Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 18-06-2012

SECÇÃO: Informação

Terra Batida com lotação esgotada

Picadeiro do Centro Hípico foi palco do espetáculo
Picadeiro do Centro Hípico foi palco do espetáculo
O picadeiro interior do Centro Hípico de Vinha de Mouros teve lotação esgotada com a encenação da peça de tetro ‘Terra Batida’ protagonizada pelo Centro de Teatro da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto, um evento que integrou o programa da terceira edição da Feira do Cavalo, que decorreu nos dias 2 e 3 de junho.
Com os alunos da Universidade Sénior de Cabeceiras de Basto (USCab) no elenco, a peça contou com a participação especial dos Cavaquinhos da Raposeira, das Mulheres de Bucos, dos jovens da Oficina de Interpretação Teatral do CTCMCB e do Rancho Folclórico ‘Os Camponeses de Arosa’.
‘Terra Batida’ trouxe, assim, “à memória o passado, os usos, costumes e tradições de um povo” que dedicou uma vida ao trabalho da terra.
Quatrocentas e cinquenta pessoas assistiram ao espetáculo onde “a vivência das antigas gerações foi transmitida às novas gerações”, destacou o presidente da Câmara Municipal, Eng.º Joaquim Barreto, visivelmente satisfeito com a realização do espetáculo e com o público que aderiu em massa ao evento.
O Rancho de Arosa participou na peça
O Rancho de Arosa participou na peça
Tal como se lê na sinopse do espetáculo, “os mais novos de hoje não sabem lavrar, malhar, mondar, podar… - também não precisam de saber, dirão alguns. Muitos não sabem rezar, só bebem coca-cola, não gostam de bacalhau, não comem caldo, riem-se por tudo e por nada e até parece que troçam dos mais velhos. Desconhecem os costumes e as tradições, as cantigas e as histórias… talvez andem distraídos com outras coisas. A vida hoje é bem mais fácil, dirão eles… e ainda bem! Foi para isso que os nossos pais trabalharam.
- É aqui que o teatro de comunidade se torna fundamental: observando, repensando, interpelando e intervindo sobre a memória e a identidade de uma região; ser a ponte entre gerações numa partilha generosa de saberes e experiências de vida”.
‘Terra Batida’ propôs, assim, uma revisita a uma qualquer aldeia de Cabeceiras de Basto, num tempo em que ainda se cantava nos campos, acompanhando um dia de trabalho de sol a sol. Sentiu-se “o valor de uma terra diariamente revolvida para matar a fome, calcada pelos pés de quem dela depende”. Viu-se “como a revolta, o desespero, a angústia e as aflições, logo se desvaneciam quando se aprontava o merendeiro e se ajuntavam todos na eira para bailar e cantar. Porque a cada novo dia desistimos… e logo ressuscitamos da enorme terra batida que nos cerca”.
‘Terra Batida’ pretendeu mostrar aos jovens de hoje e também recordar aos mais velhos o que se passava há 40 ou 50 anos, em Cabeceiras de Basto, contribuindo para preservar a identidade de portugueses e cabeceirenses e a história local.
Os atores “representaram uma qualquer aldeia onde vivia um ou outro proprietário que, com base na política do ‘quero, posso e mando’, tinha em conta apenas o lucro, sob o peso da fome e do suor”.
Recriaram o trabalho braçal de malhar o centeio nas eiras, o labor de amassar e cozer o pão no forno comunitário e a emigração clandestina na sequência da miséria dos que trabalhavam a terra. “Apesar de explorado, o povo teimava em tornar o trabalho alegre e divertido, cantando e dançando para amenizar a dureza em que viviam. A entreajuda e a solidariedade eram uma realidade entre os trabalhadores”, justificam os atores desta peça de teatro.
‘Terra Batida’ é o fruto de uma recolha de obras de escritores locais e enriquecida com sugestões e vocábulos dos atores, é o regresso ao passado de uma vida dura e sem horizontes.
A lotação do espetáculo esgotou
A lotação do espetáculo esgotou

Na primeira pessoa:

José Barroso - pároco em ‘Terra Batida’
“Esta peça de teatro é um reviver de um tempo na nossa história, recuando há 60 anos atrás. Havia sempre um patrão todo-poderoso e toda a gente trabalhava para ele a troco de quase nada e nós tentamos retratar essa época. Nesta peça a senhora poderosa quer expulsar e tirar a terra aos trabalhadores e eles deixam de ter o que comer e lamentam-se. No meio disto tudo, o meu papel é de preocupação e de conversa com os agricultores para tentar acalmar os pobres.
Felizmente, hoje, o povo não é explorado da forma como era antigamente. A educação permitiu a evolução da nossa sociedade e hoje os patrões têm um comportamento diferente do de antigamente.
Eu inscrevi-me na Universidade Sénior e o teatro e a música são para mim e para todos os alunos um passatempo. Estas atividades permitem-nos uma ocupação salutar e isso para nós é essencial”.

Maria Teresa Ramos – comadre em ‘Terra Batida’

“Nesta peça, o meu papel é o de uma comadre que se junta com outras comadres no cruzeiro para conversar sobre a vida da época. Esta peça faz-nos recordar a infância, particularmente a mim que vivi num meio como este que aqui apresentamos. Pretendemos mostrar às gerações mais novas como se vivia anteriormente.
Ainda bem que as coisas mudaram porque antigamente os patrões exploravam os caseiros que trabalhavam de sol a sol e depois iam dar metade daquilo que produziam aos patrões que permaneciam ‘sentados nas suas cadeiras’. É isso que pretendemos aqui mostrar: a história das nossas aldeias e do nosso concelho.
O grupo do Centro de Teatro é muito empenhado e eu estou a gostar muito. O trabalho deles está à vista de toda a gente”.

Armando Luís / Roberto Moreira

“Terra Batida é usar o teatro como peça fundamental de ponte entre gerações. Os jovens estão um pouco distantes desta realidade que é malhar o centeio, o milho, podar, lavar a terra, não viveram aquilo que é a força de um povo que tem de trabalhar para sobreviver e, mesmo nesse sofrimento e angústia, arranjavam a motivação e a alegria para esquecer todas as agonias, juntar o povo na eira e trabalhar, cantar e dançar.
Pretendemos mostrar a força do povo e a alegria que se vivia nos campos, mesmo em tempo de crise. Foi nos anos 40 que as pessoas começaram a passar fome e começaram a emigrar clandestinamente. Nessa altura, sim, a crise era preocupante porque as pessoas não tinham o que comer. E como é que se dava a volta por cima? Esta é na nossa opinião a Terra Batida.
Este trabalho de teatro de comunidade não é novo para nós. Este é o fruto do nosso trabalho, é o objeto do nosso trabalho, é a nossa realidade e portanto a pesquisa das tradições já vem detrás.
Para construirmos este texto tivemos que ler autores de Cabeceiras de Basto, como o caso de Alexandre Vaz, José da Costa Oliveira, entre outros. Foi também feito todo um trabalho na sala de ensaios com todas as expressões usadas no campo. Perguntamos aos atores, que conhecem a realidade de outrora, como é que era antigamente e tentamos ir ao mais íntimo pormenor. Este é, por isso, o resultado de um trabalho coletivo.
Terra Batida representa o quotidiano de uma qualquer freguesia de Cabeceiras de Basto e nós quisemos passar esta mensagem da interajuda que havia na altura entre as famílias, os vizinhos. Quisemos passar a mensagem de que isto é possível”.


FICHA TÉCNICA:
Texto: Armando Luís
Encenação: Armando Luís e Roberto Moreira
Cenografia, Figurinos e Adereços: Joana Veloso
Desenho de Luz e Som: Miguel Marques
Elenco: Alcina Teixeira, Alexandre Teixeira, Alice Castro, Armando Luís, Arminda Vaz, Filomena Pacheco, Joaquim Leite, José Barroso, José Pereira, Manuel Ferreira, Olga Bastos Barbosa, Roberto Moreira, Teresa Ramos e Valdir Teixeira
Participação Especial: Cavaquinhos da Raposeira, Mulheres de Bucos, Oficina de Interpretação Teatral CTCMCB (Francisca Magalhães, Gil Fernandes, Margarida Ribeiro e Marilisa Monteiro), Rancho Folclórico ‘Os Camponeses de Arosa’
Direção Técnica: Joana Veloso
Produção Executiva e Assessoria de Comunicação: Alexandre Reis
Colaboradores: Alícia Andrade, Bruno Pimenta, Catarina Ribeiro, Célia Ribeiro, Diogo Pacheco, Inês Rolo, Laura Carvalho, Leonor Basto, Lucinda Moura Coutinho, Manuela Teixeira, Mariana Farias, Patrícia Teixeira, Sara Gomes, Tânia Leite e Vera Pacheco
Produção: CTCMCB – Centro de Teatro da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto
Classificação etária: maiores de 12 anos
Duração: 60 min aprox.
Organização: Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto e Emunibasto, E.E.M.
Agradecimentos: Ass. Desp. e Cultural S. João Baptista de Bucos, Célia Ribeiro, Junta de Freguesia de Bucos, Junta de Freguesia de Passos, Maria Adelina Fernandes, Maria Emília Pereira e Rancho Folclórico de S. João Baptista de Cavez

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