idade, nunca tinha saído de Cabeceiras. A minha mãe nasceu na quinta de Chelo, corria o mês de Fevereiro do ano de 1922, e veio para a quinta de Santo Antonino com apenas três anos de idade.
Então não é que, a propósito de festas e romarias, a minha mãe se sai a dizer-me que fora ao S. João, a Braga, durante três anos seguidos, quando tinha dezasseis, dezassete e dezoito anos.
Tentei indagar das circunstâncias em que tais viagens se realizaram e a resposta não se fez esperar.
Que iam de camioneta de carga, três camionetas todos os anos, e que quem pagava era o patrão, o Senhor Tenente Gonçalo de Meireles.
Camionetas de carga? Pois, naquele tempo não havia camionetas da carreira como agora as há. Que iam em cima, sentados em bancos de madeira, como quem se senta nos bancos de uma qualquer sala.
Aqui recuei, eu próprio, no tempo, e verifico que a diferença de idades, entre mim e a minha mãe, não é nada de muito significativo, apenas vinte e três anos. Sendo a minha mãe muito velha (as palavras são dela), eu não posso, de modo nenhum, esquivar-me da dura realidade de que já sou, também eu, um pouco entrado na dita, na idade.
Continuando a recuar no tempo, lembro-me perfeitamente de ver autocarros de passageiros apenas nas carreiras diárias, duas vezes ao dia, que faziam a ligação entre Cabeceiras e Braga, prolongando-se depois até ao Porto.
Transportes de passageiros para festas e romarias eram, efectivamente, realizados por camionetas de carga com bancos adaptados em cima das carroçarias.
Tive a grata oportunidade de sentir tudo isso, um bom par de anos mais tarde, quando fui transportado muitas e variadas vezes, e em muitos e variados trajectos, em cima de camiões de exército português.
Já o referi, em outros escritos, que a primeira vez que cruzei a ponte sobre o Tejo, que se denominava de Ponte Salazar, o fizera em cima de uma Berliet Tramagal propriedade do Batalhão de Reconhecimento das Transmissões instalado, ao tempo, na vila da Trafaria, na margem sul do Tejo.
Voltando ao Tenente Gonçalo de Meireles, ele era uma pessoa muito especial. Antes de tudo era o proprietário da Quinta de Santo Antonino, que tinha quatro caseiros, eles eram: o do Ribeiral; o da Capela; o da Quintã; e o da Casa. Cada caseiro tinha uma família que podia variar entre as cinco e as oito ou mesmo mais pessoas. Para além dos caseiros, havia ainda os seus próprios criados, também no mínimo uns quatro, dois homens e duas mulheres.
A minha mãe era a filha mais velha do caseiro do Ribeiral, o Senhor Adriano de Abreu, e tinha mais cinco irmãos, três rapazes e duas raparigas. Esta era, portanto, uma das famílias de caseiros da quinta que tinha oito elementos.
O patrão financiava as viagens de todos os caseiros, de familiares mais próximos daqueles, e mesmo de alguns amigos. Daí o efectivo de romeiros lotar três camionetas de carga. Este pessoal fazia-se acompanhar de todo o tipo de instrumentos: concertinas, bombos, pandeiros e outros. Uma grande rusga que entrava em Braga, ida de Cabeceiras, e ostentava uma tarja alusiva à Quinta de Santo Antonino.
Antes de continuar, convirá deixar uma sucinta referência ao facto de, sendo o fidalgo de Santo Antonino um militar de rigorosas convicções quanto à profissão, por que é que se ficara pelo posto de Tenente? Poucos o saberão, mas o facto foi que tudo resultou de uma punição. O Senhor Tenente Gonçalo de Meireles não passou do posto de Tenente devido ao facto de ter sido punido, pela hierarquia militar, devido às posições que tomara em favor da causa monárquica nos tempos em que a República ainda tremia.
O Tenente Gonçalo de Meireles gostava de ser tratado segundo as regras militares. Quem a ele se dirigisse, sendo homem, deveria tratá-lo por “Meu Tenente”, e tirar a boina ou o chapéu mal o avistasse à distância.
Foram inúmeros os rapazes de cá, da terra, que conseguiram empregos, nas duas maiores cidades do país, devido aos bons ofícios, aos empenhos, do Senhor Tenente, empregos na Polícia, na GNR e na Carris do Porto e de Lisboa. Ele tratava os Generais por tu e falava com os membros do Governo sem a mínima das dificuldades.
Sempre que se encontrava na sua casa da quinta de Santo Antonino, de férias ou de fim-de-semana, não havia dia em que não fossem vistos jovens por ali, à procura de um contacto com o Senhor Tenente, para lhe fazerem um pedido de emprego. O Senhor Tenente recebia-os a todos e sempre deixava uma palavra de esperança.
Atingiu a idade da reforma quando era director do Museu de Soares dos Reis. Para aqueles que possam não o saber, o Museu de Soares dos Reis encontrava-se, e ainda se encontra, instalado no Palácio das Carrancas, sito na Rua de D. Manuel II da cidade do Porto, ali bem próximo do Hospital Geral de Santo António.
Morreu no dia vinte e dois de Maio de 1969, na sua casa da Quinta de Santo Antonino, quando tinha setenta e três anos de idade, e foi sepultado, por exigência sua, na capela privativa da quinta.
Um grande homem da nossa terra, que deixou enormes saudades, muito em particular a alguns daqueles que, ainda jovens, esperavam vir a conseguir, por seu intermédio, aquele emprego que tanto almejavam.

Por: José Costa Oliveira

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